Masculino e feminino em Arya e Sansa Stark

(Contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Game of Thrones)

Duvido que exista alguém que acompanhe ou leia Game of Thrones e goste mais de Sansa do que de Arya Stark. As duas filhas de Eddard Stark se mostram diferentes logo nas primeiras páginas: Sansa é bonita, borda bem, gosta de contos de cavalarias e de ser agradável; Arya é indomável, inábil em trabalhos manuais e gostaria de ela mesma ser um cavaleiro. Enquanto uma sonha em ser princesa, a outra rejeita a idéia de casar; uma gosta do luxo e do conforto enquanto a outra quer explorar o mundo. O desejo de ambas é atendido quando Eddard Stark morre pouco antes de fugir do castelo com as filhas. Sansa fica e Arya foge. Ao fugir, por razões de segurança, Arya passa a fingir que é um menino – confusão que ela já causava antes, por causa de suas atitudes. O destino que elas seguem mostram as dificuldades e as diferenças dos caminhos esperados por homens e mulheres.

Arya, agora chamada de Arryn, passa a estar sempre em movimento. Logo ao abandonar o castelo, fica pelas ruas e assiste, da praça, a morte do seu pai. Yoren tenta protegê-la levando-a para Muralha, mas morre ao ser atacado por uma patrulha de Lannisters. A partir daí ela toma papel ainda mais ativo na sua fuga, e passa a proteger mais do que ser protegida. Ela lidera Torta Quente e Gendry (o bastardo do rei Robert) na fuga de Harrenhal, toma sozinha a decisão sobre as três mortes que Jaqen H’ghar lhe oferece, tenta a todo custo ir a Correrrio, é capturada, tenta fugir de novo… Ela demonstra a força, a coragem e o destemor que associamos aos homens e só consegue fazer tudo isso porque se coloca como homem. No papel de menino, sofre, apanha, passa fome. Mesmo quando descoberta, é assim que ela tenta ser vista pelos que estão ao seu redor e volta para esse papel masculino sempre que pode. Ser mulher nos contextos violentos que ela foi colocada significava duas coisas: ser estuprada ou ser capturada.

Enquanto o masculino é associado ao exterior, ao movimento e ao dia (A dominação masculina, Bourdieu), Sansa cumpre bem seu papel feminino de dentro, imóvel, escondido. Ela é guardada na corte, representa uma valiosa moeda de troca quando a guerra começa. Sua proteção é também sua prisão, serve mais aos outros do que a si mesma.  Sansa é quem se ajoelha e pede para Joffrey poupar a vida de seu pai. Nesse momento e em outros, ela deposita sobre os homens todo poder de decisão sobre seu destino. Suas expectativas e seu amor são frustrados quando Joffrey faz com que seu pai executado na sua frente. O impacto da morte de Eddard é ruim para suas duas filhas, mas de maneiras totalmente diferentes. Para Arya, o mundo; em Sansa, uma mudança interna. Ela continua noiva de Joffrey, só que já não o suporta. No seu sadismo, Joffrey faz questão de ter Sansa por perto, de fazê-la sofrer e jamais poder demonstrar sua insatisfação. Ela apanha e precisa cobrir seus hematomas, assumindo para si a vergonha de apanhar. Por fora, Sansa vive no melhor dos mundos – prometida do rei, dorme em camas confortáveis, vive num castelo, é bela. Só que o preço a pagar é ser impedida de buscar o que quer, vigiar seu comportamento e suas palavras constantemente. Qualquer passo em falso e ela pode perder o pouco que tem. É uma maneira silenciosa e difícil se ser forte. É uma maneira feminina.

A trajetória de Sansa me lembra uma das histórias do livro Os cisnes selvagens: três filhas da China. A primeira mulher retratada nesse livro ascende socialmente ao se tornar concubina de um homem importante, que a instala numa confortável casa em outra cidade. Durante toda união, ele foi visitá-la apenas duas vezes. Esse homem não lhe devia qualquer explicação, apenas o sustento. Então, enquanto ele decidia se a visitava ou não, ela tinha obrigação de ficar esperando. Apenas esperar, deve ser fácil, é o que se pensa. Mas esse esperar implicava ficar trancada em casa e manter toda a compostura de uma mulher comprometida. A casa onde ela vivia era cheia de empregados. A reputação da mulher sozinha em casa era tão frágil e os empregados tão poderosos, que bastava que eles espalhassem ou mentissem sobre o  que uma mulher fazia para que ela fosse colocada na rua. Na prática, a concubina era refém dos seus empregados, e precisava bajulá-los constantemente, oferecer presentes, agradar, conquistar sua simpatia. Em suma, uma prisão sem grades e uma guerra feita de sorrisos.

Não há canções e nem aventuras na maneira feminina mais tradicional de sobreviver. É um caminho que não faz mudar de cenário, não tem atitudes avassaladoras e nem atos de heroísmo. Não faz conhecer pessoas e mundos novos; geralmente nem sai do portão de casa. Por fora, deve parecer suave. É um esforço que existe mais no que não é dito, no que não é feito, na espera, na manutenção. Pouca gente o escolheria se pudesse. Tanto é assim que as mulheres têm reivindicado, sempre que podem, maior controle sobre suas vidas. Arya é mil vezes mais interessante do que Sansa. No fim, é possível que Arya consiga conciliar masculino e feminino, tenha aventuras e um grande amor, talvez vire até uma rainha. Já Sansa… quem se importa? Só que eu não posso terminar o texto sem um acréscimo: o caminho feminino não apenas negação, não é tão destituído e frágil quanto a trajetória de Sansa. Ela não sabe jogar o jogo, ela se deixa levar pelos contos de cavalaria e tenta obter a piedade masculina. “Lágrimas não são as únicas armas de uma mulher. A melhor arma está entre as pernas. Aprenda a usá-la”, lhe diz Cersei num arroubo de sinceridade. A Rainha Cersei, assim como Melisandre (Sacerdotisa Vermelha), mostram que o jogo de bastidores pode ser tão ou mais importante do que o jogo dos tronos.

Eddark Stark e a ética no jogo de tronos

Chega a ser irônico pensar que sou acusada – com justiça – de escrever sobre livros velhos e quando finalmente estou lendo algo bem atual, hesito em colocar por escrito. A net me ofereceu, há menos de um mês, a primeira e segunda temporadas completas da série Game Of Thrones, da qual já tinha ouvido falar. Fui assistir e o primeiro episódio da primeira temporada levou cerca de cinco minutos para me hipnotizar. Cada temporada tem dez episódios e vi as duas temporadas em duas semanas; só não foi mais rápido porque não vi sozinha. Não satisfeita, decidi ler os livros. A série de George R. R. Martin é best seller mundial e os cinco primeiros livros são encontrados em qualquer livraria. Ele conta a história de Westeros, uma região dividida em norte e sul, governada por diversos nobres e protegida há séculos de seres mitológicos. Cada casa nobre tem história, personagens com passado e personalidade, descrições físicas, relacionamentos, histórias paralelas, etc. Cada capítulo mostra o ponto de vista de alguém, sua versão e influência no desenrolar dos fatos. São várias histórias paralelas. Personagens apenas citados e sem importância podem crescer ao longo da trama. Outros, fascinantes e essenciais, podem morrem como moscas –  nunca vi um autor tão corajoso (e mau!) na hora de matar personagens. A trama de Senhos dos Anéis parece simples diante do mundo de Game of Thrones. Cada livro tem mais de seiscentas páginas, todas consistêntes e interessantes. A leitura deles é um verdadeiro mergulho.

(Agora eu começam spoilers da primeira temporada e primeiro livro da série – As crônicas de gelo e fogo)

Como eu já disse, eu vi a série antes de ler o livro. Então, eu li o primeiro livro inteiro já sabendo que Eddard Stark morreria. A maneira como entramos em contato com uma história faz toda diferença na maneira como vemos. Meu amigo fez o caminho inverso, ele leu os livros primeiro – nem tenho certeza de se ele continuou com a série. Para ele a morte do Stark foi um verdadeiro choque, ele se disse traumatizado e demorou para se recuperar da perda de um personagem tão querido. Já eu li o livro inteiro passando raiva, torcendo para o Stark morrer logo. Na série, eu simpatizava com Stark, com sua maneira correta, com a família ética e amorosa que ele criou. Ele era um respiro de bondade em meio à todo jogo de poder e ambição da corte. No livro, sabendo de antemão o que aconteceria, vi claramente todas as oportunidades que surgiram para que ele não tivesse o fim que teve. Uma a uma, Eddard se negou a fazê-las em nome de uma ética, de um princípio que parecia tão acima de seus próprios interesses e de todos os envolvidos, que era quase inevitável que ele pagasse com a vida. Como disse a Rainha Cersei, num momento que define a própria série: Quando você joga o jogo de tronos, ou você ganha ou você morre.

Stark me parece o exemplo perfeito do exagero da ética da convicção weberiana. Para Weber, existem dois princípios éticos fundamentais: na ética da convicção, o sujeito age de acordo com princípios morais, que independem das circunstâncias e de seus resultados. Existe um Bem e ele deve ser buscado, sem quaisquer negociações. É uma ética absoluta e imperativa, que exige que as circunstâncias se adaptem a ela. Na ética do esclarecimento, o sujeito orienta sua ação de acordo com as circunstâncias. Não há um princípio ético maior, e sim o cálculos dos riscos e a idéia de adequação. É uma ética totalmente dependente das circunstâncias e do resultado a ser buscado. Weber aponta que as duas éticas, quando tomadas de forma absoluta, oferecem riscos: na primeira, as exigências podem ser fora da realidade; na segunda, o uso de fins para justificar os meios. No livro, Ed Stark era o exemplo extremado da ética da convicção; Petyr Baelish (Mindinho), da ética do esclarecimento.

A própria trajetória de Eddard Stark ilustra o desastre de seguir apenas a ética da convicção. Ele sabia que a Rainha Cersei não era de confiança, e teve a oportunidade de afastá-la do poder quando descobriu seu segredo e quando Renly Baratheon o procura logo após a morte do rei. Só que regido pela misericórdia, ele a poupa e espera pelas circunstâncias. Como disse Varys, a misericórdia dele que matou o rei. Antes disso, quando Gregor Clegane atacou as terras fluviais a mando de Tywin Lannister, Stark teve a oportunidade de mandar o Cavaleiro das Flores liquidar o assunto. Porque isso seria “vingança e não justiça”, ele enviou outros homens; tal atitude deixou o próprio Stark mais desprotegido, impediu de ter a Casa Tyrell contra os Lannisters e ainda fez com que Sor Ilyn, Magistrado do Rei, se sentisse insultado por outros homens terem sido enviados para fazer o seu trabalho. Antes de deixar de ser a Mão do Rei, Petyr Baelish propôs que Eddard governasse e esperasse Joffrey crescer; ele alertou que entragar a coroa a Stannis Baratheon causaria uma guerra. Stark recusou a isso em nome da uma linha sucessória consanguínea, independente de todos os outros fatores. Até mesmo o risco de uma guerra lhe parecia justificável. No fim, sua atitude sempre correta colocou no poder um rei cruel, dividiu o reino e fez com que ele mesmo perdesse a cabeça.

O erro de Stark foi pensar sempre como um homem justo e nunca como um político. Ele obedeceu princípios elevados na esfera pública e ignorou seus efeitos na esfera política. Eddard Stark destoou tanto da corte que foi eliminado rápido demais, antes que pudesse fazer qualquer diferença. Até seus inimigos o admiravam e o reconheciam como um homem bom – uma admiração que em nada o ajudou. Podemos dizer que ele foi um crente, ele achou que o Certo era medida suficiente para tudo. Não foi para si e nem para o reino. Ele não soube jogar o jogo de tronos, não soube adaptar-se ao papel que lhe foi exigido. Entre conselheiros e nobres que agem apenas conforme seus interesses, numa ética do esclarecimento bastante mesquinha; um soldado, como Stark, que agia apenas em nome de princípios elevados, vemos a dificuldade de atingir o equilíbrio ético. O livro aponta um caminho com outro personagem, ainda mais fascinante: Tyrion Lannister.