Lady Godiva e o ativismo virtual

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Lady Godiva, John Collier, 1897
Diz a lenda que a bela Lady Godiva ficou penalizada com a situação do povo de Coventry, que sofria com os altos impostos estabelecidos por seu marido. Lady Godiva apelou a ele tanto que ele concedeu com uma condição: que ela cavalgasse nua pelas ruas de Coventry. Ela aceitou a proposta e mandou todos os moradores se fecharem em suas casas até que ela passasse. Diz a lenda que somente uma pessoa (Peeping Tom) ousou olhá-la, e ficou cego por consequência. Ao final da história, Leofric retira os impostos mais altos assim mantendo sua palavra.
 Fonte: Wikipedia
Eu ouvi falar de Lady Godiva quando era criança, como um símbolo de fé na bondade das pessoas. Uma nobre que se propõe a ficar nua por seu povo, e um povo que resiste à tentação de vê-la para se mostrar digno dessa confiança. A história exemplifica também duas formas de ação: a de se lançar e a abstenção. Foi no que o povo não fez que constituiu o seu mérito. Costumamos considerar apenas a primeira importante e esquecemos que não condenar, não prejudicar, não ajudar a manter também é uma forma de ajudar. Esse esquecimento ou, talvez, a desvalorização da abstenção como ativismo tem nos levado a alguns erros.
Vivemos tempos de ativismo virtual, de pessoas compartilhando links, publicando hastags e colocando em pauta coisas que as indigna. Para muitos é discutível o quanto esse “ativismo de sofá” é válido; válido ou não, ele consegue fazer um certo barulho e dar atenção a assuntos que de outra forma talvez fossem ignorados. Só que a capacidade desse ativismo em dar visibilidade também é prejudicial. O caso mais recente é o da menor de idade que teve as suas fotos íntimas publicadas por um ex-namorado. O perfil com as fotos foi um sucesso, elas foram vistas e comentadas por milhares de pessoas, o nome e o local onde moça vive foram divulgados. Mesmo aqueles que discutiam o quanto a atitude do rapaz foi reprovável não se cansavam de repetir o nome completo da menina, que foi parar no trending topics do twitter; pessoas que queriam se manter atualizadas pediam para ver os links e assim o assunto se tornava cada vez maior. Lembro também o caso da loja virtual que xingou uma cliente e acabou dobrando suas vendas. Chamar a atenção, mesmo que pelos piores motivos, acaba sendo lucrativo para alguns. Então proliferam piadas de mau gosto, declarações machistas, grosserias de todo tipo. Porque quando as pessoas tentam se defender elas repassam e repetem, o que apenas estende o ciclo.
Se Lady Godiva passasse nua hoje, todo mundo colocaria a cabeça na janela para twittar sobre o assunto e manter os outros atualizados.

1 comentário em “Lady Godiva e o ativismo virtual”

  1. Quem terá a coragem de olhar e ver?…
    .
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    QUATRO PAREDES
    by Ramiro Conceição
    .
    .
    Em quatro
    paredes:
    se pendura
    quadros;
    se chora;
    se sonha;
    se dorme
    e se ora
    ao céu
    fora de esquadro
    acima do telhado;
    se briga;
    se brinca;
    se perde
    a hora;
    se nasce;
    se morre;
    se namora;
    se vai
    embora;
    se perdoa;
    se amaldiçoa;
    se trama;
    se faz drama
    e… a cama;
    se voa;
    se anda;
    se fica
    à toa;
    se canta;
    se cala;
    se sente
    à-toa;
    se lê;
    se escreve;
    se esquece;
    se ouve música;
    se entristece;
    se ri;
    se enlouquece;
    se tem ideias;
    se faz cadeias;
    se bebe
    em canecas
    e se monta
    e desmonta
    bibliotecas.
    .
    .

    PS.: Caminhante, inventei os versos que faltavam ao poema, não estão no Milton… Portanto, pertencem aos cegos que veem além das vidraças…

    Um beijo…

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