A velhice e o nada

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Insistir em deixar de lado a busca irracional pela juventude e beleza cai no vazio, porque o oposto de juventude e beleza acaba sendo feiúra e velhice. São poucos aqueles a quem damos o privilégio de serem considerados desejáveis mesmo depois dos cinquenta. Geralmente são intelectuais ou artistas; quero ver uma pessoa comum ser considerada linda com todos os atributos da velhice: cabelos ralos e brancos, rugas, pele flácida, excesso de peso. Ao contrário, elogiamos constantemente os que conseguem envelhecer sem parecer que envelheceram, o que nada mais é do que um desejo constante de juventude. Para Elias, no A solidão dos moribundos, nosso horror à velhice estaria intimamente ligado ao horror à morte. Os velhos, na sua decadência física, nos lembrariam da nossa própria decadência. Afastá-los do olhar seria afastar também essa lembrança desagradável. Não vemos mais ganhos e não nos preparamos mais à idéia de morrer; é como se a morte tivesse se tornado um acidente. Cito Hebe Camargo, que mesmo aos 83 anos e lutando contra o câncer, parece ter surpreendido as pessoas ao morrer.

Penso em outra questão, que nada tem a ver com angústias existenciais e é muito característica da nossa época, fruto do que Bauman chama de liquidez. As rápidas mudanças do capitalismo e a nossa sociedade de consumo levaram a uma cultura do descartável, que vai muito além dos objetos. Descartamos amores, amizades, projetos, tristezas. Se não pela certeza de que encontraremos outros muito facilmente, às vezes apenas com um clique, o fazemos pela exigência do mercado. Se não estivermos felizes e produtivos na segunda-feira seguinte, possivelmente alguém capaz disso tomará o nosso lugar em pouco tempo. Se não somos capazes de nos apresentar assim apenas pela força da nossa personalidade, apelamos para os remédios. A lentidão natural dos mais velhos – tanto fruto da diminuição de energia quanto pela dificuldade de absorver as mudanças tecnológicas – é o que há de pior para esse estilo de vida. Não vemos mais porquê apelar para os mais velhos e achamos que eles nem entendem do que estamos falando. O respeito aos mais velhos se tornou uma exigência educada, não mais reflexo de uma admiração. A força e a autoridade da velhice estavam ligadas a valores que hoje estão completamente esvaziados: vasta experiência de vida, conhecimento das tradições, capacidade de raciocinar friamente, decisões ponderadas, resistência ao novo, o olhar além das aparências, etc.

Ao mesmo tempo, enquanto ficar velho de corpo é inevitável, para ficar velho de espírito é preciso preparação. A sabedoria não chega de maneira automática com a velhice. Quem não conhece velhos apenas de corpo – ridículos na sua tentativa de lutar contra o tempo, vazios de quaisquer valores, apenas um arremedo feio do que foram na juventude. Como na questão do ovo e da galinha, nosso apego à juventude gera velhos que não sabem envelhecer e a velhice vazia de alguns nos faz pensar que não há nada de desejável na passagem dos anos.

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