Justiça

A experiência tem-me mostrado que o meio mais rápido de obter justiça é fazer justiça ao adversário.

Gandhi/ Minha vida e minhas experiências com a verdade

Eu anotei essa frase porque ela me chamou atenção quando li o livro, há mais de dez anos, mas não sabia se concordava. Porque quando temos um inimigo, a vontade é de expor e maltratar. Pegarei o exemplo de algo indefensável: o caso da professora universitária que aliciou uma menor para uma sessão de sadomasoquismo. Está claro que foi ela e não tem como relativizar o ato. Se todos concordamos que é um ato abominável, vem daí o desejo de expor essa mulher, esse monstro, como uma espécie de vingança. Ao invés de mostrar a cara da professora em  fotos comuns ou uma 3×4, a imprensa expõe as fotos que ela tirou nas suas sessões com o namorado: nua, amordaçada, com objetos na boca. Sem os olhos de quem está participando do jogo, reparamos nos defeitos, na qualidade das fotos, no ridículo. Ficamos espantados de ver uma mulher comum – madura, acima do peso, até com problemas de locomoção – fazer essas coisas. E quem vai se opor à exposição dessas fotos? Querer defender a privacidade desse conteúdo soa como aprovação ao aliciamento. Ela tirava fotos dos outros, punha em sites, aliciou uma menor, então tudo o que se fizer com a imagem dela parecerá pouco.
Não sou advogada e não sei dizer que direitos essa mulher possui legalmente. Com meu olhar leigo, percebo que essas fotos:
* Fazem de uma crueldade pretexto para se cometer outra crueldade. A mãe, irmãos e família que essa professora certamente tem também estão sendo atingidos. Ou será que ser parente de pedófilo também é crime?
* Reforçam preconceitos. É preciso separar as coisas: praticar sadomasoquismo não é sinônimo de pedofilia. Nem ser mulher, ser gorda ou ser professora universitária.
* Aumentam a intolerância. A superexposição desse tipo de caso tem um papel de alerta duvidoso. Já a comoção e as tentativas de linchamento já estão acontecendo.
São nos comportamentos desviantes – ou criminosos, ou doentios, ou chocantes – que nossa capacidade é testada. É muito fácil respeitar o que não nos incomoda. Tolerar a perda de direitos individuais é deixar crescer um tipo de atitude que pode se voltar contra nós mesmos. A história está cheia de exemplos de injustiças, de épocas de extrema intolerância, do terror que esse tipo de noção acarreta. Queremos um mundo melhor e o respeito a princípios fundamentais, mas o caminho para chegar até isso não é claro. Muito melhor é assumir o quanto nossa capacidade de julgar e punir de maneira proporcional é falha. Eu não sei o que merece quem machuca uma criança num sentido tão profundo: prisão, tortura, chibatadas, tudo isso junto? Seja lá o que for, essa professora deve ser punida pelo que fez – e tão somente pelo que fez. Que a punição dela não arraste consigo coisas que não tem a ver com seu crime e não dê espaço a outras atitudes, outros crimes. Porque essa é a justiça que gostaríamos que fosse aplicada a nós mesmos e que torna o mundo um lugar viável.

Nós, robôs – datados

O livro Nós, Robôs me decepcionou um pouco, depois da expectativa criada pelo excelente Eu, Robô. Nós, Robôs é uma coletânea dos muitos contos sobre o tema robótica que Asimov escreveu ao longo dos anos. Lá estão os robôs da U.S. Robôs, a especialista em robopsicologia Susan Calvin e os solucionadores de problemas Gregory Powel e Michael Donavan. As histórias deles são as melhores, e aparecem repetidas nos dois livros – o que é muito chato quando a gente se propõe a lê-los num curto espaço de tempo. No início, Asimov faz questão de nos informar que criou o termo robótica sem querer, porque na época dele não existia nem a necessidade do termo. Os livros dele são recheados de termos não existentes – uma necessidade quando se escreve ficção científica – e como esse trata de robôs o termo inventado onipresente da vez é cérebro positrônico. Cérebro positrônico é uma tecnologia que permite aos robôs ter cérebros semelhante ao dos humanos, só que eletrônico. Sua grande inovação tecnológica seria capacidade de aprender, embora a obediência às Três Leis da Robótica os torne confusos às vezes. Por isso a necessidade de uma robopsicóloga.

