Slavoj Žižek fala sobre cinema (e outras coisas mais)

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Logo no início do video, Žižek faz uma análise original e imperdível sobre Hitchcock a linguagem do cinema. Depois a entrevista avança sobre outros temas (e continua muito interessante).

Às vezes uma coisa leva à outra, e se você ficou com vontade de ver mais de Žižek, pode ver na íntegra a entrevista que ele deu ao programa  Roda Viva, em 2009.

Vergonha

Há trechos belíssimos no romance Vergonha. Alguns por resumirem a trajetória dos personagens em poucas frases poéticas, outros por serem de grande sensibilidade. A cultura muçulmana e oriental aparece ora como exótica, ora como muito próxima; ela remete o leitor a uma sensação de pertencimento mesmo àquilo que nunca viu. Ao escolher a vergonha como tema, e pela maneira como a descreve, Salman Rushdie nos convence da importância desse sentimento, na força cultural que existe por detrás dele e na armadilha infeliz que ele prende todos seus envolvidos. O trecho a seguir, para mim, resume o conceito de cultura de uma forma extraordinária. A cultura é mais do que trajes, preferências ou uma escolha – ela determina nossa maneira de reagir e torna inevitáveis comportamentos que podem ir contra o nosso próprio bem estar. Mesmo que comumente coloque a mulher numa posição de vítima – quem sabe pudéssemos afirmar que ao homem cabe a honra e à mulher sua contrapartida, a desonra – a cultura enquanto vergonha atinge homens e mulheres de forma dolorosamente complementar.

Não muito tempo atrás, no East End em Londres, um pai paquitanês matou sua única filha porque, ao fazer amor com um rapaz branco, ela atraíra tamanha desonra para sua família que só o seu sangue poderia lavar a mancha. A tragédia foi intensificada pelo enorme e evidente amor pela filha abatida e pela cerrada relutância de seus amigos e parentes (todos “asiáticos” para usar o termo confuso destes dias difíceis) em condenar sua ação. Entristecidos, eles disseram aos microfones das rádios e às câmeras de televisão que compreendiam o ponto de vista do homem e continuavam a apoiá-lo mesmo quando se soube que a garota não tinha “ido até o fim” com seu namorado. A história me horrorizou quando a ouvi, horrorizou-me de um jeito bastante óbvio. Eu recentemente havia me tornado pai e portanto acabara de ser capaz de avaliar quão colossal tem de ser a força necessária para fazer um homem voltar uma faca contra sua própria carne e sangue. Mas ainda mais horrorizado fiquei ao me dar conta de que, como aqueles amigos entrevistados etc., eu também me descobri entendendo o assassino. A notícia não me pareceu alheia. Nós que crescemos numa dieta de honra e vergonha ainda somos capazes de captar o que deve parecer impensável para pessoas que vivem pós-morte de Deus e da Tragédia: que homens sacrifiquem seu mais querido amor no implacável altar de seu orgulho. (E não só homens. Depois ouvi falar de um caso em que uma mulher cometeu um crime idêntico por idênticas razões.) Entre a vergonha e a falta de vergonha há um eixo em torno da qual nós giramos; as condições metereológicas nesses dois pólos são do tipo mais extremo e feroz. Falta de vergonha, vergonha: as raízes da violência.

p. 147-148

Por esses motivos, adoraria derramar elogios sobre o livro, que se propõe a muitas coisas: trechos confessionais e biográficos, formação do Estado do Paquistão, história de duas famílias destinadas a desgraçarem-se mutuamente, heróis atípicos. A narrativa vai e volta constantemente, antecipando o que está por vir, misturando as histórias reais e fantásticas e discutindo questões culturais. Mas o resultado de tudo isso é confuso e truncado durante quase todo o livro. Seja pela falta de intimidade com os nomes ou pelo total desconhecimento da questão paquistanesa, pra mim a leitura levou muito tempo para engrenar. Apenas depois da página 150 o autor diz – agora cheguei na personagem e na história que eu quero contar. Quem procurar o resumo da contracapa do livro, lerá sobre o que acontece a partir daí. Ou seja, o leitor tem que enfrentar heroicamente uma introdução de mais de cem páginas… Coincidência ou não, é depois desse momento que ele o livro se torna devorável. Adorei os trechos, as histórias, os contrastes; só que para um livro que se propunha a apresentar o nascimento de um Estado, eu continuei ignorante.

