A pista de gelo

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Eu o vi pela primeira vez na rua Bucareli, na Cidade do México, isto é, na adolescência, na zona indistinta e vacilante que pertencia aos poetas de ferro, numa noite carregada de neblina que obrigava os carros a trafegar com lentidão e que predispunha os pedestres a comentar, com regozijada estranheza, o fenômeno brumoso, tão incomum naquelas noites mexicanas, pelo menos até onde me lembro. Antes de ser apresentado a ele, na porta do café La Habana, ouvi sua voz, profunda, como de veludo, a única coisa que não mudou com o passar dos anos. Falou: é uma noite sob medida para o Jack. Referia-se a Jack, o Estripador, mas sua voz soou evocativa de terras sem lei, onde qualquer coisa seria possível. Éramos todos adolescentes, adolescentes cheios de energia, isso sim, e poetas, e ríamos. O desconhecido chamava-se Gaspar Heredia, Gasparín para os amigos e inimigos gratuitos, mas lembro-me da neblina por baixo da porta giratória e dos destinos que iam e vinham. Mal se vislumbravam os rostos e as luzes, e a gente envolta naquela echarpe parecia enérgica e ignorante, fragmentada e inocente, como realmente éramos. Agora estamos a milhares de quilômetros do café La Habana, e a neblina, feita sob medida para Jack, o Estripador, é mais densa do que então. Da rua Bucareli, na Cidade do México, ao assassinato! pensarão… O propósito desse relato é tentar persuadí-los do contrário…

p.7-8

Eu não gosto das orelhas de livro que as Companhia das Letras colocam nos livros de Bolaño. Elas colocam os pontos nos iis. No A pista de gelo, a orelha contém um breve resumo de quem são os três narradores e personagens principais da história – Remo Morán, Gaspar Heredia e Enric Rosquelles. Só que o que não seria nada demais em outros autores, entrega e estraga grande parte do prazer da leitura de um Bolaño. Uma das graças dos seus livros é o trabalho de reconstrução das histórias, que nos são entregues aos poucos, no meio de muitas outras histórias, numa imaginação que não parece ter fim. A estrutura do livro é simples: no primeiro capítulo, que transcrevi acima, sabemos que há um assassinato. A cada capítulo, um dos narradores fala um pouco de si. Levamos o livro inteiro acompanhando essas histórias, que avançam devagar, e pouco a pouco mostram que acontecimentos levaram os três personagens ao fato. Nem ao menos sabemos quem será assassinado. Mais: o assassinato, em si, acaba tendo pouca importância. Ou seja, não é um romance policial, não no sentido clássico.

A pista de gelo é o primeiro romance de Bolaño. A estrutura é toda redondinha, fácil de entender; em alguns momentos, desejei que ele ousasse mais e não fosse tão fiel na alternância das vozes e tamanho dos capítulos. Mas é um livro muito bem amarrado, onde já é possível sentir a riqueza das histórias e a fluidez da escrita, características tão fortes em Bolaño.

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