Amigos, amantes e chocolate

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Movida pelo entusiasmo de Agência nº1 de mulheres detetives, comecei a leitura de Amigos, amantes e chocolate logo depois, por se tratar de um livro do mesmo autor. Foi a maior besteira que eu fiz. O primeiro livro é muito superior ao segundo, então a leitura fica contaminada por essa comparação: ao invés de uma terra exótica como Botswana, que serve de pretexto para descobrir tantos costumes e cenários diferentes, o livro se passa na muito mais familiar Escócia, em meio a uma cidade e suas streets, ou seja, nada que chame atenção. Enquanto Mme Ramotswe é uma mulher inovadora e colorida, conquistadora e que sempre alcança o que deseja, Isabel Dalhousie é uma solteirona abastada, tagarela e insegura, que não parece despertar nenhum desejo nos homens. Até no ritmo da história Agência nº1 ganha – o mistério central de Amigos, amantes e chocolate leva quase cem páginas para aparecer.

Durante um momento o silêncio reinou. Isabel tomou um gole de vinho. Quis perguntar a Louise: “E o que faz seu marido?”. Um pensamento delicioso, por ser uma pergunta tão subversiva e rude nessas circunstâncias: evocar o marido, o fantasma daquele banquete. Poderia fazer a pergunta com ar inocente, como se não tivesse a menor idéia da natureza da relação entre Jamie e ela, mas claro que Jamie saberia que tinha sido uma pergunta maldosa e ficaria mortificado. Mas ele não podia reclamar, já que a levara lá, para exibí-la. Será que ele não conseguia entender que esse encontro seria doloroso para Isabel? Seria demais esperar que ele percebesse a insatisfação dela com tudo aquilo?
Isabel ergueu a taça de vinho e bebeu outro gole. Na sua frente, Louise começava a mexer num botão da jaqueta. Ela não está se sentindo à vontade, pensou Isabel. Não quer estar aqui. Aos seus olhos, ela é a aventureira, a ardente, a mulher na moda, capaz de conquistar facilmente um jovem, enquanto esta outra mulher, esta filósofa, não é nada. Observou-a e viu os olhos dela percorrerem a lareira e os quadros, olhar de completo desdém no rosto, embora não tivesse a menor idéia de que Isabel  perceberia. Não sou nada para ela, Isabel disse para si mesma. Ela nem me nota. Bem, nesse caso…
“E o que faz seu marido?” perguntou Isabel.
p.57-58
Isabel Dalhousie é uma filósofa que trabalha apenas meio período para uma revista. Fazem parte do seu mundo a sua sobrinha Cat, dona de uma delicatessen; os encontros com ex-namorado de Cat, o fagotista Jamie, por quem Isabel nutre uma paixão platônica; as conversas com empregada Grace. Na delicatessen, enquanto sua sobrinha está viajando, ela conhece Ian, e dele surge o mistério que será investigado no livro. Esse mistério tem um viés espírita, mas à maneira escocesa – nunca é demais lembrar que o Brasil é o único país com uma religião espírita. Embora coerente, acredito que o fim do livro será decepcionante para a maioria dos leitores. Mais do que com a história, o autor espera que o leitor se identifique como mundo interior de Isabel, que se interessa por música clássica, psicologia, filosofia, arte, dilemas morais e por quase tudo à sua volta. A única diferença cultural especialmente marcante é a maneira como os italianos são vistos:  pessoas elegantes e bonitas, clima maravilhoso, arte e romantismo, o lugar onde qualquer um nasceria se pudesse escolher.
Apenas depois de terminado o livro, descobri que O Clube Filosófico Matinal é o primeiro com ela. Estavam os dois lado a lado na estante e ia buscá-lo semana que vem. Agora já está fora da minha lista. Amigos, amantes e chocolate é um livro interessante e bem escrito, mas Isabel não me conquistou.

 

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