Ler era mais simples

Posso dizer que ano passado me converti ao calvinismo – não o calvinismo religião, e sim que passei a ser fã de Ítalo Calvino. Depois das Cosmicômicas e Cidades Invisíveis decidi deixar o blog em paz e parar de escrever sempre sobre ele – o que não significa que deixei de ler. Li Barão entre as árvores, Visconde partido ao meio e estou nas Fábulas Italianas. Teria pouco a dizer sobre esses livros sem ser repetitiva: que Ítalo Calvino é genial, que cada livro dele é um deleite, que sua imaginação parece não ter limites e que tudo é muito dinâmico e prazeroso. A leitura dele me faz sentir algo que há muito não sentia, que é o entusiasmo e a certeza de que o próximo livro será bom. Porque ser leitor não é fácil. A cada livro que eu termino um problema se inicia.

Eu lembro a maravilha que era na minha época de Coleção Vagalume, quando todos os livros valiam a pena. Uns valiam mais do que outros, mas eu sempre os terminava. O que me chamava atenção eram as histórias. Se eram imaginativas, o livro era bom. Mesmo quando ruins, quaisquer livros valiam a pena e garantiam muitas horas de privacidade e de prazer. Isso sem falar do conforto de uma série inteira para vasculhar e não ter que me preocupar de não ter o que ler. Eu pensava que leria a série toda e foi justamente quando seus livros não me agradaram mais é que o problema começou: qual o meu próximo livro? Passei a precisar vasculhar estantes, ir atrás de obras e autores clássicos, descobrir gêneros, estar atenta à indicações e tantos outros segredos para farejar um bom livro que uso até hoje.

Ao contrário da maioria, não condeno que lê Paulo Coelho ou os tons de cinza. Acho que é a semelhante à condenação que antigamente havia com quem lia quadrinhos. Hoje há todo uma cultura HQ e alguns quadrinhos são verdadeiras obras de arte; quando eu era pequena, entendia-se que quem lia quadrinho nunca conseguia evoluir como leitor, que aquilo era subcultura. Bobagem, coisa de quem não acredita no prazer de ler. Tem até a história de um amigo, que tinha um pai que era contra histórias em quadrinhos. Então quando a gente começa a citar Recruta Zero, Turma da Mônica, Tio Patinhas, Riquinho e outros, ele não sabe de nada. O que meu amigo leu na infância foi A vida dos grandes estadistas, isso sim leitura que forma o caráter de uma criança.

Italo Calvino me dá essa segurança do livro bom. Esse recurso de gostar de um autor e ler tudo dele nem sempre funciona. Depois do Insustentável leveza do ser, achei que me tornaria fã do Milan Kundera. Li mais uns dois livros dele, também bem escritos, mas nada marcante. Também tentei seguir Isabel Allende, por causa do indiscutível Casa dos Espíritos. Ela realmente sabe contar histórias, mas ler dois livros seguidos sobre a família dela (O plano infinito e Paula) me deixou meio decepcionada e me perguntei se não era melhor ela abandonar essa prática de publicar um livro por ano. E por aí vai. No geral, não suporto ler muitos livros seguidos do mesmo autor. Começa a ficar repetitivo e perdemos a dimensão da sua grandeza. Por isso eu deixei um pouco de lado alguns grandes autores, cuja obra ainda quero devorar – Capote, Faulkner, Garcia Marquez, Bellow, Woolf – apenas para retomá-los sem a interferência da obra anterior.

Ler demais nos torna gourmets, nos torna chatos, nos torna exigentes. É a diferença entre provar um doce pela primeira vez e já conhecer todos os doces do mundo. Se um dia meu critério foi que a história fosse imaginativa, hoje quero personagens bens construídos, narrativa coerente, estilo próprio, ritmo, imprevisibilidade, contexto histórico… Pra piorar, além de ler, eu escrevo. Não o suficiente pra ter escrito qualquer coisa que sobreviva à sua postagem, mas o suficiente para apontar o dedo para a lua e achar que posso alguma coisa. Fico feliz em ter o Ítalo Calvino para saciar um pouco o meu vício. Ele resolveu o meu problema, por enquanto.

