Minha razão de viver, Samuel Wainer

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Minha razão de viver: memórias de um repórter é um livro para ser devorado, obrigatório para quem se interessa por jornalismo e política. Cheguei a Samuel Wainer pelas citações dele em Chatô, antigo patrão e um de seus ferrenhos inimigos, e na autobiografia de Danuza Leão, sua ex-mulher, que o descreve como um homem cosmopolita e charmoso. É uma autobiografia baseada nas fitas que o próprio Samuel gravou, com a intenção de transformá-las num livro e não teve tempo de concluir o projeto. De acordo com seu organizador, Augusto Nunes, é uma autobiografia inovadora pela sinceridade, pela maneira como descreve francamente derrotas, fraquezas e corrupções. Depois disso, o gênero da autobiografia no Brasil nunca mais poderia permanecer o mesmo, com suas visões idealizadas e unicamente elogiosas. Ao ler sobre a trajetória pública e jornalística de Samuel, concluímos que ser inovador era uma de suas marcas.

O livro já começa dando ao leitor o feito mais conhecido de Wainer: ter feito com Getúlio Vargas a entrevista definitiva que o levou de volta ao poder. Em 1947, o então senador Getúlio Vargas havia resolvido retirar-se da vida pública e se isolou em São Borja, sua cidade natal. Ele havia governado o país durante quinze anos e acusava o Congresso de tentar desmoralizá-lo. Toda imprensa estava (e continuaria a estar durante muito tempo) contra ele. Nesse exílio voluntário, se recusava a receber jornalistas. Numa viagem feita ao Rio Grande do Sul com outras finalidades, Samuel toma a iniciativa de procurar Getúlio em busca de uma entrevista. O resultado desse encontro gerou a manchete “Eu voltarei como líder das massas” que agitou o país e colocou Getúlio na presidência por voto popular nas eleições de 1950.

De repente, a porta se abriu e vi Getúlio Vargas. Parecia um genuíno boneco gaúcho, semelhante àqueles que se vendem aos forasteiros como lembrança do Rio Grande do Sul. Baixinho, bombachas azuis, uma bonita camisa xadrez, lenço no pescoço, chapéu, botas pretas, charuto na boca, ele sorria. Pareceu-me um homem no auge do vigor físico e na plenitude da paz interior. Então repetiu a pergunta feita em 1947:

– Quem é Wainer?

– Sou eu, senador.

– E como vai o petróleo?

– Pelo que vejo, não sou eu que tenho que lhe pedir uma entrevista – brinquei – Eu é que vou ser entrevistado pelo senhor. Estou às suas ordens para dizer como vai o petróleo. Vamos conversar.

p.26-27

Esse encontro com Getúlio marca a ascensão política de Wainer, que passa a ter intimidade com o poder e revela, de maneira bastante crua, os jogos de influência, corrupção e alianças desse meio. Mas antes disso ele já era um grande jornalista. Ele encarna o ideal de todo repórter ao farejar e escrever sobre os acontecimentos importantes da sua época, como o julgamento de Nuremberg e a criação do estado de Israel. Quando descreve a fundação do jornal Última Hora – sua razão de viver – o leitor sente a adrenalina e a aventura do seu ato, que nasceu cheio de inimigos e desafiou o resto da imprensa, políticos e militares. Com o Última Hora, Wainer introduz inovações que mudaram para sempre a maneira de publicar jornal: uso de cores, fotos na primeira página, caderno de cultura, colunas sociais, seção de futebol, pontualidade na entrega às bancas, etc.

É um livro delicioso, de ritmo ágil e que o leitor devora em pouco tempo. Ele serve com o outro lado da história que lemos em Chatô, que faz muitas referências a Wainer. Serve, também, como um contraponto positivo ao que lemos em Chatô. Chateaubriand é uma figura sem dúvida marcante, mas muito desagradável e até mesmo mau; o Diários Associados é usado para fins tão torpes que terminamos a leitura completamente decepcionados com a imprensa. Em Wainer vemos um jornalista que amava sua profissão e procurou exercê-la com excelência. Mesmo quando usa de seu envolvimento com o poder, é sempre em benefício do seu jornal e não para enriquecer ou entrar para a política. Eu, que jamais havia me interessando pelo período do Estado Novo, passei a me interessar pela figura de Getúlio. Difícil vai ser encontrar um outro livro que descreva esse período de maneira tão envolvente.

4 comentários em “Minha razão de viver, Samuel Wainer”

  1. Li (devorei) Chatô e pretendo ler também esta autobiografia de um dos maiores jornalistas do Brasil. Pena que organizado pela triste figura de Augusto Nunes, um dos principais pitblogueiros da imprensa golpista.

  2. Até agora eu só li um pouco da biografia desse jornalista fantástico, que foi Samuel Wainer. E fiquei interessadíssimo em saber mais sobre ele, eu que estou no primeiro ano de jornalismo, é interessantíssimo saber sobre a sua teoria jornalística.

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