O problema da fé, meu e de Barrabás

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Eu não fui batizada, mas durante um certo período da minha vida, tentei ser católica. Rezava terço, tentava ir à missa com frequencia, tinha os meus santos. Eu tentava com sinceridade e ainda assim sentia a minha fé oscilar. Alguns momentos tudo parecia fazer sentido, Deus estava comigo e eu me sentia tocada; em outros, estava totalmente só, repetindo palavras sem sentido para ninguém. Um dia, numa missa, ouvi o padre falar que “a Fé é um Dom Divino”, e não pude deixar de soltar um suspiro de alívio – que bom, então a culpa não é minha! Ele é que não havia me dado Dom o suficiente. Porque eu não conseguia ser constante na minha crença. Mais: a cada dia, minha hostilidade contra a religiões se fazia mais forte e pouco a pouco abri mão de todos esses rituais.

Por outro lado, também quis jogar todas as minhas crenças no lixo e me declarar atéia. Depois de ter vivido um período intensamente místico e crente, apostando todas as minhas fichas nisso, fui para a direção oposta e declarei que tudo era bobagem e historicamente construído. Dei as costas a tudo o que li, todo o material que tinha, todas as reflexões. Foi um desapego extremo, que só quem já viveu um apego extremo quem já viveu um apego extremo é capaz (e vice-versa). Até que durou. Só que comecei a ser assaltada por sensações estranhas e intuições, coisas que me faziam crer que havia uma ordem no mundo. Em alguns momentos, tudo parecia se encaixar, todo o mal parecia ter sua lição e nada me parecia em vão. Era a fé querendo voltar. E assim tenho vivido até hoje, numa mistura de fé e ceticismo totalmente incoerentes.

A boa literatura tem o dom de nos tirar da solidão dos sentimentos mais diversos e inconfessáveis. O único motivo que me fez buscar Barrabás foi o fato de ter sido escrito por Pär Lagerkvist. A excelente impressão que me causou O anão, me fez querer ver como um autor excelente atuaria sobre outro livro. O tema – um livro sobre o que aconteceu depois àquele que não foi crucificado no lugar de Jesus – me causava antipatia. De certa forma temos uma idéia pré-concebida de que Barrabás acabou se convertendo, por mais que não exista nenhum registro a respeito da vida dele. Cremos que é impossível que não tenha acontecido – ele esteve perto de Jesus, viveu o nascimento do Cristianismo. Mas Pär Lagerkvist é meu amigo, é igual a mim, é um abandonado pelo Dom da Fé constante. O início da trama descreve o encontro de Barrabás e Jesus e nos permite adivinhar o tom do livro:

Mas, desde que o vira pela primeira vez, no pátio do pretório, sentia haver algo de extraordinário nele. Não sabia bem o que era, apenas o sentia. Parecia-lhe nunca ter visto um homem assim. Deve ter sido porque acabava de sair diretamente do cárcere, e seus olhos ainda não estavam acostumados à claridade, mas vira-o, no primeiro momento, rodeado de uma brilhante auréola de luz. Pouco depois, porém, o brilho havia desaparecido; seus olhos voltaram ao normal, viam tudo nitidamente, não apenas o homem solitário no pátio do palácio.

Barrabás/ capítulo I

Barrabás vê uma auréola, mas também a explica como simples ofuscamento. Em nenhum momento o autor conclui que Jesus era mesmo o Filho de Deus. Pelos olhos do cético Barrabás, vemos pessoas que se converteram e estão dispostas a morrer por isso. Acompanhamos a força da lembrança de Jesus, mas vemos também a ignorância sobre ele, a falta de organização e coerência no que se diz sobre ele (afinal, as informações eram pouco mais do que boatos), os equívocos e as decepções. Lemos e sentimos pena por aqueles que esperavam o reino de Deus no terceiro dia após a crucificação, ou para dali a alguns dias – estamos mais de dois mil anos no futuro e sabemos o que não acontece. Em fatos isolados para o próprio Barrabás, a fé em Jesus parece ser promissora e melhorar a vida dos que crêem, mas também pode ser coincidência. Barrabás a todo momento esbarra na fé a e busca, mergulha nela e emerge. E a sempre dúvida ressurge, resistente e pragmática como o próprio Barrabás.

