O bebedor de vinho de palmeira

Desde menino, com dez anos de idade, eu já era bebedor de vinho de palmeira. Não fazia outra coisa senão beber vinho de palmeira. Naquela época não conhecíamos outro dinheiro a não ser o cauri, de maneira que tudo era muito barato, e meu pai era o homem mais rico de nossa cidade.

Ele tinha oito filhos, e eu era o mais velho. Os outros eram trabalhadores esforçados, mas eu era apenas um perito bebedor de vinho de palmeira. Começava a beber de manhã e continuava pela noite adentro. Àquela altura já não conseguia beber água comum, mas apenas vinho de palmeira.

Quando meu pai percebeu que eu não sabia fazer outra coisa além de beber, contratou para mim um excelente vinhateiro cujo único trabalho seria preparar vinho de palmeira diariamente.

Ganhei do meu pai uma fazenda de nove milhas quadradas com quinhentas e sessenta mil palmeiras, e esse vinhateiro preparava cento e cinquenta barris pequenos cada manhã. Porém, antes das duas horas da tarde, eu já tinha bebido tudo, e por isso, ao anoitecer, ele preparava outros setenta e cinco barris, que eu bebia até o amanhecer. Quando já tinham se passado quinze anos desde que o vinhateiro começara a trabalhar para mim, meu pai morreu de repente. Numa noite de domingo, seis meses depois do falecimento do meu pai, o vinhateiro foi até a fazenda preparar vinho. Chegando lá, subiu numa das palmeiras mais altas, para fazer vinho de palmeira para mim. Mas, quando estava lá em cima, caiu inesperadamente e como resultado morreu ao pé da palmeira.

p.5-6

É assim que começa O bebedor de vinho de palmeira e seu vinhateiro morto na Cidade dos Mortos, de Amos Tutuola, o livro mais surpreendente que eu li na minha vida. A única obra com que consigo compará-lo é com A viagem de Chihiro, que é um desenho que foge de tudo o que esperamos de um desenho. Quando você acha que os latinos e Italo Calvino são literatura-fantástica, Amos Tutuola mostra que existem mais fronteiras a serem ultrapassadas. O Bebedor, de Tutuola, é um dos poucos livros africanos que conseguiram se tornar internacionais. Dá para imaginar se alguns termos e criaturas são comuns em lendas e ditos populares africanos; mas a maneira como o livro foi construído é inédita e atemporal.

Do personagem principal, o bebedor de vinho, nada sabemos a não ser sua paixão pelo tal vinho de palmeira. Não sabemos que diabos esse vinho tem para ser tão gostoso, como é possível beber tanto vinho, se ninguém achava estranho viver desse jeito, nada. A morte do vinhateiro motiva o protagonista a sair de sua aldeia e procurá-lo, porque nem pensar em viver sem o vinho de palmeira. Não sabemos seu nome – alias, no livro não sabemos o nome de quase ninguém; quando mais tarde o protagonista se identifica como um deus, não sabemos se é verdade ou não. Mesmo porque depois o bebedor se arrepende do que disse. Ele usa poderes de jujus e nunca sabemos quantos são e quais o limite desses poderes. O livro é todo assim, o autor nos explica apenas o necessário ou nem isso.

A história é a busca pelo vinhateiro. A cada etapa do caminho, acontecem coisas boas, ruins, mágicas, inesperadas, fantásticas. Tem criaturas com olhos nos joelhos, pessoas vermelhas, que usam parte do corpo emprestadas, tartarugas gigantescas, corpos gelados com pele de lixa, de poucos centímetros de altura, criaturas que de tão feias não podem nem ser descritas e centenas de outras. Em algumas circunstâncias é preciso obedecer, em outras não, o que vale para um momento já não pode ser usado no seguinte. Algumas vezes as pessoas sabem de coisas e não sabemos de onde a informação surgiu. É um livro difícil de definir, que foge de toda linearidade que estamos acostumados. A todo instante a história foge; cada vez que pensamos saber como a coisa funciona, tudo muda. Sem falar que ele é amoral. Nessa loucura toda, em nenhum momento o autor se perde ou se torna repetitivo, a história mantém suas características até a última linha. É como um daqueles filmes que não podemos nem piscar sem perder alguma coisa. Mas é um livro. O livro mais surpreendente que eu já li.

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2 ideias sobre “O bebedor de vinho de palmeira

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