Mão naquilo

Eu geralmente me abstenho de discutir um assunto quando ele já é tratado por muita gente e com muita propriedade. É o caso da última polêmica, do caso Gerald Thomas e Nicole Bahls. Para mim, a foto já era agressiva por si só. Comentários de internet têm a capacidade de nos deprimir em qualquer assunto, e nesse caso não foi diferente. Era brincadeira, ela gostou, quem mandou ir de vestido curto (argumento do próprio Gerald Thomas), o Pânico merecia, Gerald foi um gênio e agiu “fora da caixa”, etc. Eu sou mulher e vi aquela foto como uma mulher, pensei no que seria se um homem que nunca vi na vida, que não desejo, colocasse a mão em mim daquela forma na frente de uma platéia que não me defendesse. Não consigo deixar de achar que ela se sentiu extremamente humilhada. É uma humilhação que talvez apenas outra mulher possa entender.

Como explicar esse pudor a um homem? Eu poderia dizer “imagine se uma velha nojenta…” ou “imagine se um homem…” e não seria a mesma coisa. A relação que um homem tem com o seu sexo, com o seu pênis, é totalmente diferente. Anatômica e culturalmente falando, o pênis sempre foi algo exposto. Ele é mostrado orgulhosamente, ele é medido, ele recebe apelidos, ele é simbolizado em gestos obscenos, ele se confunde com seu próprio dono. Enquanto até a palavra pênis é dita com naturalidade, hesito até em escolher um termo para falar da mulher: xoxota, buceta, vagina? Cada termo tem uma carga, soa de maneira estranha, tende a algo libidinoso. A mulher aprende a se esconder, a não tocar e nem pensar no assunto, a nem saber como ela é embaixo, a corar com qualquer referência a tamanho ou formato. Penso em quantas mulheres têm câncer de colo de útero, uma doença que leva muito tempo para se desenvolver, por causa do tabu de fazer um exame simples como o papanicolau. O que entra, como entra, quando entra – o valor de uma mulher sempre foi medido (hoje menos, esperamos que no futuro menos ainda) pela quantidade de homens que podem ter acesso a sua vagina. E sabemos que é um valor negativo: quanto menos acesso, mais valorosa a mulher é. O maior ícone dessa idéia é a Virgem Maria.

Se ambas mostram mulheres nuas, porque dizemos que a Playboy tem um “nível melhor” do que a Sexy? A revista Sexy é mais escancarada, mais pornográfica, ela faz o que chamamos de “closes ginecológicos”. Com closes vaginais, não é mais possível dizer que um ensaio nu é artístico, porque a vagina é a diferença entre o artístico e o pornográfico, o sugerido e o escancarado. Ou seja, mostrar uma vagina é tão desejado quanto proibido, é de uma sexualidade indisfarçável e por isso mesmo “de baixo nível”. A nudez feminina se faz ainda mais nua quando uma mulher permite o acesso à sua vagina, porque a vagina é a última fronteira da sua sexualidade. Do lado oposto ao da Virgem Maria, que de tão santa é intocada, está a puta, aquela que não tem mais qualquer intimidade, qualquer moralidade, aquela que tem uma vagina pública.

A vagina é o canto mais reservado, ela é de uma intimidade que não há correlação em um homem, porque o homem é público. Pensemos nas dicotomias apontadas por Bourdieu em A dominação masculina: o homem é público, exterior, visível, agressivo; a mulher pertence à esfera do íntimo, privado, invisível, dócil. Quando saem da esfera do privado, a mulher e a sua vagina deixam de pertencer ao papel que lhes é reservado, o que tampouco faz com que sejam reconhecidas como masculinas. Elas se tornam putas, aquelas figuras desprezadas por homens e mulheres. Uma mulher que tem uma vagina que pode ser manipulada em público, sem que ninguém a defenda, é uma mulher sem o menor valor, é uma mulher sem direito à intimidade.