Barrabás é um livro triste. Dizem que a falta de Deus é uma coisa triste, e tendo a concordar que talvez seja. A falta de fé, a incapacidade de se entregar e deixar de se basear nos fatos é mesmo triste. Ela nos faz duros e responsáveis. A questão não é encontrar Jesus, seja pessoal ou simbolicamente; a falta de fé é um sentido profundo de vida, um reconhecimento da solidão que nunca nos abandona. Eu me senti muito próxima a Barrabás e Pär Lagerkvist ao ler esse livro. Eu também tenho minhas oscilações, também gostaria de ser cem por cento (atéia ou crente) e não consigo.

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5 comentários em “O problema da fé, meu e de Barrabás”

  1. Oi Pessoal

    Muitos acreditam na doutrina da predestinação.
    Entre outras coisas essa doutrina diz que o homem só vem a Deus se for por ele chamado.
    Ela é verdadeira, mas com um porém…
    Deus chama a todos, como podemos ver nos textos a seguir…(Os grifos no texto são meus.)

    Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
    João 3:16
    E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.

    1 João 2:2

    Em Mateus 13 1-58, na parábola do semeador, Cristo explica isso com clareza…
    A semente é a palavra do evangelho, o campo é o mundo, e o solo é o coração do homem.
    Dependendo do solo onde ela cai, a semente brota, cresce e dá frutos. Ou… Seca e morre.
    Por nascermos num mundo já corrompido, recebemos milhões de mensagens erradas todos os dias, e vamos desenvolvendo argumentos falsos contra a palavra de Deus até que um dia o solo do nosso coração se transforma em pedra e a semente se torna incapaz de brotar.
    Mas pra Deus tudo é possível…

    E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne;Ezequiel 11:19

    Mas pra isso é preciso deixarmos o Espírito de Deus entrar em nossos corações…

    Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.Apocalipse 3:20

    Repare que o Espírito de Deus não arromba a porta, e nem entra escondido.
    Apenas se a pessoa abrir a porta ele entra. Ele bate e chama, mas nunca entra a força.
    Deixar que Deus entre em nossos corações não significa que somos responsável pela nossa salvação de maneira nenhuma, significa apenas que somos humildes o suficiente pra admitirmos que sem Ele estamos perdidos.
    Por muito tempo eu acreditei numa interpretação da doutrina da predestinação que hoje considero errada.
    Nem mesmo quando eu tive câncer me voltei pra Deus.
    Achava que quando ele quisesse me chamaria, e se eu não fosse chamado é por que Deus não queria.
    Até que um dia meu amigo Alessandro me explicou que atender o chamado era responsabilidade minha.
    Foi quando eu percebi que já tinha sido chamado milhões de vezes mas nunca tinha atendido a Deus.
    Então passei a estudar a Bíblia…
    Lendo os dez mandamentos vi que não havia nada ali que eu discordasse, se todos seguissem aquelas leis não existiria nenhum crime no mundo.
    Então entendi que aquelas leis não são por que Deus gosta de mandar, mas apenas por que ele é um Deus amoroso e quer que a gente viva num mundo justo e bom, as leis são para o nosso bem estar.
    Mas ele não pode obrigar as pessoas a seguirem as leis se elas não quiserem.
    Isso não teria nenhum valor moral para Ele.
    Ele quer que a gente compreenda nos nossos corações o porquê dessas leis e as siga livremente. Por amor a Ele e ao próximo.

    Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo.

    João 7:17

    Abs.
    Demian

  2. O mundo sem Deus é triste? Sei não, Caminhante. Isso me aprece apenas propaganda de religiosos. Conheço muitos crentes tristes (ou desesperados) e conheço muitos ateus alegres, começando por mim mesmo e meu avô materno. Pode ser raro, mas há gente alegre – e a alegria dela não depende nem de fé nem de remédios tarja preta. Se biologia não é destino, bateu na trave.

    1. Escrevi o texto imediatamente após a leitura do livro, que passa essa impressão de tristeza. Pegando pelo recorte de Barrabás, de um homem que quer a todo custo crer e não consegue, a vida sem Deus se torna muito triste. Mas é claro que é apenas um recorte e uma maneira tendenciosa de colocar a questão. É um problema aumentado, e todo problema aumentado é… aumentado. Às vezes a gente crê, depois descrê, mas também toma um expresso delicioso no meio da tarde e nenhuma questão parece necessária…
      Sobre ser feliz, também não acho que os crentes estejam tão melhores.

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