As cosmicômicas

A melhor maneira de chegar até um autor é pelo olhar de um leitor completamente apaixonado por ele. Foi com a indicação segura de quem leu tudo de Italo Calvino que eu cheguei a Cosmicômicas. O primeiro adjetivo que me vem para descrevê-lo é Infantil, na melhor concepção da palavra. Ele me lembra aquelas associações fantásticas e imaginação sem limites das crianças. Suas descrições são cinestésicas, inéditas, apaixonantes. Lê-las nos conscientiza de quanto a imaginação adulta é limitada, como nossas metáforas passam por categorias pré-definidas e previsíveis. Cada crônica começa com uma descrição científica que remota às origens do universo ou da vida na terra. O que ele faz a partir daí é um encantamento:

Agora certamente vão me perguntar que diabo andávamos fazendo na Lua, e eu lhes explico. Íamos recolher o leite, com uma grande concha e um alguidar. O leite lunar era muito denso, uma espécie de ricota. Formava-se nos interstícios entre uma escama e outra pela fermentação de diversos corpos e substâncias de proveniência terrestre, que se desprendiam dos prados, das florestas e das lagos que o satélite sobrevoava. Era composto especialmente de: sumos vegetais, girinos de rãs, betume, lentilhas, mel de abelhas, cristais de amido, ovas de esturjão, bolores, pólens, substâncias gelatinosas, vermes, resinas, pimenta, sal mineral, materiais de combustão. Bastava afundar a concha sob as escamas que recobriam o solo encrostado da Lua para retirá-la cheia daquela preciosa papa.

A distância da lua, p. 10

Para Qfwfq, protagonista de quase todas as histórias, o afastamento da lua, a volta do sol, a divisão entre a noite e o dia e até mesmo a formação de átomos de hidrogênio são mais do que explicações. Ele estava lá, ele viveu. Algumas vezes foi um participante desavisado, noutras provocou ou acelerou o processo, enquanto se apaixonava, brincava, caía. As relações que ele estabelece enquanto vive as origens do universo sim, são familiares. Nenhuma história se parece com a outra, que cada vez parte de um pressuposto diferente: como seria ter tudo num único ponto antes dele explodir o formar todo o universo? Como se relacionar com um mundo sem cores? O que é ser um ser antes das formas existirem?

Mas, visto que não tinha forma, me sentia dentro de todas as formas possíveis, e de todos os gestos e caretas e das possibilidades de fazer rumores, mesmo inconvenientes. Em suma, não tinham limites meus pensamentos, que nem eram pensamentos porque não tinha cérebro que os pudesse pensar, e cada célula pensava por conta própria todo o pensável tudo de uma vez, não por meio de imagens, que não as tínhamos à disposição fossem de que gênero fossem, mas simplesmente daquele modo indeterminado de nos sentirmos ali que não excluía nenhum outro modo de nos sentirmos ali.

A espiral, p.142

Algumas histórias partem de abstrações tão grandes que são difíceis de imaginar, como a família Ao nascer do dia ou os Jogos sem fim com átomos. Outras ficam próximas ao falar de amor, seja ele Sem cores ou de seres que começam a sair dos oceanos, como em O tio aquático. Os dinossauros consegue criar um convívio entre dinossauros e humanos e Os anos-luz é extremamente engraçado. E todas são inesquecíveis. Italo Calvino consegue levar o fantástico a lugares que o realismo-fantástico jamais sonhou. As Cosmicômicas é livro pra ter para sempre e que não pode ser comparado a nenhum outro.

Moby Dick e a violência como prazer

Tenho certeza de que um autor que procurasse uma editora com Moby Dick, hoje, não conseguiria ser publicado. Pelo menos, não do jeito que o livro é. O editor desejaria cortá-lo pela metade ou até mais, como nas muitas versões resumidas que se encontram por aí. Resumir Moby Dick não seria difícil: mantém-se as primeiras duzentas páginas, até o nome da baleia ser citado. Conta um certo número de páginas do final e tudo que há no meio pode ser deixado de lado. Com isso o leitor conheceria a história da caça à baleia Moby Dick, mas também perderia a essência do livro. São nas suas longas descrições, muito mais em Moby Dick sem si, que está o coração da história, o que ela quer transmitir ao leitor. Moby Dick é um daqueles livros que nos mostra muito mais do que o autor previra, ele é retrato de uma época.

Herman Melville foi ele mesmo um marujo, um caçador de baleias. O livro é uma declaração de amor à profissão, ressaltada em todos os seus aspectos, tudo o que ela envolve tanto em termos materiais quanto humanos. O leitor acompanha a escolha de um navio, sua preparação antes de embarcar, a hierarquia entre os comandantes, as diversas funções, os talentos necessários à tripulação, a rotina de uma vida à bordo, a etiqueta entre navios, as diferenças entre embarcações de funções e países distintos, etc. Cada aspecto é esmiuçado em capítulos pequenos, porém abundantes, o que faz com que grande parte das mais de 500 páginas do livro seja de descrições. A Moby Dick em si é citada ali e acolá. O leitor pode ficar fascinado ou achar tudo um tédio. Ok, mesmo quem ficar fascinado terá momentos de tédio.