A amarga vitória da medicina

Hoje, nada mais natural que quem precise de atendimento médico de urgência vá a um posto de saúde. É uma necessidade e um direito. Embora existam religiões que atribuam curas milagrosas à fé e o uso do que se chama de “medicina alternativa” – rótulo meio irônico, porque em geral indica o que não é reconhecido como medicina – é nos médicos que se deposita a maior confiança de diagnóstico e de cura. Na minha pesquisa de mestrado, sobre pessoas que se tornaram cegas na idade adulta, pude constatar a força de discurso médico. Não era o fato de acordaram sem enxergar que convencia as pessoas de que elas estavam cegas e sim a palavra do médico, o diagnóstico. E somente quando um médico dizia que eles não poderiam voltar a enxergar que eles podiam se conformar com sua condição e recomeçar a vida. Essa entrega radical é fruto de um processo histórico e indica a vitória do que entendemos como Medicina.

Foucault traça esse panorama no O nascimento da clínica. O argumento do livro é que o conhecimento sobre o corpo e suas doenças sempre existiu e que, através de estratégias de poder, foi centrado no que hoje chamamos de conhecimento médico. Essa reorganização gradual mudou nossa forma de olhar o organismo, substituiu a questão de “onde lhe dói?” pela  “o que você tem?”. Deixamos de lado a figura de curandeiros, parteiras e xamãs porque sua atividade se constituía, antes de tudo, pela prática. Hoje entendemos que o conhecimento empírico e o contato com o doente junto ao seu leito não são mais fontes do conhecimento médico – a medicina é formada por faculdades e hospitais, há apenas uma via de transmissão do seu saber. A maneira de entender a doença, o conhecimento do corpo humano, a capacidade de hierarquizar e classificar as variações dos sintomas, a criação de uma linguagem médica e a espacialização da medicina, contribuíram para tornar esse saber tão hermético que o leigo não ousa duvidar da medicina.

É um processo que ainda hoje é muito forte. Foi um luta para que acupuntura, que existe há milênios na China, finalmente tivesse sua eficácia reconhecida. E quando isso aconteceu, passou para o domínio da classe médica. Outro exemplo é polêmico projeto do Ato Médico, que retira a autoridade de vários profissionais da área de saúde – psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, biomédicos, fonoaudiólogos, farmacêuticos – em favor da palavra final de um médico. Vemos a medicina ampliar cada vez mais seu domínio sobre toda e qualquer forma de tratamento de saúde.

Os médicos se tornaram tão essenciais que a medicina hoje nos frustra. O alcance dela nos frustra, a lentidão de certas curas e até pelo fato de ainda existir tantas doenças incuráveis nos frustra. À medida que são comuns longas esperas, falta de leitos ou tratamentos caros demais, vemos que existe um sério problema em lidar com a demanda. Na interação com os pacientes, existem problemas de credibilidade – médicos que não ouvem seus pacientes, casos de erros e abusos, acusações de atender a interesses de grupos em detrimento da saúde da população. Os médicos, por outro lado, se dizem numa posição desconfortável com a alta expectativa depositada neles, entre a necessidade de atender bem versus atender mais. O poder acumulado pela medicina se tornou grande demais e exige cada vez mais investimento. Há uma frase atribuída a Gandhi que diz que “a multiplicidade de hospitais não é sinal de civilização, é sintoma de decadência”.

Um grande poder só é possível quando outros se vêem destituídos de poder. No caso da medicina, esse poder foi retirado de nós, os não-médicos. A busca por formas alternativas de cura tem sido taxada de ignorância e falta de cientificidade; para mim, ela é produto do próprio crescimento da medicina e sua impossibilidade de controlar tudo. Vejo nisso, também, a tentativa de tomar de volta o poder de cura que um dia tivemos.

