Três comentários sobre homens e mulheres

Hoje a Nikelen postou esta notícia no FB: Em nome da liberdade, homens são proibidos em vilarejo do Quênia. Em resumo, a notícia fala de mulheres que se cansaram do direito que os homens da região – sejam eles maridos ou soldados estrangeiros – de disporem de seus corpos como quiserem, seja estuprando ou espancando. Na foto vemos mulheres em trajes tradicionais e aquele vilarejo parece ser um lugar pouco contaminado por outras culturas – mas contaminado o suficiente para que suas mulheres não aceitem mais esse tipo de opressão. A idéia de pureza cultural é uma bobagem; o interessante é notar justamente o que o sujeito escolhe das outras culturas, o que isso reflete de anseios que ele já tinha. Para todo período histórico e lugar que se olhe, a opressão feminina parece ser uma regra. De maneira semelhante, assim que alguma possibilidade é oferecida, essas mulheres se rebelam. As exigências mudam, nem sempre elas pedem o tanto quanto achamos que merecem. Só que o desejo de autonomia nunca morre. Em outros termos, podemos pensar que o ser humano jamais se acostuma com a opressão.
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Estou lendo, a passos de tartaruga, O livreiro de Cabul. É um livro delicioso, o livro mais gostoso que já li sobre a cultura daquela região. Dá vontade de copiar o livro inteiro para comentar. Uma das histórias (Tentações) fala sobre Mansur, o filho do livreiro. Ele tem dezessete anos e, embora seja homem e primogênito, sofre com a posição que ocupa – precisa obedecer ao seu pai em tudo e é solteiro. Vemos sua tentativa (que ao leitor ocidental parece patética) de paquerar as moças de burca, cuja beleza é adivinhada pelo tamanho da burca, pela maneira de andar, pelo porte, pelas mãos, pelo pouco que é possível ver dos olhos por detrás das rendas. Seu amigo Rahimullah é muito menos inocente do que ele e se aproveita de viúvas para obter favores sexuais. Num certo momento, Rahimullah lamenta que as mulheres afegãs sejam “tão chatas” – elas ficam tensas e estiradas durante o sexo, muito diferente do que ele vê nos filmes pornôs. Por mais que ele tente dizer o que elas devem fazer, elas não conseguem. Se de um lado a cultura os mantém tão seguros sobre o que suas mulheres escondem, por outro não lhes permite tanto prazer quanto gostariam. Só a liberdade em níveis mais amplos permite mulheres como aquelas dos filmes.
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Uma vez vi uma entrevista de um cineasta muçulmano, e num certo momento a entrevistadora (acho que era a Fernanda Torres) lhe pergunta sobre as burcas e a opressão feminina. Ele lhe diz que se por um lado as mulheres orientais se cobrem, por outro as ocidentais são obrigadas a se mostrar sempre e com a mesma aparência que teriam se estivessem na adolescência. Claro que uma coisa não justifica a outra – nem essa era a intenção dele – mas acho importante pensar no sofrimento que a tal “luta pela beleza” tem causado às mulheres. As mulheres ocidentais são proibidas de engordar, de enrugar, de deixar seus cabelos brancos, enfim, de simplesmente envelhecer. Não existe mais tregua, não existe mais um período que a mulher possa dizer – “eu já cheguei a tal idade” ou “eu já sou bem casada” ou “eu já criei meus filhos”. Assim como ficar bela e fazer sexo é um direito, deveria haver também o direito de deixar para lá. É uma utopia de juventude eterna. Testemunho mulheres sofrendo com cada quilo, com cara ruga e lamento que isso não seja apenas normal, o resultado inevitável da passagem dos anos e da alteração do metabolismo.