É na relação com as baleias que está, na minha opinião, a parte mais interessante do livro. Tem descrições históricas, tipos, comportamento, diferenças, utilidades, anatomia, tudo o que se pode querer saber sobre baleias e mais um pouco, principalmente sobre a  cachalote – espécie que até então era considerada a maior do mundo e da qual se extraía o precioso óleo esparmecete. A caça às baleias (o “Leviatã”), pela falta de tecnologia, ainda era feita no braço. Os marujos a cercavam em pequenos botes a remo e atiravam contra ela seus arpões. Era tudo muito próximo, muito pessoal. Nessa luta entre homens e um animal tão maior e mais forte do que eles havia sentimentos de admiração e desafio. Às vezes é difícil entender como passagens de morte e sofrimento são alternadas com o desejo de entender as baleias e o reconhecimento diante de sua nobreza:

Quando penso mais nessa forte cauda, mais sinto minha deficiência para descrevê-la. Algumas vezes se pode notar nela gestos que, embora ornassem a mão de um homem, permanecem-nos totalmente inexplicáveis. Em um grande bando são tão notáveis, às vezes, esses misteriosos gestos, que alguns baleeiros dizem serem semelhantes aos sinais ou símbolos dos franco-maçons, e dizem que também na verdade o cachalote, por meio de tais gestos, conversa inteligentemente com o outro mundo. Há também alguns movimentos que a baleia faz com o corpo, que são estranhos e difíceis de explicar para seu mais experimentado atacante. Eu mal conheço o Leviatã, nem jamais o conhecerei. Mas, uma vez que não conheço nem a cauda do cachalote, como então lhe desvendar os segredos da fronte? Muito mais, como compreender-lhe a face, quando ele não a possui? Parece que ele diz: “Verás minhas partes posteriores, a cauda, mas a minha face, não a verás.” p.405

É uma ambiguidade difícil de entender. Primeiro pela violência contra os animais. Hoje nos compadecemos do sofrimento animal e ninguém mais concorda que o homem tenha direito de matar e exterminar a natureza da maneira que quiser. O livro tem um pensamento muito anterior à noção de ecologia e nos faz perceber como chegamos aqui. Há um capítulo que diz que por mais que se matem dezenas de milhares de baleias por ano e já esteja mais difícil encontrá-las, as baleias sempre darão um jeito de existir, então é possível caçar sem limites. Nos momentos que a baleia consegue surpreender seus agressores ou vinga a morte de outras do seu bando, são sempre descritos como parte da sua maldade. Depois de morta, a baleia precisa ser cortada, e seu matador tem direito a se deliciar num banquete. Da cabeça da cachalote é retirado o espermacete, que é descrito como leitoso, cheiroso, uma substância divina. Seus restos são cozidos, retalhados, repartidos com tubarões. Nem ao menos há pudores ou respeito por filhotes ou baleias grávidas.

Outro aspecto importante é a descrição a adrenalina da caça: a morte como uma forma de vitória, o prazer em ser agente de sofrimento. Esse sentimento, que parece ser tão antigo quanto homem, está presente em relatos de guerras, em duelos, em vinganças pessoais, na relação de respeito e temor a tiranos cruéis e até mesmo em histórias infantis. Hoje não mais os toleramos, não dentro da normalidade. A violência como forma de prazer é, para nossa civilização, característica do comportamento doentio dos psicopatas – personagem que tememos, reprovamos e estudamos profundamente. O sangue e a violência nunca deixaram de existir, mas que sejam praticadas longe dos olhos e da forma mais institucionalizada possível. De matadouros à violência policial, nada disso deve chegar ao cidadão comum e ferir sua sensibilidade.

É provável que a violência faça parte da própria constituição do homem, que seja um sentimento atávico que jamais possa ser eliminado. A violência que reprimimos na caça reaparece de outras formas. Como espectador, por exemplo, o homem satisfaz seu desejo de violência ao assistir lutas e ver filmes. Nas lutas, a força e a ferocidade dos oponentes satisfazem a platéia, que ao mesmo tempo não precisa temer pela saúde dos envolvidos – existem regras, é de verdade mas não tanto assim.  Filmes e séries que retratam violência são praticamente onipresentes. Neles, dá-se preferência a uma violência repetitiva, cerebral, cada dia mais sofisticada, ou seja: violência praticada pela figura do psicopata. Existe também o tema da transformação do cidadão pacífico em um homem violento. É como se disséssemos: pode acontecer com qualquer um, na essência somos todos violentos. Moby Dick traz de volta esses sentimentos, e mostra uma violência ainda não tão pacificada pelo comportamento civilizado.

Um depoimento sobre Niemeyer

Conta meu pai da época que ele morava em Brasília, em plena ditadura militar, que arrumaram um pretexto para processar o Niemeyer, afinal ele mais que incomodava o regime só por existir. A desculpa seria averiguar se havia enriquecimento ilícito sobre seus bens, uma vez que ele foi funcionário público e não poderia ter alguns imóveis que possuia à época só com o seu soldo. O ridículo da situação é de que, além de nunca ter sido rico e ostentar vários bens, a época ser funcionário público era compatível com exercer a profissão privadamente, coisa que só mudou após a constitução de 88. Ou seja, ele assinou inúmeros projetos Brasil afora. Assim, era meio notório que não havia desvio algum, era so pra encher o saco e o regime poder dizer que Niemeyer era suspeito de desvio. Durante o julgamento, quando inquirido como ele havia comprado uma casa no campo a época, diz meu pai que ele chocou todo mundo ao levantar indignado perante aquela palhaçada toda e responder, esbravejando com a mão pra cima: “Dando o cu! Eu comprei essa casa dando o cu, meus senhores!”. Foi o escândalo. Como meu pai repetia os mesmos casos e piadas para mim, que eu sempre ouvi pelo prazer de vê-lo contar, fato é que cresci ouvindo essa história e vendo meu pai dando risada cada vez que contava da coragem dele e da cara dos militares. Pra mim, ficou mais um exemplo que coleciono aqui comigo de como é necessário não calar perante as arbitrariedades (coisa que todos falam e poucos fazem), e que o humor pode sempre ser acompanhado da coragem. Valeu pelo exemplo de vida 😉
Depoimento de Ingrid B. Pavezi, no Facebook.