Eu, Robô consegue ser interessante e coerente, porque o ponto comum das histórias é investigar a maneira como robôs em interpretam e se adaptam aos três princípios. Sem esse fio condutor, Nós, Robôs evidencia duas noções à estranhas nossa época, e que considero datadas: computadores como grandes calculadoras e a recusa das pessoas comuns em lidar com robôs.

– Este computador que vêem à sua frente – ia dizendo ele – é o maior do seu tipo, no mundo. Contém cinco milhões e trezentos mil criotrons e é capaz de manipular simultaneamente mais de mil variáveis. Com sua ajuda, a U.S. Robôs pode projetar com precisão os cérebros positrônicos dos novos modelos.

– Os requisitos são introduzidos por meio de fita, perfurada por meio deste teclado, algo como uma máquina de escrever super complicada, exceto que não mexe com letras, mas com conceitos. Os enunciados são divididos em seus equivalentes lógicos, e estes, em padrões perfurados.

Lenny p. 309

Como Asimov estava tentando projetar o futuro, ele não podia ter muita idéia de certos avanços tecnológicos. Os cartões perfurados são a tecnologia que se usava quando o conto foi escrito, nos anos 70, e foi uma revolução na época. Essa é a mesma tecnologia que a IBM forneceu à Alemanha nazista e permitiu a classificação dos judeus.

– As aplicações seriam infinitas, professor. O trabalho robotizado tem sido usado apenas para o alívio do esforço físico. E não há esforço mental supérfluo? Um professor, capaz do mais útil pensamento criativo, é forçado a passar duas semanas trabalhosamente conferindo as letras impressas; ofereço-lhe uma máquina que pode fazer o trabalho em trinta minutos. Isso é ninharia?

Escravo p. 327

Ler essas diferenças nos faz tomar consciência do avanço tecnológico que tivemos em poucas décadas. Meu irmão mais velho se interessava por computadores e ganhou um TK85 nos anos 80. O teclado tinha uns vinte centímetros e as teclas eram emborrachadas, nada ergonômicas. Eu não entendia como alguém podia se interessar por algo que dava tanto trabalho pra tão pouco resultado. Ele passava horas digitando 101010 pra conseguir fazer o desenho de uma árvore feiosa, mais ou menos assim:

…………1………..
……….111……….
……..11111……..
……1111111…….
….111111111…..
..111111111111..
……….111……….

– (….) A ciência da automação certamente já atingiu o ponto em que a sua companhia poderia projetar uma máquina, um computador ordinário de tipo conhecido e aceito pelo público que corrigiria provas.

– Estou certo que poderíamos, mas uma máquina assim exigiria que as provas fossem traduzidas em símbolos especiais ou, pelo menos, transcritas em fitas. Quaisquer correções emergiriam em símbolos. Precisariam manter gente empregada para traduzir palavras em símbolos, e símbolos em palavras. Ademais, um tal computador não poderia fazer nenhum outro trabalho. Não poderia preparar o gráfico que tem em mãos, por exemplo.

Escravo p. 331

De um lado você tem computadores que fazem muito pouco, e de outros robôs com aparência humanóide que podem simular até amor. Nesse contraste, as pessoas comuns das histórias mais antigas de Asimov resistem aos robôs e há todo um trabalho por parte da U.S. Robôs em mostrá-los confiáveis. Deve ser realmente um choque pra quem não tem contato com tecnologia se imaginar na frente se um ser humano de ferro. Hoje sabemos que não é assim porque estamos inseridos na tecnologia; nem ao menos temos como recusá-la ou temê-la. Com a visão que temos hoje sobre o assunto, os pressupostos de algumas histórias em Nós, Robôs não são mais válidos ou ficam até ridículos.

– Máquinas de escrever e prensas removem alguma coisa, mas o seu robô privar-nos-ia de tudo. Seu robô assumiu as provas. Logo este ou outros robôs assumirão os originais, a pesquisa de material, a verificação cruzada de citações, talvez mesmo a dedução de conclusões. O que restaria ao estudioso? Só uma coisa: as decisões estéreis sobre que ordens dar ao robô seguir! Quero salvar as futuras gerações do mundo acadêmico de tal inferno. Isto significa mais para mim do que minha reputação, e assim parti para destruir a U.S. Robôs por quaisquer meios.

Escravo p. 354

Tendo isso em vista, algumas histórias são muito interessantes e outras menos. Eu recomendaria Nós, Robôs apenas para fãs, para quem já foi conquistado por Asimov.