O perigo de uma única história

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre o que ela chama de uma única história. Ela parte de livros, da única literatura que lhe era acessível quando criança, e reflete sobre visões que temos da África, de estrangeiros, de pobreza, de capacidades. A única história, a maneira única de colocar um assunto, se revela instrumento importante de opressão e perpetuação de preconceitos.

Parte 1:

Parte 2:

Retirado do Blogueiras Feministas.

Muito além do peso

Por Adriane Hagedorn

Não te dá um nó na garganta ouvir de uma criança que o que falta em sua vida é o sentido? Então se prepare para muitos outros nós que estão por vir!

O filme “Muito além do peso”, de Estela Renner nos dá um soco seco no estômago e trata de forma clara e educacional o descaso que se tem com a alimentação correta. Você imagina um mundo com crianças que não sabem distinguir uma batata de uma cebola; ou um abacate de um pimentão?

O documentário – que estreou em novembro – apresenta dados assustadores de cultura, educação e da alimentação de crianças brasileiras. O aparentemente inofensivo refresco de fruta em pó, por exemplo, é um dos vilões da alimentação que já começa com o pé errado desde cedo. Em 35g de refresco, há 28g de açúcar e 1% de fruta! Isso contribui a um outro fato: 51 quilos, peso médio de consumo anual de açúcar por brasileiro.

De todos os dados informados no documentário (que nos surpreende a cada nova informação) um me pegou de surpresa: 56% dos bebês ingerem refrigerantes com frequencia antes de completar um ano.

Leio o restante do post e os videos que ele apresenta.

 

ATUALIZAÇÃO: é possível ver o documentário completo aqui.

As cidades invisíveis

Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção que qualquer outro de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela imensa amplitude dos territórios que conquistamos, à melancolia e ao alívio de saber que em breve desistiremos de conhecê-los e compreendê-los, uma sensação de vazio que surge ao calar da noite (….)

p. 9

Minha leitura foi mudando ao longo do Cidades Invisíveis. O fio condutor do livro são as histórias de Marco Polo a Kublai Khan, como se fosse uma espécie de Mil e uma noites. Seguem cidades de nomes femininos e lindas descrições, cinestésicas, imaginativas e coloridas daquela maneira bastante peculiar de Italo Calvino. É impossível guardar todas as descrições e tudo é tão lírico que nesse instante me pareceu que estava lendo um livro de poesias, que como tal deve ser lido entre grandes pausas para ser melhor saboreado. As descrições podem ser lidas somente pela sua lindeza, como um exercício estético. Só que num certo momento, entre uma cidade e outra e as discussões de Marco Polo e Kublai Khan, as cidades parecem mostrar algo a mais:

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus, ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma certa entrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

– Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta pergunta, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: – Você viaja para reencontrar seu futuro?

p.30-31

Tal como Kublai Khan, começamos a ver nas descrições de Marco Polo algo mais do que ele simplesmente diz. As cidades parecem indicar outras coisas. Mais: em meio às descrições fantásticas, encontramos nossa próprias cidades, nossas relações, nossa vida. Nos fios que os habitantes de uma traçam entre todos com quem se relacionam e depois mal conseguem se mover; na cidade que joga tanto lixo que ele se tornará maior do que ela; naquela que é cheia de novidades para forasteiros e tediosa para os que nela vivem; nas cidades que não podem ser conhecidas, naquelas da qual jamais se sai. Nesse instante (que é do leitor e não do livro) tudo se torna todo metafórico e até mesmo os títulos dos capítulos (memória, desejo, símbolos, delgadas, olhos, céu, contínuas, ocultas) parecem querer dizer alguma coisa.

