Eu, Robô

Quando me propus a ler Asimov, eu fiz tudo errado. Comecei por Fundação, que lá pelo meio do livro fica muito chato, e leva mais de cem páginas pra recuperar o ritmo. Depois li Fim da Eternidade e Nêmeses, que são histórias menores. Deveria ter começado por Eu, Robô – uma história dinâmica, criativa e inesperada. Esse livro justifica toda adoração por Asimov. Esqueça o filme com Will Smith, que não tem nada a ver com o livro, fora o fato de citar As Três Leis da Robótica:

1- Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2- Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

3- Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Essas leis, que parecem tão simples quando lemos, são destrinchadas por Asimov em cada uma de suas possíveis complicações. Há um fio condutor, mas na verdade o livro é constituído de várias histórias de problemas de relacionamento com os robôs, quase sempre por causa das leis. Sobre ferir um ser humano, isso pode ser tanto no aspecto físico quando psicológico? E quando esse cuidado de não permitir que o ser humano sofra qualquer mal é tomado tão literalmente que impede o uso de robôs em lugares de risco? Como um robô reagiria de posse de informações desejadas mas que se fornecidas podem gerar algum mal? O que nos parece claro pode não ser quando pensamos numa programação – tal como acontece de verdade. O autor levanta essas questões e cria histórias, suas consequencias e soluções. O final é uma verdadeira provocação científica e uma confissão de fé. As quase trezentas páginas passam sem sentir e eu estou louca para ler Nós, Robôs.

Pedro Cardoso fala sobre pornografia velada

Essa entrevista com o ator Pedro Cardoso, dividida em quatro partes, é muito interessante e recomendaria a todos assistirem inteira. Ela começa com o trabalho dele na Grande Família e depois vai para outras discussões: a mídia e as perseguições dos papazzari, a classe artística, a questão do indivíduo no Estado. No final da terceira parte, ele começa a falar da peça de teatro e filme que fez com o tema da sexualidade que não teve cena de nudez. Ao optar por não explorar a nudez, Pedro Cardoso se deu conta da constante exploração do nu, especialmente o feminino, e o que ele chama de pornografia velada.

O grande Gatsby

Vi há uns dez anos o filme O Grande Gatsby, na versão de 1974. Lembrava poucas coisas do filme: Robert Redford lindo em camisas coloridas, Mia Farrow num papel que combina bem com a imagem que temos dela por causa dos filmes (e da separação) com Wood Allen e uma sensação muito grande de opressão e simpatia por Gatsby. O livro é curto (156 páginas), e me parece que o filme conseguiu transmitir muito bem uma atmosfera que é mais sugerida do que descrita. Olha que um filme ficar à altura do livro, mesmo que um livro fino, é um grande feito. Fico desgostosa em saber que fizeram outra versão, com Di Caprio. Não precisava.

Sorriu compreensivamente – muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava – ou parecia encarar – todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar. Precisamente nesse ponto o sorriso se dissipou – e vi-me diante de um jovem elegante e grosseirão, que passava um ou dois anos dos trinta, e cuja maneira cerimoniosa de falar faltava pouco para ser absurda. Pouco antes de ele haver dito quem era, eu tivera a impressão de que ele escolhia as palavras com cuidado.

p.44
São poucos os trechos que, como esse, dá vontade de saborear. Não é um livro de descrições; a narrativa é ágil. A história é contada a partir do ponto de vista de Nick Carraway, uma pessoa comum. Por laços de parentesco e proximidade geográfica, ele se vê envolvido numa história de amor mal resolvido entre os que vivem com muito mais dinheiro do que pessoas comuns alcançam. Compartilhamos com ele o fascínio ao andar pelos ambientes amplos, as aparências, as grandes festas, carros potentes, mulheres vaporosas e homens que parecem ter a certeza de que o mundo nasceu para servi-los. A ação se passa na década de 20, período de grande prosperidade nos Estados Unidos. O dinheiro aparece como uma luz forte que absorve a todos, ao mesmo tempo que entedia e enoja. Há algo nesse dinheiro; a sensação de vazio e decadência é palpável. Eu poderia dizer que há duas maneiras de se ver a história do livro, mas acho que ninguém consegue pensar em Gatsby apenas como um homem apaixonado. Ele é o novo-rico, ele é aquele que se deixa iludir com a idéia do self-made man. É um livro crítico, que gera nos seus leitores reflexões amargas.