Cem páginas de Ulisses

Foi unicamente meu amor por Guimarães Rosa que me levou a ler Ulisses. Grande Sertão: Veredas foi um dos livros que li com mais prazer na minha vida. O único inconveniente de ler Guimarães assim que nos aproximamos é a linguagem, que no começo assusta, mas se torna fluida e musical com um pouco mais de persistência. E eu sabia que essa persistência o Charlles tem de sobra. Ele é um grande leitor, mas carregava consigo a teimosia de não ler Guimarães por ter resistência a autores brasileiros. Ao mesmo tempo, eu tinha uma resistência completamente auto-explicativa com relação a idéia de ler Ulisses. Um livro com mais de oitocentas páginas onde quase nada acontece. Famoso por entediar quase todos os que tentam se aproximar dele. Símbolo máximo da literatura que privilegia a forma de acordo com o Paulo Coelho. Usado largamente por intelectuais para se colocar acima dos leitores comuns. Eu jamais teria a iniciativa de ler algo assim normalmente.
Mas tive, por amor ao Rosa. Desafiei publicamente o Charlles a ler Grande Sertão: Veredas, que eu no mesmo instante começaria Ulisses. Em outras palavras, cada um leria um livro que nunca quis ler, mas que era amado pelo outro. Como eu previra, Grande Sertão precisou de poucas páginas para mostrar ao Charlles o quão maravilhoso é. Eu, com Ulisses, comecei tão entediada que precisei encher muito o saco do Milton e fui liberada pelo Charlles de não cumprir minha parte no desafio. Minha resposta foi: lerei até a pagina cem. Darei essa chance, darei cem páginas para ser conquistada. Depois disso, verei o que fazer. Eu nem sabia que o Capítulo Cinco encerra na página 99 na edição que eu peguei, da editora Objetiva e tradução de Bernardina Silveira Pinheiro. Agora que li esses cinco primeiros capítulos estou pronta para dar minhas primeiras impressões.
O livro me desagradou logo nas suas primeiras páginas. Eu senti falta de um como, onde e por que. Nunca havia me sentido uma leitora cartesiana e resistente a novas propostas como Ulisses fez comigo. Eu me lembrei d´O Vermelho e o Negro de Stendhal, que eu tentei ler duas vezes e nas duas desisti pelo mesmo motivo: no Capítulo Um o autor fala da cidadezinha onde a ação acontece, e descreve cada casa e cada família, todos os futuros personagens, como se fosse um passeio pela rua. Achei o recurso tão cansativo que logo após conhecer todo mundo desse jeito eu não queria saber de mais nada. Me parece que há uma evolução na construção de uma narrativa, onde elimina-se cada vez mais essas descrições desnecessárias. Ao invés de quase metade do livro de apresentações, igual Dostoiévski fazia, o leitor conhece o personagem junto com a história. No Ulisses esse corte ao desnecessário é tão grande que tive uma impressão de mutilação, como se ele tivesse cortado demais.
Somos lançados à história. Estão todos conversando, pensando, atuando. Ninguém nos explica qual a forma de narrativa, quais personagens são essenciais, em que momento quem está pensando o quê. As falas dos personagens se misturam, porque não temos tempo de guardar quem é médico, quem ensina, quem vai ao enterro. Acho isso razão mais do que suficiente para fazer o leitor desistir. Não leia como quem lê um romance, tenha paciência, disse o Milton nas nossas conversas sobre Ulisses. Continuei a ler, tentando abstrair o fato de não estar entendendo nada. E descobri que é exatamente isso que o leitor precisa quando lê Ulisses: se deixar levar. É como se o livro não tivesse as páginas iniciais, como se ele cortasse aquela longa narrativa que nos faz entender a dinâmica da história e para ir direto à parte onde já lemos por prazer. A melhor explicação que consigo imaginar é a seguinte: sabe quando já somos tão íntimos e já gostamos tanto de alguém que apenas estar ao lado da pessoa, ou falar sobre qualquer besteira já é prazeroso? A relação que se precisa ter com Ulisses é a mesma. Acompanhe – James Joyce convida – os pensamentos, as idiossincrasias e coisas rotineiras desses personagens por si só. Sem ter pressa de chegar, apenas porque as coisas que eles vivem naquele momento podem ser interessantes.
É tão interessante assim? Estou descrevendo o que é necessário e não dizendo que acontece naturalmente. É um exercício. Depois de um início sofrido, de pelo menos umas cinquenta páginas, comecei a entender qual é a do livro. Do tédio absoluto, me percebi sentindo algum prazer em ler umas passagens. Ainda não tenho certeza – será que isso já é orgasmo? se pergunta a mulher que nunca teve (uso uma metáfora sexual já que o livro parece apontar com persistência para esse caminho). Dizem que depois o livro fica ótimo, hilariante até. Eu nem ao menos consegui decidir se gosto do livro. Terei de ler mais cem páginas para decidir.