Evitem dizer que algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si. Ás vezes, os nomes dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes, e até mesmo os traços dos rostos; mas os deuses que vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos. É inútil querer saber se estes são melhores do que os antigos, dado que não existe nenhuma relação entre eles, da mesma forma que os velhos cartões-postais não representam a Maurília do passado mas uma outra cidade que por acaso também se chamava Maurília.

p.32-33

É daqueles livros que nos fazem querer adivinhar o autor, como se ele andasse por aí soltando rimas no ar. Tudo parece fluido e muito espontaneo, o que só atesta o trabalho meticuloso que há por detrás. O leitor busca fascinado os sentidos ocultos, imagina cidades de contos de fadas, experimenta outras formas de organizar sociedades. Se sair das Cidades Invisíveis mais sábio, tanto melhor.

Leituras incorretas e o sujeito que lê

Ler um livro com idéias da qual discordamos é incômodo. Foi difícil passar dos primeiros capítulos de Lolita. O livro é narrado em primeira pessoa, na pessoa do pedófilo. Nas primeiras páginas existe uma justificativa para esse comportamento, ou seja, ele tenta justificar o injustificável. Quase desisti… e que bom que não o fiz. Passadas essas primeiras páginas, extremamente necessárias dentro da história, o livro se revelou uma grande experiência. Ele é crítico, divertido, envolvente e – pasmem – nada  pornográfico. É um excelente livro, um dos melhores que eu já li. Mesmo que a idéia de um homem abusar de uma criança não tenha nada de bela.

Nesse mesmo tema, um dia veio parar nas minhas mãos uma revista de circulação pequena, cujo nome eu não lembro, com o público alvo de skatistas. Havia naquele número um artigo polêmico sobre zoofilia. O artigo vinha lacrado, com o aviso de que chocou muita gente. Fiquei curiosa e fui direto nas páginas lacradas. Foi um dos artigos mais divertidos da minha vida. O artigo descrevia as características sexuais de vários animais, cuidados que um humano precisa ter se decidir copular com eles e por fim terminava com a história do filme de maior sucesso do Zé do Caixão: 24 horas de sexo explícito, protagonizado pela atriz Vânia Bournier e um pastor alemão. O que havia de polêmico no texto era a maneira como ele foi escrito: em nenhum momento seu autor chama a zoofilia de doença e se coloca contra ela. Parecia um artigo da Revista Nova.

O que quero dizer com essas aventuras literato-sexuais é que ler não é concordar. Entre  a intenção do autor e a interpretação do leitor existe um universo. O mesmo conteúdo pode excitar, chocar ou causar riso. Atualmente existe muito barulho em torno da obra de Monteiro Lobato (que nunca li), acusada de racista. Ao que me consta, ninguém nega o racismo do autor em certas partes, e sim a possibilidade de oferecer isso a crianças sem contribuir para perpetuação de preconceitos. Como é muito difícil controlar a variável do sujeito e suas interpretações, nossas atenções se voltam sobre o que lhe cai em mãos, principalmente de crianças: o quanto idéias ruins são toleráveis porque têm um contexto? É preciso debater certas idéias antes de disponibilizá-las ou é tão difícil e perigoso que é mais fácil abandoná-las? A radicalização de algumas posturas pode levar a: nada justifica o acesso idéias discordantes, precisamos controlar de antemão todo material acessível.

Isso não é novo. Penso em religiões, que estimulam seus fiéis a lerem, ouvirem e comentarem apenas o que diz respeito à sua fé. Para citar algo que li recentemente, lembro dos efeitos do governo talibã sobre o Afeganistão. Tem a famosa burca e restrições às mulheres que causam desespero só de ouvir: proibição de frequentarem escolas, de andarem sozinhas, de exibirem qualquer parte do seu corpo em público, de se dirigirem a qualquer homem que não pertença à família. Além disso, os talibãs interferiram em pequenas coisas como: proibição de ter fotos, de ingerir bebidas alcoólicas, de dançar. Nem preciso dizer que não se pode ler livros desfavoráveis à fé muçulmana. Até empinar pipa foi proibido. Para nós, tudo isso soa como barbárie; para os seus implantadores havia a intenção de purificar os costumes através da supressão de tudo o que desviasse a sociedade do comportamento bom.