Meu melhor livro – Orlando

Eu acho a leitura comparável ao vício. Existem aqueles que possuem uma blindagem natural, que podem entrar em contato com a droga mais sedutora sem se viciar. Eles entram e saem quando querem, jamais deixam que aquilo tome conta de suas vidas. Outros são frágeis, influenciáveis, e logo adquirem o status de heavy-users. Só que quando falamos de drogas no sentido mais comum do termo, existe um caminho natural e um fim. Reza o senso comum que todos começam com drogas leves, talvez até legalizadas – cigarro, álcool, cogumelos, maconha – que acostumam o organismo e são porta de entrada para coisas realmente fortes – heroína, cocaína, crack. Só que com livros – ufa, finalmente consegui chegar lá! – não existe esse caminho previsível. A cada leitura surge o problema do que ler em seguida. O leitor precisa de algo novo, algo melhor, algo diferente. Essa é a grande dificuldade de ser um heavy user. Poucos livros – apenas o inesquecíveis- ficam melhores com o tempo, poucos merecem uma releitura.

Quando entrei em contato com Orlando pela primeira vez, eu já era uma leitora rodada. Eu já havia abandonado os livros com figuras, até as pequenas. Chorar ou rir sozinha já fazia parte da minha rotina, assim como me apaixonar por pessoas que nunca existiram e achar que conheço lugares que nunca visitei. Já havia passado pelos mistérios de Agatha Christie e as cenas picantes dos Sidney Sheldon, tinha perdido a minha inocência. Enfim, já não era mais uma leitora que pergunta, antes de ler, quantas páginas o livro tem. O que viesse eu encarava, desde que fosse de qualidade, desde que desse barato.

Orlando me deu barato desde as primeiras linhas, quando ele começa o livro olhando pela janela e perde subitamente a inspiração. Logo nas primeiras linhas, num parágrafo que não acaba mais, Virginia Woolf nos apresenta toda linhagem de Orlando, seu aspecto físico, nos faz adivinhar onde vive e nos identifica com o seu caráter. Tudo é descrito de uma maneira tão leve que parece que estamos ao lado de alguém que nos sussurra ao ouvido, ou um contador de histórias, ou uma mesa farta, ou qualquer tipo de metáfora que indique algo feito com muita facilidade e prazer.

Meu amor por esse livro é tão grande que durante anos fui incapaz de ler qualquer outra coisa de Virginia Woolf, porque duvidava que ela tivesse sido capaz de repetir o feito de Orlando, que algum outro livro pudesse ser tão prazeroso de ler quanto esse, mesmo feito das mesmas mãos. Como é possível criar um lindo, nobre, vivendo séculos e passando por mais coisas do que qualquer mortal é capaz de passar, e sem com isso fazer com que o leitor o odeie pela sua extrema boa sorte? Eu já li Orlando várias vezes e em nenhuma senti que realmente conhecesse o personagem, mesmo quando ele sofre por amor, mesmo quando seus pensamentos são comparados a pratos nas mãos de um copeiro, mesmo quando foge, quando volta e finalmente…

É possível amar Orlando pela mão segura que o escreveu, que consegue traçar perfis precisos destacando as mais variadas características, que repete palavras (como na parte que fala da mão da rainha quando apresentada a Orlando) para criar um ritmo interessante na leitura, que congela e acelera o tempo, conta fatos e impressões, mistura observações deliciosas e prosaicas com coisas que calam fundo na alma do leitor. Mas é possível também amar Orlando pela história sempre inesperada, pela ingenuidade e romantismo do jovem Orlando, pelo seu contato com rainhas, com russos, com ciganos, com o outro lado do gênero, com admiradores, com puxa-sacos. São também personagens de Orlando sua linhagem, sua casa, a passagem dos anos, a Inglaterra.

Eu sou de ler muito e reler pouco, e esse é um livro que me consegue capturar sempre. Começo a ler umas linhas e quando vejo estou na página cento e alguma coisa. Saber o que vai acontecer, ao invés de tirar o meu interesse, antecipa o meu prazer e quando vejo o livro já terminou. Por falar nisso, o amor à sinceridade me faz revelar: a única escorregada nesse livro tão maravilhoso são justamente as últimas páginas, que abusam de um certo experimentalismo, digamos assim. Nunca deixo de ler, mas elas não fazem jus ao resto da obra.

Amigos, amantes e chocolate

Movida pelo entusiasmo de Agência nº1 de mulheres detetives, comecei a leitura de Amigos, amantes e chocolate logo depois, por se tratar de um livro do mesmo autor. Foi a maior besteira que eu fiz. O primeiro livro é muito superior ao segundo, então a leitura fica contaminada por essa comparação: ao invés de uma terra exótica como Botswana, que serve de pretexto para descobrir tantos costumes e cenários diferentes, o livro se passa na muito mais familiar Escócia, em meio a uma cidade e suas streets, ou seja, nada que chame atenção. Enquanto Mme Ramotswe é uma mulher inovadora e colorida, conquistadora e que sempre alcança o que deseja, Isabel Dalhousie é uma solteirona abastada, tagarela e insegura, que não parece despertar nenhum desejo nos homens. Até no ritmo da história Agência nº1 ganha – o mistério central de Amigos, amantes e chocolate leva quase cem páginas para aparecer.

Durante um momento o silêncio reinou. Isabel tomou um gole de vinho. Quis perguntar a Louise: “E o que faz seu marido?”. Um pensamento delicioso, por ser uma pergunta tão subversiva e rude nessas circunstâncias: evocar o marido, o fantasma daquele banquete. Poderia fazer a pergunta com ar inocente, como se não tivesse a menor idéia da natureza da relação entre Jamie e ela, mas claro que Jamie saberia que tinha sido uma pergunta maldosa e ficaria mortificado. Mas ele não podia reclamar, já que a levara lá, para exibí-la. Será que ele não conseguia entender que esse encontro seria doloroso para Isabel? Seria demais esperar que ele percebesse a insatisfação dela com tudo aquilo?
Isabel ergueu a taça de vinho e bebeu outro gole. Na sua frente, Louise começava a mexer num botão da jaqueta. Ela não está se sentindo à vontade, pensou Isabel. Não quer estar aqui. Aos seus olhos, ela é a aventureira, a ardente, a mulher na moda, capaz de conquistar facilmente um jovem, enquanto esta outra mulher, esta filósofa, não é nada. Observou-a e viu os olhos dela percorrerem a lareira e os quadros, olhar de completo desdém no rosto, embora não tivesse a menor idéia de que Isabel  perceberia. Não sou nada para ela, Isabel disse para si mesma. Ela nem me nota. Bem, nesse caso…
“E o que faz seu marido?” perguntou Isabel.
p.57-58
Isabel Dalhousie é uma filósofa que trabalha apenas meio período para uma revista. Fazem parte do seu mundo a sua sobrinha Cat, dona de uma delicatessen; os encontros com ex-namorado de Cat, o fagotista Jamie, por quem Isabel nutre uma paixão platônica; as conversas com empregada Grace. Na delicatessen, enquanto sua sobrinha está viajando, ela conhece Ian, e dele surge o mistério que será investigado no livro. Esse mistério tem um viés espírita, mas à maneira escocesa – nunca é demais lembrar que o Brasil é o único país com uma religião espírita. Embora coerente, acredito que o fim do livro será decepcionante para a maioria dos leitores. Mais do que com a história, o autor espera que o leitor se identifique como mundo interior de Isabel, que se interessa por música clássica, psicologia, filosofia, arte, dilemas morais e por quase tudo à sua volta. A única diferença cultural especialmente marcante é a maneira como os italianos são vistos:  pessoas elegantes e bonitas, clima maravilhoso, arte e romantismo, o lugar onde qualquer um nasceria se pudesse escolher.
Apenas depois de terminado o livro, descobri que O Clube Filosófico Matinal é o primeiro com ela. Estavam os dois lado a lado na estante e ia buscá-lo semana que vem. Agora já está fora da minha lista. Amigos, amantes e chocolate é um livro interessante e bem escrito, mas Isabel não me conquistou.

