Outra decepção

Não tenho tido sorte na escolha dos meus últimos livros. O Vinte cartas a um amigo prometia ser bom. Primeiro porque cartas rendem livros interessantes, pelos dados biográficos e pela sinceridade. Depois porque sua autora, Svetlana Alliluyeva, era filha de Stálin. O livro prometia bastidores ótimos sobre o início do socialismo russo com uma pitada de dados biográfios exclusivos. Só que até a página 53 (onde meus esforços alcançaram) os dados biográficos são tão idiossincráticos que chegam a dar sono: as últimas horas ao lado do pai, Stálin dormindo num quarto com lareira, Stálin contemplando o jardim… Ela deixa claro que ela não tinha nada a ver com o Partido e que Stálin se afastou do convívio com a família; então, o que tem a falar é sobre o seu pai na intimidade. Quem sabe muitas páginas depois aparecessem as dificuldade do povo russo e as importantes mudanças políticas da época, mas acho improvável – a filha de Stálin deve ter sido poupada e o livro é biográfico no sentido mais restrito do termo.

Maldita inclusão digital?

O “maldita inclusão digital” já virou uma expressão com vida própria. Ela é uma maneira rápida de mostrar desagrado diante de um texto mal escrito, uma montagem brega no youtube ou qualquer outra coisa que denuncie um gosto ou origem mais popular. Quem usa acha que disse tudo numa tacada só: reconhece algo mais popular quando o vê, sabe do recente aumento da capacidade de consumo, se declara como parte de uma classe que estava aqui muito antes e que lamenta a entrada de novos membros. O que ele consegue, na verdade, é ser preconceituoso.

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Um século e cinco dias


Uma breve história do século XX é um best seller que tenta fazer o leitor leigo, com apenas 308 páginas, entender os principais fatos e mudanças ocorridas no último século. Projeto ambicioso, que podia ser muito bom ou um desastre. Geoffrey Blainey, o autor, faz o possível para torná-lo interessante. O livro não se concentra apenas nos acontecimentos políticos e grandes estadistas, tal como as histórias de antigamente. Ele nos informa mudanças de comportamento, tecnologias usadas na época, expectativas da vida. Em meio a grandes acontecimentos, há exemplos triviais significativos. Só que isso não é o suficiente. O problema do livro é justamente o tamanho do empreendimento, ter coisas demais para relatar. Em muitos momentos ele parece um livro didático, com informações generalistas e imprecisas. Um bom exemplo é quando ele diz que a escravidão foi abolida no Brasil já no início do século – 1888 é início do século XX?  Por outro lado, a necessidade de citar vários países acaba tornando tudo um amontoado de informações. É daquelas leituras que ao final do capítulo quase tudo já foi esquecido. O resultado final é que o livro possui momentos interessantes, mas que não conseguem segurar o leitor.
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O que um livro tem de chato e não chegar a lugar nenhum, o outro tem de interessante. Cinco dias em Londres é um clássico na área de história e jornalismo. Ele consegue trazer informações novas mesmo para aqueles que já conhecem e se interessam pela Segunda Guerra Mundial. De acordo com Lukacs, seu autor, num período de cinco dias, em Londres, o rumo da Segunda Guerra Mundial e, por consequencia, da história mundial, foi alterado. Nesses cinco dias, Churchill emergiu como líder e colocou a Inglaterra contra o Terceiro Reich. Para entender que mudança isso significou, o livro nos coloca dentro do espírito que dominava a Inglaterra nesse período. Para tanto, somos informados sobre os avanços de Hitler, e que informações se dispunha sobre ele, as negociações e os bastidores do parlamento inglês, qual a opinião pública sobre o conflito – tudo amplamente discutido através de documentos, cartas, livros e depoimentos. O principal personagem do livro, Winston Churchill, estava longe de ser a unanimidade. Considerado exagerado e inconfiável, com uma posição insistente contra Hitler, ele surge aos poucos como única alternativa ao conflito. O livro consegue mostrar a ação titubeante do presente – não a história dos que olham para trás e possuem as respostas e sim a ação daqueles que ainda não sabem o que fazer. Como lição, ele recupera a importância de pequenas decisões, batalhas que nem sempre envolvem tiros.

O poder da arte – David

A série O Poder da Arte – excelente recomendação da Tina – ao falar dos pintores acaba revelando um pouco de seu contexto histórico. Isso é especialmente importante no caso de Jacques-Louis David, pintor do conhecido quadro da morte de Marat. A trajetória de David revela um pouco da Revolução Francesa e o poder da propaganda. Vale a pena conferir.

