O grande Gatsby

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Vi há uns dez anos o filme O Grande Gatsby, na versão de 1974. Lembrava poucas coisas do filme: Robert Redford lindo em camisas coloridas, Mia Farrow num papel que combina bem com a imagem que temos dela por causa dos filmes (e da separação) com Wood Allen e uma sensação muito grande de opressão e simpatia por Gatsby. O livro é curto (156 páginas), e me parece que o filme conseguiu transmitir muito bem uma atmosfera que é mais sugerida do que descrita. Olha que um filme ficar à altura do livro, mesmo que um livro fino, é um grande feito. Fico desgostosa em saber que fizeram outra versão, com Di Caprio. Não precisava.

Sorriu compreensivamente – muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava – ou parecia encarar – todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar. Precisamente nesse ponto o sorriso se dissipou – e vi-me diante de um jovem elegante e grosseirão, que passava um ou dois anos dos trinta, e cuja maneira cerimoniosa de falar faltava pouco para ser absurda. Pouco antes de ele haver dito quem era, eu tivera a impressão de que ele escolhia as palavras com cuidado.

p.44
São poucos os trechos que, como esse, dá vontade de saborear. Não é um livro de descrições; a narrativa é ágil. A história é contada a partir do ponto de vista de Nick Carraway, uma pessoa comum. Por laços de parentesco e proximidade geográfica, ele se vê envolvido numa história de amor mal resolvido entre os que vivem com muito mais dinheiro do que pessoas comuns alcançam. Compartilhamos com ele o fascínio ao andar pelos ambientes amplos, as aparências, as grandes festas, carros potentes, mulheres vaporosas e homens que parecem ter a certeza de que o mundo nasceu para servi-los. A ação se passa na década de 20, período de grande prosperidade nos Estados Unidos. O dinheiro aparece como uma luz forte que absorve a todos, ao mesmo tempo que entedia e enoja. Há algo nesse dinheiro; a sensação de vazio e decadência é palpável. Eu poderia dizer que há duas maneiras de se ver a história do livro, mas acho que ninguém consegue pensar em Gatsby apenas como um homem apaixonado. Ele é o novo-rico, ele é aquele que se deixa iludir com a idéia do self-made man. É um livro crítico, que gera nos seus leitores reflexões amargas.

5 comentários em “O grande Gatsby”

  1. Esse livro é um dos meus preferidos. Claro que eu tenho lido livros de feitios inalcançáveis, mas esse é um dos poucos que eu realmente invejo o prodígio da escrita.

    (Se sair conforme o planejado, na terça já terei em mãos o Grande Sertão.)

  2. Como assim “não precisava”? Quem decide se precisava ou não? Isso é tão superficial… “Não precisava”, como se a sua visão – e a visão que você acha “correta” – é a única que existe.
    Além disso, você vem me dizer que fica “desgostosa”, mas o filme nem estreou. Então fazer um filme a partir de um livro é um desgosto? E o seu desgosto importa? Se você fosse filha do Fitzgerald talvez isso tivesse alguma relevância, mas fora isso alguém ficar desgostoso(a) por que alguém fez um filme é irrelevante.

    1. Flávio, é realmente a minha opinião. Superficial e parcial como todas as opiniões. Concordo contigo de que ela não tem a menor relevância. Justamente por isso que a escrevo sem maiores pretensões. É uma liberdade que me dou quando escrevo no meu próprio blog. Sugiro que você não o leia, simplesmente.

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