Imortalidade, por Jorge Luis Borges

A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do casual. Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é um eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre incansáveis espelhos. Nada pode acontecer uma única vez, nada é preciosamente precário.

O imortal, p. 21/ O Aleph

Eu procurei essa história por toda parte, tal como o protagonista procurou o rio, desde que um professor a contou na faculdade. E saber de antemão o que aconteceria de nada diminuiu o impacto da descoberta. Sou precipitada em dizer que se for para ler uma única coisa que Borges escreveu, essa é uma excelente recomendação?

Buscas no site

Eu sei que este é um blog sério e família, mas não resisti à tentação de colocar as coisas estranhas que trouxeram leitores a este blog. Lá vai:

caminhando dura depois de da o cu – Foi difícil assim, amiga?

só me aceitou no face pra não ser desagradável – Sei como é…

sexo com homens afegãos o que eles gostam? – Adoro buscas com taras específicas.

cu fora do normal – Tenho até medo de digitar isso no google…

estimulo virtual para caminhar – Caminhe, caminhe!

é muita vadia pra pouco – Esse nem conseguiu concluir.

caminhando para velhice e vc – Eu também, fazer o quê.

mulheres dando a vivera pro cavalo zoofilia – Ai…

como limpar book do banheiro – Pra gente que gosta de ler em todos os ambientes.

www.porno.pessoas.precisano.de.money.tubos.categores – Juro que não entendi.

zoofilia guia real 2013 tioria – Credo, tem guia, igual Guia Quatro Rodas?

mobidique livro – HAHAHAHAHAHA!

como o cisne negro mata o cisne branco documentario – Violência animal.

eu não amava animais – Que triste, amigo.

“sentir prazer sem sexo” – Ler um bom livro, dançar, comer…

nen sempre acredite no que te falam pode ser mentira – Concordo plenamente.

fotos de homens com o saco de fora – ….

videos pornos de maridos que levam suas esposas para se diverti com outras mulheris e outros homeis – Hahahahaha, amei o mulheris e homeis!

videos curtos video mulher gostosa traindo marido oficina – Tem que ser curto, se for longo ele perde a paciência.

todos os alunos da sétima b do samuel wainer 2013 – Esse quer organizar uma reunião de turma.

filmes porno com gozadas de jean val jean – Isso sim é gostar de Os Miseráveis!

muheres sem caus e sem sutam – Hein?

sonhar com buraco,mulher gravida e guaiamum – Buraco, grávida e… guaiamum?

O bebedor de vinho de palmeira

Desde menino, com dez anos de idade, eu já era bebedor de vinho de palmeira. Não fazia outra coisa senão beber vinho de palmeira. Naquela época não conhecíamos outro dinheiro a não ser o cauri, de maneira que tudo era muito barato, e meu pai era o homem mais rico de nossa cidade.

Ele tinha oito filhos, e eu era o mais velho. Os outros eram trabalhadores esforçados, mas eu era apenas um perito bebedor de vinho de palmeira. Começava a beber de manhã e continuava pela noite adentro. Àquela altura já não conseguia beber água comum, mas apenas vinho de palmeira.

Quando meu pai percebeu que eu não sabia fazer outra coisa além de beber, contratou para mim um excelente vinhateiro cujo único trabalho seria preparar vinho de palmeira diariamente.

Ganhei do meu pai uma fazenda de nove milhas quadradas com quinhentas e sessenta mil palmeiras, e esse vinhateiro preparava cento e cinquenta barris pequenos cada manhã. Porém, antes das duas horas da tarde, eu já tinha bebido tudo, e por isso, ao anoitecer, ele preparava outros setenta e cinco barris, que eu bebia até o amanhecer. Quando já tinham se passado quinze anos desde que o vinhateiro começara a trabalhar para mim, meu pai morreu de repente. Numa noite de domingo, seis meses depois do falecimento do meu pai, o vinhateiro foi até a fazenda preparar vinho. Chegando lá, subiu numa das palmeiras mais altas, para fazer vinho de palmeira para mim. Mas, quando estava lá em cima, caiu inesperadamente e como resultado morreu ao pé da palmeira.

p.5-6

É assim que começa O bebedor de vinho de palmeira e seu vinhateiro morto na Cidade dos Mortos, de Amos Tutuola, o livro mais surpreendente que eu li na minha vida. A única obra com que consigo compará-lo é com A viagem de Chihiro, que é um desenho que foge de tudo o que esperamos de um desenho. Quando você acha que os latinos e Italo Calvino são literatura-fantástica, Amos Tutuola mostra que existem mais fronteiras a serem ultrapassadas. O Bebedor, de Tutuola, é um dos poucos livros africanos que conseguiram se tornar internacionais. Dá para imaginar se alguns termos e criaturas são comuns em lendas e ditos populares africanos; mas a maneira como o livro foi construído é inédita e atemporal.