Era no tempo do rei

Eu nunca havia ouvido falar nesse livro de Ruy Castro, autor de biografias famosas como Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha e O anjo pornográfico, sobre Nelson Rodrigues. Era no tempo do rei: um romance da chegada da Corte não é um livro ambicioso. Imagino que Ruy Castro havia pesquisado esse período, por conta de algum projeto mais ambicioso e sério, e conhecer tantos personagens reais e interessantes fez com que ele tivesse vontade de dividir essas informações. Que outra maneira havia de tornar públicas vidas como as do major Vidigal e da prostituta Bárbara dos Prazeres? É um livro que eu faria meus alunos lerem, se eu fosse professora de história. É divertido, leve e informativo.

Em menos de dois anos por aqui, Blood ficara rico exportando produtos brasileiros convencionais, como café, cachaça e pimenta – e podre de rico com a vasta fauna patrícia que despachava para animar os salões da Europa: papagaios, micos, catinguelês, cágados, tamanduás, onças e lobos-guarás, além de uma formidável passarada, com espécimes dos mais diversos feitios, tamanhos, cores, formato de bico, comprimento de cauda e estilo de canto. Os campeões de venda em suas exportações, no entanto, eram os macacos, disputados em algumas cortes européias por sua aptidão para catar piolhos humanos. Mas tudo que voasse, corresse ou rastejasse caía nas arapucas dos caçadores de Blood, e os navios com suas cargas, que zarpavam quase toda semana para Liverpool, deixavam no chinelo a Arca de Noé.
Quando esses navios voltavam ao Rio, traziam âncoras, banheiras, fogões, cofres, caldeiras, bigornas e toda espécie de ferragem de segunda mão, fabricada na Inglaterra, que Blood vendia a peso de ouro para o incipiente mercado brasileiro. O resultado é que, em algumas regiões do Brasil, já havia uma praga de formigas, pela súbita escassez de tamanduás. Em compensação, em cada casa havia uma bigorna pronta para ser usada, embora nem todos soubessem para o que servia.
p.20-21
O livro conta uma aventura de Dom Pedro, com doze anos, e seu alter-ego pobre, Leonardo. A aventura em si é um mero pretexto para nos fazer conhecer um pouco o Rio de Janeiro do período. O livro fala da família real, das suas disputas, segredos de alcova, aparência física e muitos outros detalhes idiossincráticos e interessantes. Ele desmente a imagem que temos de Dom João, como um imperador inútil e burro, e nos faz entender de onde e com que interesse essa imagem foi forjada. Além disso, conhecemos um pouco dos costumes da época e personagens que o autor faz questão que saibamos que realmente existiram. O livro é baseado em tantos fatos reais, que num determinado ponto não sabemos o que é realidade e o que é ficção. No fim, isso não tem a menor importância: sem sentir, estudamos um pouco e nos divertimos com a história do Brasil.

George e o segredo do universo

Eu não sei pra que idade o livro George e o segredo do universo se destina. Embora não tenha sido feito pra mim, eu li com interesse. Também posso imaginar uma criança interessada em ficção científica com ele nas mãos. A história é simples, mas bem amarradinha. Algumas descrições são tão bonitas e sinestésicas, que fico muito curiosa em saber se elas foram obra de Lucy ou do próprio Stephen Hawking:

No entanto, a Casa Vizinha era totalmente diferente. Muitas vezes George subiu no teto do chiqueiro para observar por cima da cerca aquela gloriosa floresta emaranhada. O matagal exuberante formava pequenos esconderijos, e as árvores tinham ramos encurvados e cheios de nós, ideais para um garoto subir. Amoreiras silvestres cresciam em grandes touceiras espinhentas, com os galhos ondulados parecendo se espichar em estranhos braços como trilhos de uma estação ferroviária. No verão, as ervas daninhas se enroscavam em todas as outras plantas do jardim, como uma teia de aranha verde; dentes-de-leão amarelos brotavam por toda parte; uma serralha sanguinária gigante, de espinhos venenosos, se destacava, ameaçadora, como uma espécie de outro planeta, e pequenos miosótis azuis cintilavam sua beleza em meio àquela brilhante confusão verde do quintal da Casa Vizinha.

p.14-15

George tem pais idealistas e radicais no repúdio à ciência. Graças à um super computador, ele passa a ter acesso à viagens pelo universo e sem querer se mete numa disputa entre cientistas. Além da aventura em si, o livro é sensível e fala de inseguranças, ser diferente na escola, ética. Separadas e dentro do contexto da história, explicações sobre os planetas, cometas, galáxias, buracos negros. As informações estão resumidas e acompanhadas de lindas fotos. É um livro que não duvida da inteligência das crianças e que coloca qualquer um mais interessado nas origens do universo.

