Era uma vez

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Prometi pra mim mesma que pararia de falar de Ítalo Calvino aqui, mas é curtinho. Terminei o Fábulas Italianas e que experiência maravilhosa que foi. Melhor ainda só ouví-lo na infância, sendo contado pela própria mãe, como uma amiga fez com os filhos. Algumas fábulas são parecidas com outras coisas que já ouvimos por aí, com contos dos Irmãos Grimm, mas nem por isso elas perdem a sua graça. Depois de ler várias, a gente começa a notar certos padrões e isso é muito interessante. Como a punição de “vestir uma camisola de piche e atearem fogo” ou ser jogado do alto de uma torre. Fadas e diabos se parecem muito, ora fazendo o bem e ora prejudicando, mas ambos também podem ser ludibriados. Portas odeiam ranger, e são capazes de salvar a vida daqueles que se deram ao trabalho de lhe passar óleo. São Pedro aparece em algumas histórias com a parte boba e ambiciosa de Jesus, que faria todo tipo de milagres por aí. É de se pensar também a constância do filho caçula, sempre o especial, o que destoa. Mesmo quando bons, às vezes a simples presença deles atrai desgraça, e eles precisam se afastar de casa. Quando se afastam de casa, as pessoas encontram experiências fantásticas, são punidas ou favorecidas, encontram riquezas que às vezes perdem. E voltam. Mesmo quando injustiçados, eles querem os seus e os beneficiam também. Podemos pegar por outro viés, do pai que se casa de novo, e a madrasta não suporta a filha do antigo casamento. Ou até gostava, mas quando é para receber um benefício, se mostra capaz de tudo para que esse benefício vá para o seu sangue. Quando lindas donzelas e princesas são substituídas pela irmã feia ou a empregada, os reis casam com elas do mesmo jeito porque “palavra de rei não volta atrás”. São sempre nas relações consaguineas ou de casamento que estão as maiores traições, as invejas, os feitiços, os assassinatos. Há histórias em que a pessoa comete um único erro e é punida tão duramente, enquanto outras erram continuamente, fazem sempre a mesma besteira, e são beneficiadas com novas chances. Existem os que mentem tanto que acabam tornando a mentira realidade. E tem o humor. Eu gargalhei com os preguiçosos, com a caixa mágica que distribui pancadas. Ler esse livro é redescobrir outra moralidade, muito menos rígida, mais próxima da realidade do que o politicamente correto.

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