Razões

Peguei da Tina, que pegou daqui.
Esse post vagabundo (mas a tirinha é ótima, vai!) é só pra dizer que o blog está entregue às baratas mas eu volto. Estive ocupada com coisas ruins e boas na última semana, e ambas me tiraram a tranquilidade para ler. De lá pra cá só terminei o Caça aos robôs, do Asimov. Já escrevi tanto sobre o Asimov aqui que tenho até vergonha de fazer outra resenha. É um Asimov, poxa, os livros se parecem. Só pra não deixar passar em branco: é um livro policial e funciona.

Tão marcante que dói

Comecei a ler Homem Invisível, de Ralph Ellison, um verdadeiro clássico sobre o preconceito racial. Logo no primeiro parágrafo do Prólogo, lamentei muito que ninguém que eu conhecesse na época do meu mestrado tivesse me recomendado o livro. Porque a definição que ele faz da sua invisibilidade cai perfeitamente com o conceito de estigma. Se não pudesse usar o livro todo, pelo menos usaria esse começo, nem que fosse apenas como uma Epígrafe.
Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de filme de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, fibra e líquidos – talvez se possa até dizer que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem um corpo que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim dizer, cercado de espelhos de vidro duro e deformante. Quem se aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os inventos de sua própria imaginação – na verdade, tudo e qualquer coisa, menos eu.
Minha invisibilidade também não é, digamos, o resultado de algum acidente bioquímico da minha epiderme. A invisibilidade à qual me refiro ocorre em função da disposição peculiar dos olhos das pessoas com quem entro em contato. Tem a ver com a disposição de seus olhos internos, aqueles olhos com que elas enxergam a realidade através dos olhos físicos. Não estou reclamando nem protestando. Às vezes é até vantajoso não ser visto, embora quase sempre seja desgastante para o sistema nervoso.
p.7
Com uma leitura tão interessante, fui logo para as páginas seguintes. E o que se seguiu no primeiro capítulo foi tão forte, doloroso e exagerado, que estou na dúvida se prossigo. Um grande livro, sem dúvida. Mas é daqueles que colocam o dedo na ferida, escancaram, não poupam o leitor. Não sei se quero, não sei se consigo.

Uma desistência inesperada

Apesar de tudo, decidi parar de ler O apanhador no campo de centeio. A edição que eu tenho tem 180 páginas e cheguei até a 87 – ou seja, já deu para sentir bem o que me espera. O livro é muito bom: escrito em primeira pessoa, consegue revelar aos poucos as informações sobre o personagem, de maneira a nos deixar sempre curiosos sobre quem ele é e o que o motiva. O personagem principal é coerente, a narrativa é dinâmica, a história em nenhum momento diminui de ritmo. Então por que abandonarei? Porque o tom do livro me lembra o twitter. Nunca pensei que diria uma coisa dessas. A história é centrada num adolescente, e ele descreve o mundo com sarcasmo e mau humor. Adolescentes sendo sarcásticos e mal humorados sobre tudo o que acontece à sua volta é a própria essência do twitter. É como se eu parasse de ler o twitter no computador e passasse a lê-lo por escrito. Enfim, me dá cansaço.
Eu estava cercado de imbecis. Fora de brincadeira. Na outra mesinha, bem do meu lado esquerdo, praticamente em cima de mim, tinha um casal com umas caras feiosas pra burro. Tinham mais ou menos a minha idade, ou um pouquinho mais. Era engraçado. A gente via logo que eles estavam tomando um cuidado tremendo para não beber a consumação mínima muito depressa. Fiquei ouvindo algum tempo a conversa deles, porque não tinha mesmo nada para fazer. Ele estava contando a ela uma droga dum jogo de futebol que ele tinha visto naquela tarde. E descreveu todas as jogadas da droga de partida, da primeira à última! – fora de brincadeira. Era o sujeito mais chato que eu encontrei em toda a minha vida. E dava pra ver que a garota dele nem estava interessada na droga do jogo, mas ela era ainda mais feiosa do que ele, por isso eu acho que ela tinha mesmo que ouvir. O negócio não é mole para as garotas feias. Às vezes elas me dão muita pena, nem gosto de olhar para elas, especialmente quando estão com um idiota que fica contando toda uma porcaria duma partida de futebol. Mas, à minha direita, a conversa estava ainda pior. Tinha um sujeito metido à besta, com um terno de flanela cinza e um desses coletes afrescalhados. Todos esses filhos da mãe das universidades se vestem igual. Meu pai quer que eu vá para uma dessas universidades metidas a bem, Yale ou talvez Princeton, mas juro que não me pegam nesses lugares cretinos nem morto, no duro mesmo. Seja como for, esse sujeito com pinta de aluno da Yale estava com uma garota espetacular. Puxa, ela era um estouro. Mas valia a pena ouvir a conversa dos dois. Em primeiro lugar, os dois já estavam meio altos. Ele estava passando a mão nas coxas dela, por debaixo da mesa e tudo, e ao mesmo tempo contando a história de uma colega dele que tinha engolido um vidro inteiro de aspirina e quase se suicidou. Ela ficava só dizendo para ele: “Que horrível… Não querido. Por favor. Não, aqui não…” Imagina só, passar a mão numa garota e ao mesmo tempo contar a ela o caso de um cara que tentou se suicidar! Era o máximo!
p. 76- 77