Um insight literário sobre antidepressivos

Ana Terra não tomava antidepressivo.

Por mais que os remédios estejam se tornando comuns – perigosamente comuns -, é difícil não existir uma culpa com relação a isso. A pessoa deveria ser mais forte. Ela deveria conseguir viver sem ajuda medicamentosa e não consegue. Temos em mente que as gerações anteriores passaram por situações difíceis e nunca tomaram nada. Como se em algum lugar parte dessa força tivesse se perdido. Não somos mais aqueles defendem suas terras a tiros, matam suas próprias galinhas, têm e perdem muitos filhos no parto; como se com a pacificação do dia a dia tivesse ido embora a fibra e a capacidade de superação.

Só que Ana Terra – por mais realista e simbólica que ela seja – é apenas um personagem de ficção, uma suposição de um autor contemporâneo. Uma história semelhante escrita naquela época revelaria outros aspectos. O interessante de ler livros escritos em séculos passados é justamente o que é revelado sem que os autores tenham consciência: os costumes do dia a dia, as rotinas, as reações, o que há de mais prosaico, a leitura que as pessoas fazem da sua realidade. Eu notei algo lendo Charles Dickens, que também está presente em Jane Austen, que seria “a grande doença”. Depois de ficarem ricos e pobres, tomarem decisões difíceis e quase morrerem, comumente os personagens de Dickens caem doentes. Em Jane Austen, as mocinhas caem doentes depois de serem seduzidas por rapazes nobres e finalmente perceberem que eles não querem casar. Tanto num caso como no outro, os personagens ficam à beira da morte, fracos, delirantes. As pessoas à sua volta não sabem se eles serão capazes de sobreviver a tudo que passaram. É claramente uma maneira de digerir o que viveram, uma pausa para se acostumarem à sua nova realidade.

Antigamente as pessoas não tomavam antidepressivos, mas adoeciam e ficavam de luto. Hoje em dia tendemos a pensar no costume das mulheres de vestirem preto na viuvez como uma simples limitação. Como se toda viúva se sentisse como Scarllet O´Hara com vontade de participar do baile – a mesma Scarllet que, muitas páginas depois, adoece gravemente quando perde a filha. Os costumes relativos ao luto e às perdas não seriam tão duradouros se não fizessem sentido para os envolvidos. Mais do que vestir preto e adotar certas atitudes, antes havia um reconhecimento maior da dor e da necessidade de atender essa dor. Para atender a dor, era preciso tempo. Não se esperava que a pessoa passasse por situações penosas e na semana seguinte estivesse útil e sorridente de novo. Nem Ana Terra seria capaz disso sem tomar umas bolinhas.

Mulher de poderoso

(O post se referia à entrevista de Andressa Mendonça ao Fantástico. Ela foi retirada do youtube)
O que chama a atenção nessa entrevista, pelo menos entre as pessoas com quem conversei, é que a mulher do Cachoeira é tão linda quanto burra. A mim isso não surpreende, ao contrário: acho que para estar ao lado de um homem poderoso, as duas características acabam sendo pré-requisitos. Lembro de um amigo do meu pai, riquíssimo, que trouxe uma mulher do interior do Alagoas, mais nova do que eu (na época eu tinha vinte e poucos anos) para viver com ele no flat. Burra de dar dó. Eu não conseguia conversar com ela, ela não tinha assunto. Isso de maneira alguma o incomodava; para conversar, ele tinha o meu pai. Mulher era pra outra coisa. Como, por exemplo, exibir com um vestido lindo no Réveillon mais caro de Salvador.
É como se a mulher tão forte e inteligente quanto o homem fosse uma necessidade de classe média. As que estão muito acima e muito abaixo da pirâmide ainda parecem ver na beleza, no corpo e no casamento as melhores maneiras de ascender socialmente. Penso nas mulheres-frutas, tão felizes com suas plásticas e a bunda na televisão. Não é desses segmentos que as feministas vêm. Para as feministas, mulheres como Andressa Mendonça são um retrocesso; para elas, não há vantagens o suficiente nessa tal libertação feminina.