Uma desistência inesperada

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Apesar de tudo, decidi parar de ler O apanhador no campo de centeio. A edição que eu tenho tem 180 páginas e cheguei até a 87 – ou seja, já deu para sentir bem o que me espera. O livro é muito bom: escrito em primeira pessoa, consegue revelar aos poucos as informações sobre o personagem, de maneira a nos deixar sempre curiosos sobre quem ele é e o que o motiva. O personagem principal é coerente, a narrativa é dinâmica, a história em nenhum momento diminui de ritmo. Então por que abandonarei? Porque o tom do livro me lembra o twitter. Nunca pensei que diria uma coisa dessas. A história é centrada num adolescente, e ele descreve o mundo com sarcasmo e mau humor. Adolescentes sendo sarcásticos e mal humorados sobre tudo o que acontece à sua volta é a própria essência do twitter. É como se eu parasse de ler o twitter no computador e passasse a lê-lo por escrito. Enfim, me dá cansaço.
Eu estava cercado de imbecis. Fora de brincadeira. Na outra mesinha, bem do meu lado esquerdo, praticamente em cima de mim, tinha um casal com umas caras feiosas pra burro. Tinham mais ou menos a minha idade, ou um pouquinho mais. Era engraçado. A gente via logo que eles estavam tomando um cuidado tremendo para não beber a consumação mínima muito depressa. Fiquei ouvindo algum tempo a conversa deles, porque não tinha mesmo nada para fazer. Ele estava contando a ela uma droga dum jogo de futebol que ele tinha visto naquela tarde. E descreveu todas as jogadas da droga de partida, da primeira à última! – fora de brincadeira. Era o sujeito mais chato que eu encontrei em toda a minha vida. E dava pra ver que a garota dele nem estava interessada na droga do jogo, mas ela era ainda mais feiosa do que ele, por isso eu acho que ela tinha mesmo que ouvir. O negócio não é mole para as garotas feias. Às vezes elas me dão muita pena, nem gosto de olhar para elas, especialmente quando estão com um idiota que fica contando toda uma porcaria duma partida de futebol. Mas, à minha direita, a conversa estava ainda pior. Tinha um sujeito metido à besta, com um terno de flanela cinza e um desses coletes afrescalhados. Todos esses filhos da mãe das universidades se vestem igual. Meu pai quer que eu vá para uma dessas universidades metidas a bem, Yale ou talvez Princeton, mas juro que não me pegam nesses lugares cretinos nem morto, no duro mesmo. Seja como for, esse sujeito com pinta de aluno da Yale estava com uma garota espetacular. Puxa, ela era um estouro. Mas valia a pena ouvir a conversa dos dois. Em primeiro lugar, os dois já estavam meio altos. Ele estava passando a mão nas coxas dela, por debaixo da mesa e tudo, e ao mesmo tempo contando a história de uma colega dele que tinha engolido um vidro inteiro de aspirina e quase se suicidou. Ela ficava só dizendo para ele: “Que horrível… Não querido. Por favor. Não, aqui não…” Imagina só, passar a mão numa garota e ao mesmo tempo contar a ela o caso de um cara que tentou se suicidar! Era o máximo!
p. 76- 77

8 comentários em “Uma desistência inesperada”

  1. Eu fui até o final do livro, mas também achei chatíssimo e achava que o problema era comigo, afinal todo mundo adora esse livro. Como vc disse, é bem escrito, tem bom ritmo, mas eu não sinto a menor saudade da minha adolescência e muito menos desses “assuntos” adolescentes, que como vc bem colocou nada mais são do que o twitter no papel: reclamação sem fim e um monte de eu, eu, eu. Abraços!(@anacbpc)

  2. Hahahaha. A mesmíssima coisa que eu penso. A diferença é que quando o li, ainda estava longe de se pensar na invenção do twitter, mas a essência da minha desconsideração a essa obra é a mesma. Nada mais chato que papo de adolescente, a O Apanhador é só isso.

  3. eu queria reler, porque não é possível todo mundo achar maravilhoso e eu ter achado super blé.
    gostei da definição… 'ler twitter'. muitos anos atrás nem twitter existia e eu já tinha gastura dessa modalidade. vai ver foi isso mesmo.

  4. Oi, Caminhante. Se tem idade máxima pra ler, sou retardada. Adoro o Apanhador. Li adolescente e depois reli adulta. Continuo com uma grande ternura por esse personagem menino, descobrindo o mundo e se debatendo com sua inadequação e incapacidade de adaptação nele. Tenho a mesma ternura pela adolescente inadequada que também fui.
    Bj.
    Ana

    1. Vai ver que é porque você leu adolescente e ficou com aquela impressão, com aquela identificação. Será? Não sei. Tenho essa teoria da “idade máxima” desde que li o Guia do Mochileiro das Galaxias, que foi lido (a amado) pela maioria das pessoas na adolescência e não conseguiu me conquistar já adulta. Claro que são sempre explicações bobas para o que não tem explicação…

    1. Boa pergunta! Eu já me propus a ler Harry Potter, mas desisti porque desanimei diante de quantidade de livros. O que me parece bacana no Harry Potter é o fato dele ter crescido junto com os seus leitores.

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