Muitos consideram o ato de Gerald Thomas justo quando pensamos nos abusos que o Programa Pânico têm cometido ao longo dos anos. Pode ser que eles realmente mereçam o troco, mas é uma pena que esse troco seja dado justamente no elo mais fraco do programa: numa Panicat. As Panicats que ganham pouco, que têm fama de prostitutas, que são escolhidas unicamente pela estética. São mulheres que precisam ficar rebolando de biquíni sem abrir a boca, que podem ser humilhadas dentro do próprio programa, que são pressionadas a esculpir o corpo e depois são facilmente demitidas porque não têm carisma ou estão masculinas demais. O mesmo programa que comprou imediatamente uma briga quando Netinho de Paula deu um soco no repórter Vesgo, deu risada e disse que não foi nada demais quando abusam de uma Panicat. Em outras palavras, era apenas uma panicat, uma mulher, uma gostosa que rebola pra gente. Essas coisas me fazem pensar que mulheres e vaginas ainda são, para muitos, apenas coisas a serem violadas num feliz mundo falocêntrico.

A pista de gelo

Eu o vi pela primeira vez na rua Bucareli, na Cidade do México, isto é, na adolescência, na zona indistinta e vacilante que pertencia aos poetas de ferro, numa noite carregada de neblina que obrigava os carros a trafegar com lentidão e que predispunha os pedestres a comentar, com regozijada estranheza, o fenômeno brumoso, tão incomum naquelas noites mexicanas, pelo menos até onde me lembro. Antes de ser apresentado a ele, na porta do café La Habana, ouvi sua voz, profunda, como de veludo, a única coisa que não mudou com o passar dos anos. Falou: é uma noite sob medida para o Jack. Referia-se a Jack, o Estripador, mas sua voz soou evocativa de terras sem lei, onde qualquer coisa seria possível. Éramos todos adolescentes, adolescentes cheios de energia, isso sim, e poetas, e ríamos. O desconhecido chamava-se Gaspar Heredia, Gasparín para os amigos e inimigos gratuitos, mas lembro-me da neblina por baixo da porta giratória e dos destinos que iam e vinham. Mal se vislumbravam os rostos e as luzes, e a gente envolta naquela echarpe parecia enérgica e ignorante, fragmentada e inocente, como realmente éramos. Agora estamos a milhares de quilômetros do café La Habana, e a neblina, feita sob medida para Jack, o Estripador, é mais densa do que então. Da rua Bucareli, na Cidade do México, ao assassinato! pensarão… O propósito desse relato é tentar persuadí-los do contrário…

p.7-8

Eu não gosto das orelhas de livro que as Companhia das Letras colocam nos livros de Bolaño. Elas colocam os pontos nos iis. No A pista de gelo, a orelha contém um breve resumo de quem são os três narradores e personagens principais da história – Remo Morán, Gaspar Heredia e Enric Rosquelles. Só que o que não seria nada demais em outros autores, entrega e estraga grande parte do prazer da leitura de um Bolaño. Uma das graças dos seus livros é o trabalho de reconstrução das histórias, que nos são entregues aos poucos, no meio de muitas outras histórias, numa imaginação que não parece ter fim. A estrutura do livro é simples: no primeiro capítulo, que transcrevi acima, sabemos que há um assassinato. A cada capítulo, um dos narradores fala um pouco de si. Levamos o livro inteiro acompanhando essas histórias, que avançam devagar, e pouco a pouco mostram que acontecimentos levaram os três personagens ao fato. Nem ao menos sabemos quem será assassinado. Mais: o assassinato, em si, acaba tendo pouca importância. Ou seja, não é um romance policial, não no sentido clássico.

A pista de gelo é o primeiro romance de Bolaño. A estrutura é toda redondinha, fácil de entender; em alguns momentos, desejei que ele ousasse mais e não fosse tão fiel na alternância das vozes e tamanho dos capítulos. Mas é um livro muito bem amarrado, onde já é possível sentir a riqueza das histórias e a fluidez da escrita, características tão fortes em Bolaño.