As cidades invisíveis

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Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção que qualquer outro de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela imensa amplitude dos territórios que conquistamos, à melancolia e ao alívio de saber que em breve desistiremos de conhecê-los e compreendê-los, uma sensação de vazio que surge ao calar da noite (….)

p. 9

Minha leitura foi mudando ao longo do Cidades Invisíveis. O fio condutor do livro são as histórias de Marco Polo a Kublai Khan, como se fosse uma espécie de Mil e uma noites. Seguem cidades de nomes femininos e lindas descrições, cinestésicas, imaginativas e coloridas daquela maneira bastante peculiar de Italo Calvino. É impossível guardar todas as descrições e tudo é tão lírico que nesse instante me pareceu que estava lendo um livro de poesias, que como tal deve ser lido entre grandes pausas para ser melhor saboreado. As descrições podem ser lidas somente pela sua lindeza, como um exercício estético. Só que num certo momento, entre uma cidade e outra e as discussões de Marco Polo e Kublai Khan, as cidades parecem mostrar algo a mais:

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus, ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma certa entrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

– Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta pergunta, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: – Você viaja para reencontrar seu futuro?

p.30-31

Tal como Kublai Khan, começamos a ver nas descrições de Marco Polo algo mais do que ele simplesmente diz. As cidades parecem indicar outras coisas. Mais: em meio às descrições fantásticas, encontramos nossa próprias cidades, nossas relações, nossa vida. Nos fios que os habitantes de uma traçam entre todos com quem se relacionam e depois mal conseguem se mover; na cidade que joga tanto lixo que ele se tornará maior do que ela; naquela que é cheia de novidades para forasteiros e tediosa para os que nela vivem; nas cidades que não podem ser conhecidas, naquelas da qual jamais se sai. Nesse instante (que é do leitor e não do livro) tudo se torna todo metafórico e até mesmo os títulos dos capítulos (memória, desejo, símbolos, delgadas, olhos, céu, contínuas, ocultas) parecem querer dizer alguma coisa.

Evitem dizer que algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si. Ás vezes, os nomes dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes, e até mesmo os traços dos rostos; mas os deuses que vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos. É inútil querer saber se estes são melhores do que os antigos, dado que não existe nenhuma relação entre eles, da mesma forma que os velhos cartões-postais não representam a Maurília do passado mas uma outra cidade que por acaso também se chamava Maurília.

p.32-33

É daqueles livros que nos fazem querer adivinhar o autor, como se ele andasse por aí soltando rimas no ar. Tudo parece fluido e muito espontaneo, o que só atesta o trabalho meticuloso que há por detrás. O leitor busca fascinado os sentidos ocultos, imagina cidades de contos de fadas, experimenta outras formas de organizar sociedades. Se sair das Cidades Invisíveis mais sábio, tanto melhor.

7 comentários em “As cidades invisíveis”

  1. Eu de fato amo esse livro. E sua resenha faz justiça a ele, pois também é composta como um porto para o sonho. Eu já reli “As Cidades Invisíveis” várias vezes, mas somente uma vez de modo linear. Na maior parte do tempo, prefiro, como você disse, ler cidade por cidade, e, acrescento, em ordem aleatória. Porém, mesmo assim, esqueço-me delas e costuma parecer que estou sempre lendo (conhecendo) a cidade pela primeira vez. Elas são, mesmo, muito apropriadas para a imaginação e o sonho.
    Eu tinha uma amiga que fazia doutorado em Urbanismo, na França, e ela contou de um curso em que a professora fez com eles realizassem maquetes de cidades partindo daquelas de Calvino. Fiquei louco para participar.
    Algo diferente ocorre com os diálogos entre Polo e o Khan, dos quais também gosto muito. Deles costumo lembrar de passagens inteiras e utilizá-las por aí. Aquela da ponte, arco e pedras é meu breviário teórico na atividade de historiador. O último parágrafo do livro é meu companheiro de reflexão política e ética desde que o li. Ao terminar “Tempos Interessantes”, de Zigmunt Bauman, fiquei encantado porque ele diz que esse parágrafo de Calvino é também muito significativo para ele pensar a ação do sujeito no mundo atual.

  2. Esse livro do Calvino faz parte de uma trilogia (além de O castelo dos destinos cruzados e Se um viajante numa noite de inverno) muito interessante chamada Combinatória. É curioso você mencionar a descrição de cada cidade como um pequeno poema, porque o próprio índice, a própria metrificação do índice indica isso, é legal também a possibilidade de ler o romance da maneira que melhor te aprouver!

    Calvino, para mim, é um dos grandes expoentes da literatura neo-realista italiana e que foi capaz de modificar sua própria literatura ao longo de sua vida, porque era, acima de tudo, um crítico. 🙂

    A minha parte preferida do romance é o final:
    “O inferno dos vivos não é algo que vai existir: se existe, já está aqui, o inferno de nossa vida cotidiana, formado pelo fato de vivermos juntos. Há duas formas de suportá-lo. A primeira é a que muitos acham fácil: aceitar o inferno e tornar-se parte dele, até não o ver mais. A segunda é arriscada e exige constante atenção e aprendizado: no meio do inferno procurar e saber reconhecer o que não é inferno, fazê-lo durar, dar-lhe espaço”.

    1. Eu não sabia que era uma trilogia! Vou atrás dos outros. Eu sabia da trilogia do Barão entre as árvores, Visconde partido ao meio e um terceiro que eu não lembro porque não li.

      Desde que comecei a ler Calvino, por indicação de uma amiga, não parei mais. Até tenho que me controlar, senão este blog vira uma longa declaração de amor aos livros dele.

      Amo, amo, amo esse filnal. 🙂

      1. O Visconde partido ao meio é genial! Foi o primeiro livro que li. O último da trilogia dos antepassados é O cavaleiro inexistente que também é incrível, se você pensar que é a história de um cavaleiro perfeito, mas que é apenas uma armadura vazia. Há um dialogo bem bacana com Orlando Furioso do Ariosto!

        A trilogia combinatória é bacana porque é quando ele se muda pra França e começa a ter contato com um grupo chamado OuLiPo que trabalha com literatura e matemática, então o ponto chave desses romances é a multiplicidade de leitura, a combinação de histórias.

        Mais pra frente o Calvino entra na fase da literatura e ciência e aí vem aquela delícia de Cosmicômicas e de T=0.

        Calvino é mesmo um grande e a ele devoto uma grande paixão! 😀

        1. Somos duas! Que bacana, conheço algumas obras dele mas não sei a cronologia delas e nem nada sobre o Ítalo – o que ainda vou sanar, fã que é fã quer saber a biografia também.

          Beijo e muito obrigada pelas informações 😉

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