 

Agência nº1 de mulheres detetives

Você não poderá sair por aí e dizer que leu Agência nº1 de mulheres detetives para parecer inteligente. Nem ao menos conseguirá esse efeito quando contar a história e o número pequeno (pouco mais de duzentas) páginas. O autor – Alexander McCall Smith – é desconhecido. Para piorar tudo, é a história de uma mulher africana, uma mulher comum que tem uma van branca. A história é simples, sem arroubos de linguagem, de parágrafos curtos.

“Por que não?” disse Mme Ramostwe. Ela ouvira dizer que as pessoas não gostavam de advogados, e agora achava que entendia por quê. Esse homem era tão cheio de certezas, tão seguro de si mesmo, tão completamente convencido. Que tinha ele a ver com o que ela fizesse? Era o seu dinheiro, era o seu futuro. E como se atrevia a dizer aquilo sobre as mulheres, ele que nem sequer se dava conta de que o zíper da sua braguilha estava mal fechado! Seria o caso de avisá-lo?
p.65

Quando penso em descrever esse livro, o que me vêm é um chavão – é um livro que aquece o peito. Ele me parou em mãos num momento difícil, e ao contrário da acusação de que os leitores geralmente são vítimas, não consigo ler para fugir dos meus problemas. Para me prender num momento de pouca concentração e tristeza, somente algo muito gostoso e positivo. Uma história que me prenda quando outras inquietações me invadem. Melhor ainda, se de forma indireta ela me consolar. Encontrei tudo e mais um pouco neste livro. Para os que lêem os livros mais complexos, ele será um refresco, algo de uma simplicidade apenas aparente e uma prosa deliciosa. Para os que não lêem, é finalmente um livro interessante, fácil e interessante.

Ela interrompeu seus pensamentos. Estava na hora de tirar a abóbora da panela e comê-la. Em última análise, esta era a solução para todos os grandes problemas da vida. A pessoa podia pensar e pensar e não chegar a parte alguma, mas, fosse como fosse, tinha que comer a sua abóbora. Era isso o que se chamava voltar à realidade. Dar à pessoa uma razão para seguir em frente. A abóbora.

p. 89

A protagonista, Mme Ramotswe, é uma mulher grande, colorida, que abre uma agência de detetives sem saber se vai dar certo. O livro fala de seus casos, e da maneira inteligente e original que Mme Ramotwe os resolve. É um universo pequeno, ordenado, e a o bom senso de Mme Ramotswe torna tudo muito familiar, como se nossa tia ou uma vizinha pudessem ser detetives. Ao mesmo tempo em que resolve problemas, conhecemos seus hábitos tranquilos, as conversas com os amigos, os momentos preguiçosos no jardim. No meio da história descobrimos o seu passado e o de outras pessoas que estão à sua volta.  É incrível pensar que um livro tão feminino tenha sido escrito por um homem. Na pequena grande mulher que é Mme Ramotswe, também descobrimos a África, lugar que ela tanto ama: suas paisagens áridas, suas lutas, seus diferentes povos e dialetos, seus costumes e resistências. O livro tem senso de humor, mas também mostra um pouco a tragédia cotidiana de homens e mulheres, o domínio estrangeiro e a necessidade de sobreviver, as escolhas e dificuldades que os costumes lhes impõem. O autor não pretende levantar qualquer bandeira; tudo nos é apresentado com a doçura de quem ama e vê o sofrimento de longe, da perspectiva de quem aceita o que viveu. Não há maneira melhor de dizer: é um livro de aquecer o peito. Leiam e apaixonem-se por ele.

Busquei esse livro unicamente pela recomendação da Fal, que descobriu inclusive que foi feita (e interrompida) uma série sobre ele.