Vejo por detrás de tudo isso uma descrença no sujeito. Acho justo temer pela falta de discernimento de uma criança ao ler uma afirmação racista num livro que lhe foi oferecido na escola – mas o que justifica esse mesmo controle sobre um adulto? Numa explicação religiosa, podemos afirmar que o Mau é tão insidioso que travestirá coisas ruins com a aparência de boas. Numa perspectiva histórica, arrisco, eu poderia citar que a II Guerra nos deixou como legado uma profunda descrença na ciência e na capacidade de discernimento do homem. Para muitos existe um Bom imutável e indiscutível – eu não acredito nisso. Mesmo que ele exista, a questão de quem tem autoridade e discernimento para reconhecê-lo não é simples.

Quando ditaduras tentavam impor uma forma correta de arte, ela raramente ficava boa. Parece haver uma antipatia natural entre a expressão artística e o moralismo. Existem livros bons em seu aspecto literário que não são necessariamente livros de boas idéias. São livros que podem descrever coisas chocantes, defender pontos de vista intoleráveis, contribuir para a manutenção de preconceitos. Colocar um bom livro ruim na mão de um leitor é sempre um risco: ele pode abandonar a leitura, pode relevar a informação como liberdade poética ou – o mais arriscado de tudo – pode começar a achar que coisas ruins não são tão más assim. O importante é que esse risco exista, para todos os livros e todos os leitores. Não há crítica e esclarecimento na unanimidade.

O livreiro de Cabul

O livreiro de Cabul é um daqueles livros que você pode presentear ou indicar sem medo. O seu amigo que não é de ler muito vai adorar as histórias curtas e acessíveis; o amigo intelectual vai aproveitar muito a cultura e as questões que o livro levanta.  No papel privilegiado de estrangeira – o que lhe permitia ficar com homens e mulheres – a autora Asne Seierstad se hospedou na casa do livreiro Sultan e teve a oportunidade de conviver intimamente com a sua família. É da família de Sultan que o livro trata, dos seus dramas cotidianos. E através dela temos acesso à cultura árabe, numa fase especialmente delicada: a queda do regime Talibã.

O grande mérito do livro é trazer a cultura muçulmana para muito perto. É um livro que modifica lentamente as opiniões do leitor. Os muçulmanos deixam de ser algo distante e se tornam Sultan, Leila, Mansur, Bibi Gul e pessoas que como quaisquer outras têm sonhos e procuram realizá-los. Alguns são egoístas e só pensam em dinheiro, outros querem experimentar o sexo, quase todos querem independência. A sua maneira de buscar esses sonhos está inserida numa cultura onde a família ocupa uma papel essencial e os hierarquiza. As relações entre homens e mulheres são cercadas de tabus, que oras os protegem e ora os fazem sofrer. Somado a tudo isso, eles vivem numa região devastada por guerras e contínuas disputas políticas.

É difícil não ficar extremamente sensibilizado com a sina feminina. A maior representante dessa sina é Leila, a tia de Sultan. Solteira, trabalha dia e noite para os parentes. Criada sob o regime talibã, mesmo quando ele é extinto não consegue se sentir bem com a liberação de certos costumes. Vemos o sofrimento de Sharifa, a primeira de Sultan, ao ser colocada de lado em prol de uma mulher mais jovem. Mesmo em Bibi Gul, considerada uma mulher de sorte por ter tido muitos filhos homens, vemos a falta de perspectiva. Qualquer contato com homens lhes suja a reputação, qualquer arbitrariedade de um parente masculino se torna uma ordem. Não é uma versão antiga e piorada dos costumes ocidentais, é diferente. Tanto que o homossexualismo é comum e visto com muita naturalidade, com líderes tribais com amantes jovens que se adornam com flores.