Do personagem principal, o bebedor de vinho, nada sabemos a não ser sua paixão pelo tal vinho de palmeira. Não sabemos que diabos esse vinho tem para ser tão gostoso, como é possível beber tanto vinho, se ninguém achava estranho viver desse jeito, nada. A morte do vinhateiro motiva o protagonista a sair de sua aldeia e procurá-lo, porque nem pensar em viver sem o vinho de palmeira. Não sabemos seu nome – alias, no livro não sabemos o nome de quase ninguém; quando mais tarde o protagonista se identifica como um deus, não sabemos se é verdade ou não. Mesmo porque depois o bebedor se arrepende do que disse. Ele usa poderes de jujus e nunca sabemos quantos são e quais o limite desses poderes. O livro é todo assim, o autor nos explica apenas o necessário ou nem isso.

A história é a busca pelo vinhateiro. A cada etapa do caminho, acontecem coisas boas, ruins, mágicas, inesperadas, fantásticas. Tem criaturas com olhos nos joelhos, pessoas vermelhas, que usam parte do corpo emprestadas, tartarugas gigantescas, corpos gelados com pele de lixa, de poucos centímetros de altura, criaturas que de tão feias não podem nem ser descritas e centenas de outras. Em algumas circunstâncias é preciso obedecer, em outras não, o que vale para um momento já não pode ser usado no seguinte. Algumas vezes as pessoas sabem de coisas e não sabemos de onde a informação surgiu. É um livro difícil de definir, que foge de toda linearidade que estamos acostumados. A todo instante a história foge; cada vez que pensamos saber como a coisa funciona, tudo muda. Sem falar que ele é amoral. Nessa loucura toda, em nenhum momento o autor se perde ou se torna repetitivo, a história mantém suas características até a última linha. É como um daqueles filmes que não podemos nem piscar sem perder alguma coisa. Mas é um livro. O livro mais surpreendente que eu já li.

Os manuscritos do mar Morto

A passagem do mar Morto é monótona, opressiva e medonha. Completamente impessoal. Uma paisagem sem fisionomia: as formas das colinas não sugerem rostos de deuses ou de homens, nem corpos de animais deitados. “Só o monoteísmo podia resultar disso”, falou um amigo meu, que conhecia a Palestina. “Em lugar nenhum há uma brecha para uma ninfa”. A relva da primavera começa a murchar – minha visita ocorreu no início de abril – e parecia um bolor esverdeado sobre pães imensos. De um marrom amarelado e frio, uma cor escura sem a riqueza da sombra, esses montes também se assemelhavam – foi a única imagem viva que me ocorreu – às corcovas dos camelos que ali pastavam, amarelos, sem brilho, desajeitados, tendo ao seu lado a cria de um branco sujo. Um rebanho de cabras pretas salpicava uma encosta. Cá e lá, sozinha no vazio, uma beduína, acocorada e imóvel, que parece tão atenta como uma pedra, vigia um camelo ou uma cabra; e passamos por alguns poucos abrigos dos beduínos, negros e rasgados, que bem poderiam ser as velhas tendas de Abraão.

p. 44

Grande parte do que conhecemos sobre os Evangelhos são traduções de traduções, versões escritas muito depois da época de Cristo e que nos fazem adivinhar quem seria essa figura que influenciou a história de maneira definitiva. Então, descobrir fragmentos inéditos que falam de seu período histórico e lancem luzes sobre quem ele seria e que influências sofreu seria ótimo, algo a ser comemorado e acolhido por todos, certo? Errado. Em Os manuscritos do mar Morto, Edmundo Wilson mostra o impacto e as dificuldades que surgiram em decorrência de surgimento desse novo material.

O que é realmente interessante no livro é a maneira como os manuscritos incomodaram. Como Edmund Wilson diz, a ciência estava acostumada com um certo número de informações e – por mais que elas tivessem lacunas – tudo a respeito do material existente já estava escrito e as teorias formuladas. Os manuscritos foram um problema para os primeiros que reconheceram seu valor, que tiveram que lutar contra o descrédito, encontrar especialistas, enfrentar acusações de charlatanismo. Depois de reconhecidos, os manuscritos geraram disputas entre países, acadêmicas e financeiras. Os manuscritos tratam, principalmente, grupo chamado de essênios e que seriam a ponte entre o judaísmo e o futuro catolicismo; isso gerou disputas religiosas e desagradou tanto católicos quanto judeus. Até o autor, Edmundo Wilson, ao escrever as primeiras reportagens que deram origem ao livro, também acabou sendo alvo de interesses religiosos e disputas de ego.

