Agência nº1 de mulheres detetives

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Você não poderá sair por aí e dizer que leu Agência nº1 de mulheres detetives para parecer inteligente. Nem ao menos conseguirá esse efeito quando contar a história e o número pequeno (pouco mais de duzentas) páginas. O autor – Alexander McCall Smith – é desconhecido. Para piorar tudo, é a história de uma mulher africana, uma mulher comum que tem uma van branca. A história é simples, sem arroubos de linguagem, de parágrafos curtos.

“Por que não?” disse Mme Ramostwe. Ela ouvira dizer que as pessoas não gostavam de advogados, e agora achava que entendia por quê. Esse homem era tão cheio de certezas, tão seguro de si mesmo, tão completamente convencido. Que tinha ele a ver com o que ela fizesse? Era o seu dinheiro, era o seu futuro. E como se atrevia a dizer aquilo sobre as mulheres, ele que nem sequer se dava conta de que o zíper da sua braguilha estava mal fechado! Seria o caso de avisá-lo?
p.65

Quando penso em descrever esse livro, o que me vêm é um chavão – é um livro que aquece o peito. Ele me parou em mãos num momento difícil, e ao contrário da acusação de que os leitores geralmente são vítimas, não consigo ler para fugir dos meus problemas. Para me prender num momento de pouca concentração e tristeza, somente algo muito gostoso e positivo. Uma história que me prenda quando outras inquietações me invadem. Melhor ainda, se de forma indireta ela me consolar. Encontrei tudo e mais um pouco neste livro. Para os que lêem os livros mais complexos, ele será um refresco, algo de uma simplicidade apenas aparente e uma prosa deliciosa. Para os que não lêem, é finalmente um livro interessante, fácil e interessante.

Ela interrompeu seus pensamentos. Estava na hora de tirar a abóbora da panela e comê-la. Em última análise, esta era a solução para todos os grandes problemas da vida. A pessoa podia pensar e pensar e não chegar a parte alguma, mas, fosse como fosse, tinha que comer a sua abóbora. Era isso o que se chamava voltar à realidade. Dar à pessoa uma razão para seguir em frente. A abóbora.

p. 89

A protagonista, Mme Ramotswe, é uma mulher grande, colorida, que abre uma agência de detetives sem saber se vai dar certo. O livro fala de seus casos, e da maneira inteligente e original que Mme Ramotwe os resolve. É um universo pequeno, ordenado, e a o bom senso de Mme Ramotswe torna tudo muito familiar, como se nossa tia ou uma vizinha pudessem ser detetives. Ao mesmo tempo em que resolve problemas, conhecemos seus hábitos tranquilos, as conversas com os amigos, os momentos preguiçosos no jardim. No meio da história descobrimos o seu passado e o de outras pessoas que estão à sua volta.  É incrível pensar que um livro tão feminino tenha sido escrito por um homem. Na pequena grande mulher que é Mme Ramotswe, também descobrimos a África, lugar que ela tanto ama: suas paisagens áridas, suas lutas, seus diferentes povos e dialetos, seus costumes e resistências. O livro tem senso de humor, mas também mostra um pouco a tragédia cotidiana de homens e mulheres, o domínio estrangeiro e a necessidade de sobreviver, as escolhas e dificuldades que os costumes lhes impõem. O autor não pretende levantar qualquer bandeira; tudo nos é apresentado com a doçura de quem ama e vê o sofrimento de longe, da perspectiva de quem aceita o que viveu. Não há maneira melhor de dizer: é um livro de aquecer o peito. Leiam e apaixonem-se por ele.

Busquei esse livro unicamente pela recomendação da Fal, que descobriu inclusive que foi feita (e interrompida) uma série sobre ele.

5 comentários em “Agência nº1 de mulheres detetives”

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