Mais do que a revolta com os seus costumes, o que o leitor sente é compaixão. O repúdio ao ocidente, que aparece em algumas passagens, soa muito mais como uma reclamação distante, cultivada pelo hábito e cercada de ignorância. O cenário do livro é de cidades devastadas: paredes perfuradas a bala, imóveis sem água, apartamentos sem móveis, alunos sem professores, lugares onde um dia houve e já não há mais. Mesmo Sultan que é um homem rico nos parece empobrecido. E quem é realmente pobre, como um carpinteiro, está muito pior. Tudo é feio e destruído. As cidades tentam se reerguer do regime talibã, mas suas consequencias ainda perduram na burocracia, no medo, nos costumes. O livro nos coloca claramente à favor da intervenção americana.

Akbar se diverte lendo um livro da Organização de Turismo afegã, lançado em 1967.

— “Ao longo da estrada há crianças vendendo correntes de tulipas cor-de-rosa. Na primavera, cerejeiras, abricoeiros, amendoeiras e pereiras brigam pela atenção dos viajantes. Uma paisagem florida segue de Cabul por todo o caminho.” — Eles dão risadas. Nesta primavera, a única coisa que podem ver é uma ou outra cerejeira rebelde que sobreviveu a bombas, mísseis, três anos de seca e poços envenenados. Mas será difícil encontrar um caminho sem minas para chegar às cerejas. — “A cerâmica local é uma das mais belas do Afeganistão. Dê uma parada para ver as oficinas na beira da estrada, onde os artesãos fazem travessas e vasilhas seguindo tradições seculares” —Akbar lê. (….)

— Dizem que Alexandre escreveu odes a essas montanhas, que “inspiravam a fantasia para mistérios e o descanso eterno” — Akbar lê no guia turístico. — O governo planejava uma estação de esqui nesse lugar! — ele exclama de repente, olhando para cima das encostas íngremes. — Em 1967 Assim que a estrada fosse asfaltada, diz aqui! A estrada foi asfaltada, como previu o guia, mas não sobrou muito do asfalto. E a estação de esqui ficou só nos planos.

— Seria uma descida explosiva — Akbar ri. — Ou talvez as minas pudessem exibir cartazes como “Experimente o Passeio Bombástico, o legítimo esporte radical afegão.”

Todos dão risadas. A realidade trágica às vezes parece um desenho animado ou um filme de suspense. Eles visualizam esquiadores coloridos explodindo em mil pedaços montanha abaixo.

p.100-101

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

Por Daniel Duclos

UPDATE: Muita gente tem lido este post como uma idealização da Holanda como um lugar paradisíaco. Nada mais longe da verdade. A Holanda não é nenhum paraíso e tem diversos problemas, muitos dos quais eu sinto na pele diariamente. O que pretendo fazer aqui é dizer duas coisas: a origem da violência no Brasil é a desigualdade social e 2, apesar da violência que gera, muita gente gosta dessa desigualdade e fica infeliz quando ela diminui, porque dela se beneficia e não enxerga a ligação desigualdade-violência. Por fim: esse post não é sobre a Holanda. A Holanda estar aqui é casual. Esse post é sobre o Brasil, minha pátria mãe.

A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

Leia o post inteiro aqui.

Minha razão de viver, Samuel Wainer

Minha razão de viver: memórias de um repórter é um livro para ser devorado, obrigatório para quem se interessa por jornalismo e política. Cheguei a Samuel Wainer pelas citações dele em Chatô, antigo patrão e um de seus ferrenhos inimigos, e na autobiografia de Danuza Leão, sua ex-mulher, que o descreve como um homem cosmopolita e charmoso. É uma autobiografia baseada nas fitas que o próprio Samuel gravou, com a intenção de transformá-las num livro e não teve tempo de concluir o projeto. De acordo com seu organizador, Augusto Nunes, é uma autobiografia inovadora pela sinceridade, pela maneira como descreve francamente derrotas, fraquezas e corrupções. Depois disso, o gênero da autobiografia no Brasil nunca mais poderia permanecer o mesmo, com suas visões idealizadas e unicamente elogiosas. Ao ler sobre a trajetória pública e jornalística de Samuel, concluímos que ser inovador era uma de suas marcas.