Quem está de fora poderá perguntar aos católicos: se Cristo tinha uma identidade humana como Jesus de Nazaré, que numa época e lugar definidos, enfrentou o sistema judaico e a ocupação romana, por que seria chocante supor que Ele tivesse colhido algumas de Suas idéias teológicas dos mestres das seitas do mar Morto, hoje identificados em geral com os essênios, da mesma forma que presumivelmente aprendera carpintaria na oficina de José, ou que alguns de seus ditos e ações possam representar um repúdio a esses mestres? Um católico inteligente e culto por certo não se perturbará – pois sabe que seu Cristo apareceu em determinado momento, numa situação histórica especial – ao descobrir que certos elementos desse contexto agora se tornam mais distintos. Entretanto muitos católicos – como muitos membros de qualquer grupo religioso – não são inteligentes e cultos. Tentar preencher com mais fatos históricos o contexto humano da trajetória de Cristo equivale a correr o risco de enfraquecer a lenda que o populacho ignorante adora e não deve questionar para que a Igreja mantenha a sua autoridade.

p.119-120

Mais do que dos essênios, Os manuscritos do mar Morto conta uma história do conhecimento, da dificuldade em aceitar mudanças, dos mecanismos políticos envolvidos, do efeito duradouro que pessoas específicas têm na ciência. A primeira parte do livro trata dos momentos mais imediatos à descoberta dos manuscritos. Nas partes seguintes, com os manuscritos reconhecidos, Wilson fala do impacto que eles tiveram na vida de várias pessoas, no que foi construído em volta deles, dos limites exteriores e políticos. Além disso, visita o estado de Israel e discute religião. É um meta-livro que conquista até quem não está nem aí pra religião.

Era uma vez

Prometi pra mim mesma que pararia de falar de Ítalo Calvino aqui, mas é curtinho. Terminei o Fábulas Italianas e que experiência maravilhosa que foi. Melhor ainda só ouví-lo na infância, sendo contado pela própria mãe, como uma amiga fez com os filhos. Algumas fábulas são parecidas com outras coisas que já ouvimos por aí, com contos dos Irmãos Grimm, mas nem por isso elas perdem a sua graça. Depois de ler várias, a gente começa a notar certos padrões e isso é muito interessante. Como a punição de “vestir uma camisola de piche e atearem fogo” ou ser jogado do alto de uma torre. Fadas e diabos se parecem muito, ora fazendo o bem e ora prejudicando, mas ambos também podem ser ludibriados. Portas odeiam ranger, e são capazes de salvar a vida daqueles que se deram ao trabalho de lhe passar óleo. São Pedro aparece em algumas histórias com a parte boba e ambiciosa de Jesus, que faria todo tipo de milagres por aí. É de se pensar também a constância do filho caçula, sempre o especial, o que destoa. Mesmo quando bons, às vezes a simples presença deles atrai desgraça, e eles precisam se afastar de casa. Quando se afastam de casa, as pessoas encontram experiências fantásticas, são punidas ou favorecidas, encontram riquezas que às vezes perdem. E voltam. Mesmo quando injustiçados, eles querem os seus e os beneficiam também. Podemos pegar por outro viés, do pai que se casa de novo, e a madrasta não suporta a filha do antigo casamento. Ou até gostava, mas quando é para receber um benefício, se mostra capaz de tudo para que esse benefício vá para o seu sangue. Quando lindas donzelas e princesas são substituídas pela irmã feia ou a empregada, os reis casam com elas do mesmo jeito porque “palavra de rei não volta atrás”. São sempre nas relações consaguineas ou de casamento que estão as maiores traições, as invejas, os feitiços, os assassinatos. Há histórias em que a pessoa comete um único erro e é punida tão duramente, enquanto outras erram continuamente, fazem sempre a mesma besteira, e são beneficiadas com novas chances. Existem os que mentem tanto que acabam tornando a mentira realidade. E tem o humor. Eu gargalhei com os preguiçosos, com a caixa mágica que distribui pancadas. Ler esse livro é redescobrir outra moralidade, muito menos rígida, mais próxima da realidade do que o politicamente correto.