Viver na floresta

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O Ramayana é um dos livro religiosos hinduístas. Tem milhares de anos, é muito mais antigo que a Bíblia. Como texto religioso, ele tem servido até hoje como base para interpretações místicas e religiosas. Por conta dessas interpretações que eu – brasileira, nascida no século XX – decidi lê-lo. O início da história é muito interessante e me intrigou durante muito tempo. Peço desculpas antecipadas para aqueles que estudam o hinduísmo com profundidade, porque farei um resumo baseado nas minhas lembranças e cola de informações da internet:

Havia um rei santo chamado Dasharatha. Por rei santo se quer dizer que ele era virtuoso, justo, sábio, forte, governava bem e todos a sua volta eram felizes. Seu primogênito, Rama, para muitos é considerado uma das encarnações divinas do deus Krishna. Assim como seu pai, era forte, justo, virtuoso, etc. Sua esposa, Sita, tem uma origem tão pura e divina que nasceu da própria terra. Só que o rei Dashratha era casado com três mulheres, e sua esposa mais jovem, Kaikeyi, cobra dele uma promessa feita por amor: o rei empenhou sua palavra que atenderia qualquer pedido que ela fizesse. O que ela lhe pede é que seu filho Bháratta (o caçula) se tornasse o próximo rei. Rama, o primogênito, deveria ser exilado do reino para evitar qualquer interferência; para deixar Bháratta governar, Rama deveria viver na floresta como ermitão durante quatorze anos. O pedido soa mal pra todos – o rei fica abatido, todos os ministros ficam contra, o próprio Bháratta condena a atitude de Kaikeyi, mas ela permanece irredutível. A história chega aos ouvidos de Rama, que por iniciativa própria decide abandonar o reino para manter a promessa feita por seu pai. Ele, sua esposa e um dos seus irmãos, Lakshmana, partem para a floresta. Mesmo quando o rei morre de desgosto e Bháratta vai atrás do irmão lhe pedindo para assumir o trono, Rama não volta atrás.

O resto do livro narra as aventuras de Rama e os seus na floresta, o rapto de Sita, a aliança dele com outros reinos para recuperar a esposa, o surgimento de outra figura muito cultuada na Índia como símbolo de fidelidade e amizade- o deus-macaco Hanuman – e a trágica separação de Rama e Sita (que mereceria um post). Apenas depois dos quatorze anos Rama retorna ao seu reino, cheio de glórias que ele conquista por conta própria durante esses anos.

O que me intrigava nessa história era a importância da palavra do rei, a tal promessa que não podia ser quebrada. Eu achava – e as interpretações que eu li iam pelo mesmo caminho – que era uma questão de honra. Honrar a palavra empenhada. Mesmo que tenha sido uma  promessa afetuosa, mesmo que a promessa tenha sido arrancada por um ardil, com finalidades torpes? Ao invés de ser um exemplo de retidão, isso me parecia um apego excessivo às palavras, privilegiar a forma e não o conteúdo.

Passei muito tempo pensando que era isso. Um dia desses, sem motivos, me lembrei da história e percebi que a questão é muito mais profunda. Para a época que nós vivemos, nada no mundo pode ser mais importante que assumir um reino. Trabalhamos para ocupar a posição mais rica e de maior destaque. E fazemos isso com pressa, como se a menor distração ou atraso fosse ruim. Queremos ser reis para ontem. Com essa concepção de vida, o sacrifício de Rama não faz o menor sentido.

Nitidamente os personagens do Ramayana enxergam a vida de outra forma. Eles não têm a nossa pressa. Quem sabe para eles a vida fosse apenas um capítulo de uma ampla corrente de encarnações, então ela não tem importância. Ou a vida seja antes de tudo uma oportunidade de aprender, então largar tudo e ir pra uma floresta pode ser até melhor do que ficar no palácio. De qualquer maneira, isso me faz entender o quanto é difícil querer retirar do que foi escrito há muito tempo lições para os nossos dias. Longe das suas bases culturais, as atitudes podem perder todo o sentido – ou serem interpretadas de forma muito diferente da original.

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