Nêmesis

Vai um post curtinho porque não tem muito o que falar do livro. Ele conta a história de um futuro em que a Terra formou colônias em naves espaciais e se preocupa com a ocupação de outros planetas.
Nêmesis é um dos livros recentes de Asimov, é de 1989. É uma obra mais madura, que usa de recursos literários e corrige problemas anteriores. Aqui há personagens femininas, e elas não são apenas coadjuvantes ou caricatas. Há mais personagens e eles são mais consistentes. Os diálogos são melhores, e até mesmo as cenas de sexo são melhores – não que as cenas de sexo estejam bem descritas, e sim que o autor desistiu de fazê-las (e constranger o leitor). A história de Nêmesis é formada por duas narrações paralelas que se encaminham para um encontro: o núcleo da colônia de Rotor, com Marlene e a mãe, e o núcleo terráqueo, com o pai de Marlene. Esse encontro envolve busca tecnológica, rivalidade entre culturas, espionagem, conhecimento científico y otras cositas.
É um livro interessante. Apesar das melhorias, não é uma obra inspirada. Em Fundação, a história toda duraria algumas páginas.

Veronese – um quadro em julgamento

Vi esse programa há muitos anos. Mais do que a avalição de um quadro específico, ele ensina a olhar a arte de maneira diferente, entender as diferentes tecnicas empregadas para chegar a certos efeitos, e até que ponto o pintor atingiu seus objetivos. Entender as dificuldade técnicas, ao invés de desmistificar, aumenta ainda mais a nossa admiração pelos grandes mestres.

Um pouco mais do que vadias

A agenda feminista mais atual é lutar pelo direito das “vadias”. Segundo a explicação que li, o termo vadia foi escolhido porque as mulheres que são estupradas são acusadas de serem vadias, ou seja, de terem provocado o seu próprio estupro ao se vestirem de maneira inadequada ou terem um comportamento sexual que atiça o seu agressor. Dizer que somos todas vadias é reivindicar o direito da mulher sobre o seu próprio corpo.

Mas é claro que é um pouco mais do que isso. O termo vadia fala de um comportamento sexual, e quando a gente fala do corpo de uma vadia, estamos falando do direito de fazer sexo com quem quiser. Reivindica-se que uma mulher possa ter o número de parceiros que queira sem que ela seja desqualificada por isso, tal como os homens. Quando vejo esse tipo de luta, não consigo deixar de lembrar do História da Sexualidade de Foucault: o quando nossa sociedade construiu algo enorme em torno do sexo, reprimindo, esmiuçando, temendo. Que esse olhar tornou o sexo algo misterioso, um segredo que aumenta e recua quanto mais nos dedicamos a decifrar. O sexo de hoje é muito maior do que penetração – há de se ter conhecimento, técnica, variedade, acessórios, libertinagem, frequência, potência. Fazer muito sexo, ser um expert no sexo, é quase como sinônimo de felicidade. Ou seja, as mulheres estão sendo privadas de um direito fundamental na busca pela felicidade.

Se for pensar no direito da mulher sobre o seu próprio corpo, a questão sexual me incomoda muito menos do que a estética. Sobre ser vadia, não há como negar que vivemos avanços consideráveis, basta pensar no que era permitido às nossas mães e o que podemos hoje. Hoje não é mais direito de um homem matar uma mulher que lhe traia. Uma mulher que queira fazer sexo tem alternativas, inclusive para esconder e continuar usufruindo das vantagens de ser uma “mulher correta”. Já a idéia de ter que se manter jovem, bonita e magra durante a vida inteira consegue atingir todas as mulheres e ser muito mais cruel. Sejam elas vadias, puritanas, jovens, velhas, casadas, solteiras, pobres ou ricas, todas estarão inseguras sobre sua aparência. Nossa idéia de beleza contribui com uma indústria enorme de estética, determina hábitos alimentares, gera operações desnecessárias, causa doenças. Que as mulheres façam muito sexo, mas pra fazer sexo elas devem estar depiladas, siliconadas, magrinhas… Encontrar grupos que contestem os valores da nossa sociedade e que aceitem um comportamento sexual livre entre as mulheres até que é fácil. Difícil é encontrar uma mulher confortável dentro da sua pele.

Para Foucault, a história é formada por avanços e recuos pela luta de vários grupos pelo poder. Quando se marcha pelas vadias, eu não tenho certeza de que direção estamos indo.