O livreiro de Cabul

Compartilhe este texto:

O livreiro de Cabul é um daqueles livros que você pode presentear ou indicar sem medo. O seu amigo que não é de ler muito vai adorar as histórias curtas e acessíveis; o amigo intelectual vai aproveitar muito a cultura e as questões que o livro levanta.  No papel privilegiado de estrangeira – o que lhe permitia ficar com homens e mulheres – a autora Asne Seierstad se hospedou na casa do livreiro Sultan e teve a oportunidade de conviver intimamente com a sua família. É da família de Sultan que o livro trata, dos seus dramas cotidianos. E através dela temos acesso à cultura árabe, numa fase especialmente delicada: a queda do regime Talibã.

O grande mérito do livro é trazer a cultura muçulmana para muito perto. É um livro que modifica lentamente as opiniões do leitor. Os muçulmanos deixam de ser algo distante e se tornam Sultan, Leila, Mansur, Bibi Gul e pessoas que como quaisquer outras têm sonhos e procuram realizá-los. Alguns são egoístas e só pensam em dinheiro, outros querem experimentar o sexo, quase todos querem independência. A sua maneira de buscar esses sonhos está inserida numa cultura onde a família ocupa uma papel essencial e os hierarquiza. As relações entre homens e mulheres são cercadas de tabus, que oras os protegem e ora os fazem sofrer. Somado a tudo isso, eles vivem numa região devastada por guerras e contínuas disputas políticas.

É difícil não ficar extremamente sensibilizado com a sina feminina. A maior representante dessa sina é Leila, a tia de Sultan. Solteira, trabalha dia e noite para os parentes. Criada sob o regime talibã, mesmo quando ele é extinto não consegue se sentir bem com a liberação de certos costumes. Vemos o sofrimento de Sharifa, a primeira de Sultan, ao ser colocada de lado em prol de uma mulher mais jovem. Mesmo em Bibi Gul, considerada uma mulher de sorte por ter tido muitos filhos homens, vemos a falta de perspectiva. Qualquer contato com homens lhes suja a reputação, qualquer arbitrariedade de um parente masculino se torna uma ordem. Não é uma versão antiga e piorada dos costumes ocidentais, é diferente. Tanto que o homossexualismo é comum e visto com muita naturalidade, com líderes tribais com amantes jovens que se adornam com flores.

Mais do que a revolta com os seus costumes, o que o leitor sente é compaixão. O repúdio ao ocidente, que aparece em algumas passagens, soa muito mais como uma reclamação distante, cultivada pelo hábito e cercada de ignorância. O cenário do livro é de cidades devastadas: paredes perfuradas a bala, imóveis sem água, apartamentos sem móveis, alunos sem professores, lugares onde um dia houve e já não há mais. Mesmo Sultan que é um homem rico nos parece empobrecido. E quem é realmente pobre, como um carpinteiro, está muito pior. Tudo é feio e destruído. As cidades tentam se reerguer do regime talibã, mas suas consequencias ainda perduram na burocracia, no medo, nos costumes. O livro nos coloca claramente à favor da intervenção americana.

Akbar se diverte lendo um livro da Organização de Turismo afegã, lançado em 1967.

— “Ao longo da estrada há crianças vendendo correntes de tulipas cor-de-rosa. Na primavera, cerejeiras, abricoeiros, amendoeiras e pereiras brigam pela atenção dos viajantes. Uma paisagem florida segue de Cabul por todo o caminho.” — Eles dão risadas. Nesta primavera, a única coisa que podem ver é uma ou outra cerejeira rebelde que sobreviveu a bombas, mísseis, três anos de seca e poços envenenados. Mas será difícil encontrar um caminho sem minas para chegar às cerejas. — “A cerâmica local é uma das mais belas do Afeganistão. Dê uma parada para ver as oficinas na beira da estrada, onde os artesãos fazem travessas e vasilhas seguindo tradições seculares” —Akbar lê. (….)

— Dizem que Alexandre escreveu odes a essas montanhas, que “inspiravam a fantasia para mistérios e o descanso eterno” — Akbar lê no guia turístico. — O governo planejava uma estação de esqui nesse lugar! — ele exclama de repente, olhando para cima das encostas íngremes. — Em 1967 Assim que a estrada fosse asfaltada, diz aqui! A estrada foi asfaltada, como previu o guia, mas não sobrou muito do asfalto. E a estação de esqui ficou só nos planos.

— Seria uma descida explosiva — Akbar ri. — Ou talvez as minas pudessem exibir cartazes como “Experimente o Passeio Bombástico, o legítimo esporte radical afegão.”

Todos dão risadas. A realidade trágica às vezes parece um desenho animado ou um filme de suspense. Eles visualizam esquiadores coloridos explodindo em mil pedaços montanha abaixo.

p.100-101

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *