Vergonha

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Há trechos belíssimos no romance Vergonha. Alguns por resumirem a trajetória dos personagens em poucas frases poéticas, outros por serem de grande sensibilidade. A cultura muçulmana e oriental aparece ora como exótica, ora como muito próxima; ela remete o leitor a uma sensação de pertencimento mesmo àquilo que nunca viu. Ao escolher a vergonha como tema, e pela maneira como a descreve, Salman Rushdie nos convence da importância desse sentimento, na força cultural que existe por detrás dele e na armadilha infeliz que ele prende todos seus envolvidos. O trecho a seguir, para mim, resume o conceito de cultura de uma forma extraordinária. A cultura é mais do que trajes, preferências ou uma escolha – ela determina nossa maneira de reagir e torna inevitáveis comportamentos que podem ir contra o nosso próprio bem estar. Mesmo que comumente coloque a mulher numa posição de vítima – quem sabe pudéssemos afirmar que ao homem cabe a honra e à mulher sua contrapartida, a desonra – a cultura enquanto vergonha atinge homens e mulheres de forma dolorosamente complementar.

Não muito tempo atrás, no East End em Londres, um pai paquitanês matou sua única filha porque, ao fazer amor com um rapaz branco, ela atraíra tamanha desonra para sua família que só o seu sangue poderia lavar a mancha. A tragédia foi intensificada pelo enorme e evidente amor pela filha abatida e pela cerrada relutância de seus amigos e parentes (todos “asiáticos” para usar o termo confuso destes dias difíceis) em condenar sua ação. Entristecidos, eles disseram aos microfones das rádios e às câmeras de televisão que compreendiam o ponto de vista do homem e continuavam a apoiá-lo mesmo quando se soube que a garota não tinha “ido até o fim” com seu namorado. A história me horrorizou quando a ouvi, horrorizou-me de um jeito bastante óbvio. Eu recentemente havia me tornado pai e portanto acabara de ser capaz de avaliar quão colossal tem de ser a força necessária para fazer um homem voltar uma faca contra sua própria carne e sangue. Mas ainda mais horrorizado fiquei ao me dar conta de que, como aqueles amigos entrevistados etc., eu também me descobri entendendo o assassino. A notícia não me pareceu alheia. Nós que crescemos numa dieta de honra e vergonha ainda somos capazes de captar o que deve parecer impensável para pessoas que vivem pós-morte de Deus e da Tragédia: que homens sacrifiquem seu mais querido amor no implacável altar de seu orgulho. (E não só homens. Depois ouvi falar de um caso em que uma mulher cometeu um crime idêntico por idênticas razões.) Entre a vergonha e a falta de vergonha há um eixo em torno da qual nós giramos; as condições metereológicas nesses dois pólos são do tipo mais extremo e feroz. Falta de vergonha, vergonha: as raízes da violência.

p. 147-148

Por esses motivos, adoraria derramar elogios sobre o livro, que se propõe a muitas coisas: trechos confessionais e biográficos, formação do Estado do Paquistão, história de duas famílias destinadas a desgraçarem-se mutuamente, heróis atípicos. A narrativa vai e volta constantemente, antecipando o que está por vir, misturando as histórias reais e fantásticas e discutindo questões culturais. Mas o resultado de tudo isso é confuso e truncado durante quase todo o livro. Seja pela falta de intimidade com os nomes ou pelo total desconhecimento da questão paquistanesa, pra mim a leitura levou muito tempo para engrenar. Apenas depois da página 150 o autor diz – agora cheguei na personagem e na história que eu quero contar. Quem procurar o resumo da contracapa do livro, lerá sobre o que acontece a partir daí. Ou seja, o leitor tem que enfrentar heroicamente uma introdução de mais de cem páginas… Coincidência ou não, é depois desse momento que ele o livro se torna devorável. Adorei os trechos, as histórias, os contrastes; só que para um livro que se propunha a apresentar o nascimento de um Estado, eu continuei ignorante.

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