O livro já começa dando ao leitor o feito mais conhecido de Wainer: ter feito com Getúlio Vargas a entrevista definitiva que o levou de volta ao poder. Em 1947, o então senador Getúlio Vargas havia resolvido retirar-se da vida pública e se isolou em São Borja, sua cidade natal. Ele havia governado o país durante quinze anos e acusava o Congresso de tentar desmoralizá-lo. Toda imprensa estava (e continuaria a estar durante muito tempo) contra ele. Nesse exílio voluntário, se recusava a receber jornalistas. Numa viagem feita ao Rio Grande do Sul com outras finalidades, Samuel toma a iniciativa de procurar Getúlio em busca de uma entrevista. O resultado desse encontro gerou a manchete “Eu voltarei como líder das massas” que agitou o país e colocou Getúlio na presidência por voto popular nas eleições de 1950.

De repente, a porta se abriu e vi Getúlio Vargas. Parecia um genuíno boneco gaúcho, semelhante àqueles que se vendem aos forasteiros como lembrança do Rio Grande do Sul. Baixinho, bombachas azuis, uma bonita camisa xadrez, lenço no pescoço, chapéu, botas pretas, charuto na boca, ele sorria. Pareceu-me um homem no auge do vigor físico e na plenitude da paz interior. Então repetiu a pergunta feita em 1947:

– Quem é Wainer?

– Sou eu, senador.

– E como vai o petróleo?

– Pelo que vejo, não sou eu que tenho que lhe pedir uma entrevista – brinquei – Eu é que vou ser entrevistado pelo senhor. Estou às suas ordens para dizer como vai o petróleo. Vamos conversar.

p.26-27

Esse encontro com Getúlio marca a ascensão política de Wainer, que passa a ter intimidade com o poder e revela, de maneira bastante crua, os jogos de influência, corrupção e alianças desse meio. Mas antes disso ele já era um grande jornalista. Ele encarna o ideal de todo repórter ao farejar e escrever sobre os acontecimentos importantes da sua época, como o julgamento de Nuremberg e a criação do estado de Israel. Quando descreve a fundação do jornal Última Hora – sua razão de viver – o leitor sente a adrenalina e a aventura do seu ato, que nasceu cheio de inimigos e desafiou o resto da imprensa, políticos e militares. Com o Última Hora, Wainer introduz inovações que mudaram para sempre a maneira de publicar jornal: uso de cores, fotos na primeira página, caderno de cultura, colunas sociais, seção de futebol, pontualidade na entrega às bancas, etc.

É um livro delicioso, de ritmo ágil e que o leitor devora em pouco tempo. Ele serve com o outro lado da história que lemos em Chatô, que faz muitas referências a Wainer. Serve, também, como um contraponto positivo ao que lemos em Chatô. Chateaubriand é uma figura sem dúvida marcante, mas muito desagradável e até mesmo mau; o Diários Associados é usado para fins tão torpes que terminamos a leitura completamente decepcionados com a imprensa. Em Wainer vemos um jornalista que amava sua profissão e procurou exercê-la com excelência. Mesmo quando usa de seu envolvimento com o poder, é sempre em benefício do seu jornal e não para enriquecer ou entrar para a política. Eu, que jamais havia me interessando pelo período do Estado Novo, passei a me interessar pela figura de Getúlio. Difícil vai ser encontrar um outro livro que descreva esse período de maneira tão envolvente.