Viver na floresta

O Ramayana é um dos livro religiosos hinduístas. Tem milhares de anos, é muito mais antigo que a Bíblia. Como texto religioso, ele tem servido até hoje como base para interpretações místicas e religiosas. Por conta dessas interpretações que eu – brasileira, nascida no século XX – decidi lê-lo. O início da história é muito interessante e me intrigou durante muito tempo. Peço desculpas antecipadas para aqueles que estudam o hinduísmo com profundidade, porque farei um resumo baseado nas minhas lembranças e cola de informações da internet:

Havia um rei santo chamado Dasharatha. Por rei santo se quer dizer que ele era virtuoso, justo, sábio, forte, governava bem e todos a sua volta eram felizes. Seu primogênito, Rama, para muitos é considerado uma das encarnações divinas do deus Krishna. Assim como seu pai, era forte, justo, virtuoso, etc. Sua esposa, Sita, tem uma origem tão pura e divina que nasceu da própria terra. Só que o rei Dashratha era casado com três mulheres, e sua esposa mais jovem, Kaikeyi, cobra dele uma promessa feita por amor: o rei empenhou sua palavra que atenderia qualquer pedido que ela fizesse. O que ela lhe pede é que seu filho Bháratta (o caçula) se tornasse o próximo rei. Rama, o primogênito, deveria ser exilado do reino para evitar qualquer interferência; para deixar Bháratta governar, Rama deveria viver na floresta como ermitão durante quatorze anos. O pedido soa mal pra todos – o rei fica abatido, todos os ministros ficam contra, o próprio Bháratta condena a atitude de Kaikeyi, mas ela permanece irredutível. A história chega aos ouvidos de Rama, que por iniciativa própria decide abandonar o reino para manter a promessa feita por seu pai. Ele, sua esposa e um dos seus irmãos, Lakshmana, partem para a floresta. Mesmo quando o rei morre de desgosto e Bháratta vai atrás do irmão lhe pedindo para assumir o trono, Rama não volta atrás.

O resto do livro narra as aventuras de Rama e os seus na floresta, o rapto de Sita, a aliança dele com outros reinos para recuperar a esposa, o surgimento de outra figura muito cultuada na Índia como símbolo de fidelidade e amizade- o deus-macaco Hanuman – e a trágica separação de Rama e Sita (que mereceria um post). Apenas depois dos quatorze anos Rama retorna ao seu reino, cheio de glórias que ele conquista por conta própria durante esses anos.

O que me intrigava nessa história era a importância da palavra do rei, a tal promessa que não podia ser quebrada. Eu achava – e as interpretações que eu li iam pelo mesmo caminho – que era uma questão de honra. Honrar a palavra empenhada. Mesmo que tenha sido uma  promessa afetuosa, mesmo que a promessa tenha sido arrancada por um ardil, com finalidades torpes? Ao invés de ser um exemplo de retidão, isso me parecia um apego excessivo às palavras, privilegiar a forma e não o conteúdo.

Passei muito tempo pensando que era isso. Um dia desses, sem motivos, me lembrei da história e percebi que a questão é muito mais profunda. Para a época que nós vivemos, nada no mundo pode ser mais importante que assumir um reino. Trabalhamos para ocupar a posição mais rica e de maior destaque. E fazemos isso com pressa, como se a menor distração ou atraso fosse ruim. Queremos ser reis para ontem. Com essa concepção de vida, o sacrifício de Rama não faz o menor sentido.

Nitidamente os personagens do Ramayana enxergam a vida de outra forma. Eles não têm a nossa pressa. Quem sabe para eles a vida fosse apenas um capítulo de uma ampla corrente de encarnações, então ela não tem importância. Ou a vida seja antes de tudo uma oportunidade de aprender, então largar tudo e ir pra uma floresta pode ser até melhor do que ficar no palácio. De qualquer maneira, isso me faz entender o quanto é difícil querer retirar do que foi escrito há muito tempo lições para os nossos dias. Longe das suas bases culturais, as atitudes podem perder todo o sentido – ou serem interpretadas de forma muito diferente da original.