O planeta do Sr. Sammler, Saul Bellow

Uma curiosidade: peguei esse livro da Biblioteca Pública, com um ex-libris que informa que ele é uma doação da Comunidade Israelita em comemoração aos 120 anos da imigração judaica no Paraná, em 2009. Quando fui ao balcão de empréstimo, a funcionária olhou para a ficha de devolução, soltou um grito e mostrou o livro para os outros, dizendo que foi a primeira vez na vida e que aquilo não se repetiria. Depois fui olhar o que havia de tão extraordinário no fim do meu livro: eu fui a primeira pessoa a emprestá-lo. Espero que isso mude e que muitos outros carimbos surjam após o 30AGO2012 que eu coloquei.

Minha curta experiência com Saul Bellow – As aventuras de Augie March e O legado de Humboldt pela metade – me dizem que é aquele tipo de livro feito para se apaixonar perdidamente. Se você começa a ler e acha tudo muito confuso, que não vai para lugar nenhum e que diabos estão falando, é porque você não vai gostar. Embora não seja escrito em primeira pessoa, vemos as coisas de dentro da pele dos personagens principais de Bellow. Ou ele lhe fala de maneira muito profunda, de maneira que você se sente o personagem, ou ele não lhe fala. Não consegui sentir isso com Humdboldt e amei Augie March. O Sr. Sammler me conquistou desde o seu primeiro parágrafo:

Logo após o alvorecer, ou pelo menos o que poderia ter sido o alvorecer num céu normal, o Sr. Artur Sammler passou uma vista de olhos nos seus livros e papéis espalhados pelo quarto que ocupava na zona oeste da cidade, com um sentimento íntimo de que eram os livros errados, os papéis errados. De certa forma, não tinha realmente muita importância para um homem de seus setenta e tantos anos, dispondo de inúmeras horas de lazer. Era preciso ser um verdadeiro maníaco para querer insistir em ter razão. Ter razão era, afinal, apenas uma mera questão de explicações. O homem intelectual tornara-se uma criatura dada a explicações. Os pais para os filhos, as esposas para os maridos, oradores para os ouvintes, peritos para leigos, colegas para colegas, médicos para pacientes, o homem para a sua própria alma, todos tinham explicações a dar. As raízes, ou as causas disso, a fonte dos acontecimentos, a história, a estrutura, as razões do porquê. Na sua maior parte, porém, penetravam por um ouvido para sair pelo outro. A alma queria mesmo o que queria: tinha o seu próprio conhecimento; sentada, infeliz, na superestrutura da sua explicação, feito um pássaro que, coitado, não sabia de que lado iria voar.

p.5

O livro fala de um período curto e agitado na vida do Sr. Sammler, um judeu polonês que sobreviveu ao holocausto. Embora não se apresente dessa forma e nem viva em função do passado, ele é um homem marcado. Fisicamente, pela perda de um dos olhos. Num sentido muito profundo, Sammler é um homem sem lugar, o representante de um mundo que foi destruído. Seu vocabulário, seu físico, sua maneira de se portar (“Sammler não se permitiu nenhum comentário. Afinal, seu coração não era tão difícil de ser tocado. Além disso, fora treinado na antiga polidez. Quase como, outrora, a mulher fora educada para a castidade” p. 168) refletem o Velho Mundo que existia antes da guerra. No livro que escreveria (ou escreverá) sobre H. G. Wells, há uma conexão com esse mundo, mas ele mesmo não tem ilusões quanto a isso. Os outros parecem dar mais importância do que ele mesmo. Bellow mistura o passado e o presente de Sammler com uma incrível maestria, fazendo com que as lembranças de Sammler aflorem e revelem pouco a pouco o que ele viveu, mostrando ao leitor quem ele é e suas motivações. Ao contrário do que os que o cercam, Sammler conheceu a profundidade e não precisa buscar fortes emoções através do sexo, dinheiro ou atitudes insensatas. A geração do pós-guerra, perto dele, parece insana e perdida. O intervalo da vida de Sammler descrito no livro – um incidente com um batedor de carteiras, uma palestra a uma faculdade, o sobrinho e benfeitor hospitalizado e os problemas com sua filha e o livro do Dr. Lal – dá ao leitor uma sensação de desencaixe, de que Sammler não deveria ter que passar por essas coisas. Ele é o velho diante do novo, o introvertido num mundo de extroversão, o sofrido diante do fresco e pronto para viver, o filosófico diante das necessidades práticas. Ele é cada um de nós, sem solução, despreparados e com uma visão limitada para tudo o que a vida nos exige.