Um pouco mais do que vadias

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A agenda feminista mais atual é lutar pelo direito das “vadias”. Segundo a explicação que li, o termo vadia foi escolhido porque as mulheres que são estupradas são acusadas de serem vadias, ou seja, de terem provocado o seu próprio estupro ao se vestirem de maneira inadequada ou terem um comportamento sexual que atiça o seu agressor. Dizer que somos todas vadias é reivindicar o direito da mulher sobre o seu próprio corpo.

Mas é claro que é um pouco mais do que isso. O termo vadia fala de um comportamento sexual, e quando a gente fala do corpo de uma vadia, estamos falando do direito de fazer sexo com quem quiser. Reivindica-se que uma mulher possa ter o número de parceiros que queira sem que ela seja desqualificada por isso, tal como os homens. Quando vejo esse tipo de luta, não consigo deixar de lembrar do História da Sexualidade de Foucault: o quando nossa sociedade construiu algo enorme em torno do sexo, reprimindo, esmiuçando, temendo. Que esse olhar tornou o sexo algo misterioso, um segredo que aumenta e recua quanto mais nos dedicamos a decifrar. O sexo de hoje é muito maior do que penetração – há de se ter conhecimento, técnica, variedade, acessórios, libertinagem, frequência, potência. Fazer muito sexo, ser um expert no sexo, é quase como sinônimo de felicidade. Ou seja, as mulheres estão sendo privadas de um direito fundamental na busca pela felicidade.

Se for pensar no direito da mulher sobre o seu próprio corpo, a questão sexual me incomoda muito menos do que a estética. Sobre ser vadia, não há como negar que vivemos avanços consideráveis, basta pensar no que era permitido às nossas mães e o que podemos hoje. Hoje não é mais direito de um homem matar uma mulher que lhe traia. Uma mulher que queira fazer sexo tem alternativas, inclusive para esconder e continuar usufruindo das vantagens de ser uma “mulher correta”. Já a idéia de ter que se manter jovem, bonita e magra durante a vida inteira consegue atingir todas as mulheres e ser muito mais cruel. Sejam elas vadias, puritanas, jovens, velhas, casadas, solteiras, pobres ou ricas, todas estarão inseguras sobre sua aparência. Nossa idéia de beleza contribui com uma indústria enorme de estética, determina hábitos alimentares, gera operações desnecessárias, causa doenças. Que as mulheres façam muito sexo, mas pra fazer sexo elas devem estar depiladas, siliconadas, magrinhas… Encontrar grupos que contestem os valores da nossa sociedade e que aceitem um comportamento sexual livre entre as mulheres até que é fácil. Difícil é encontrar uma mulher confortável dentro da sua pele.

Para Foucault, a história é formada por avanços e recuos pela luta de vários grupos pelo poder. Quando se marcha pelas vadias, eu não tenho certeza de que direção estamos indo.

4 comentários em “Um pouco mais do que vadias”

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