Eddark Stark e a ética no jogo de tronos

Compartilhe este texto:

Chega a ser irônico pensar que sou acusada – com justiça – de escrever sobre livros velhos e quando finalmente estou lendo algo bem atual, hesito em colocar por escrito. A net me ofereceu, há menos de um mês, a primeira e segunda temporadas completas da série Game Of Thrones, da qual já tinha ouvido falar. Fui assistir e o primeiro episódio da primeira temporada levou cerca de cinco minutos para me hipnotizar. Cada temporada tem dez episódios e vi as duas temporadas em duas semanas; só não foi mais rápido porque não vi sozinha. Não satisfeita, decidi ler os livros. A série de George R. R. Martin é best seller mundial e os cinco primeiros livros são encontrados em qualquer livraria. Ele conta a história de Westeros, uma região dividida em norte e sul, governada por diversos nobres e protegida há séculos de seres mitológicos. Cada casa nobre tem história, personagens com passado e personalidade, descrições físicas, relacionamentos, histórias paralelas, etc. Cada capítulo mostra o ponto de vista de alguém, sua versão e influência no desenrolar dos fatos. São várias histórias paralelas. Personagens apenas citados e sem importância podem crescer ao longo da trama. Outros, fascinantes e essenciais, podem morrem como moscas –  nunca vi um autor tão corajoso (e mau!) na hora de matar personagens. A trama de Senhos dos Anéis parece simples diante do mundo de Game of Thrones. Cada livro tem mais de seiscentas páginas, todas consistêntes e interessantes. A leitura deles é um verdadeiro mergulho.

(Agora eu começam spoilers da primeira temporada e primeiro livro da série – As crônicas de gelo e fogo)

Como eu já disse, eu vi a série antes de ler o livro. Então, eu li o primeiro livro inteiro já sabendo que Eddard Stark morreria. A maneira como entramos em contato com uma história faz toda diferença na maneira como vemos. Meu amigo fez o caminho inverso, ele leu os livros primeiro – nem tenho certeza de se ele continuou com a série. Para ele a morte do Stark foi um verdadeiro choque, ele se disse traumatizado e demorou para se recuperar da perda de um personagem tão querido. Já eu li o livro inteiro passando raiva, torcendo para o Stark morrer logo. Na série, eu simpatizava com Stark, com sua maneira correta, com a família ética e amorosa que ele criou. Ele era um respiro de bondade em meio à todo jogo de poder e ambição da corte. No livro, sabendo de antemão o que aconteceria, vi claramente todas as oportunidades que surgiram para que ele não tivesse o fim que teve. Uma a uma, Eddard se negou a fazê-las em nome de uma ética, de um princípio que parecia tão acima de seus próprios interesses e de todos os envolvidos, que era quase inevitável que ele pagasse com a vida. Como disse a Rainha Cersei, num momento que define a própria série: Quando você joga o jogo de tronos, ou você ganha ou você morre.

Stark me parece o exemplo perfeito do exagero da ética da convicção weberiana. Para Weber, existem dois princípios éticos fundamentais: na ética da convicção, o sujeito age de acordo com princípios morais, que independem das circunstâncias e de seus resultados. Existe um Bem e ele deve ser buscado, sem quaisquer negociações. É uma ética absoluta e imperativa, que exige que as circunstâncias se adaptem a ela. Na ética do esclarecimento, o sujeito orienta sua ação de acordo com as circunstâncias. Não há um princípio ético maior, e sim o cálculos dos riscos e a idéia de adequação. É uma ética totalmente dependente das circunstâncias e do resultado a ser buscado. Weber aponta que as duas éticas, quando tomadas de forma absoluta, oferecem riscos: na primeira, as exigências podem ser fora da realidade; na segunda, o uso de fins para justificar os meios. No livro, Ed Stark era o exemplo extremado da ética da convicção; Petyr Baelish (Mindinho), da ética do esclarecimento.

A própria trajetória de Eddard Stark ilustra o desastre de seguir apenas a ética da convicção. Ele sabia que a Rainha Cersei não era de confiança, e teve a oportunidade de afastá-la do poder quando descobriu seu segredo e quando Renly Baratheon o procura logo após a morte do rei. Só que regido pela misericórdia, ele a poupa e espera pelas circunstâncias. Como disse Varys, a misericórdia dele que matou o rei. Antes disso, quando Gregor Clegane atacou as terras fluviais a mando de Tywin Lannister, Stark teve a oportunidade de mandar o Cavaleiro das Flores liquidar o assunto. Porque isso seria “vingança e não justiça”, ele enviou outros homens; tal atitude deixou o próprio Stark mais desprotegido, impediu de ter a Casa Tyrell contra os Lannisters e ainda fez com que Sor Ilyn, Magistrado do Rei, se sentisse insultado por outros homens terem sido enviados para fazer o seu trabalho. Antes de deixar de ser a Mão do Rei, Petyr Baelish propôs que Eddard governasse e esperasse Joffrey crescer; ele alertou que entragar a coroa a Stannis Baratheon causaria uma guerra. Stark recusou a isso em nome da uma linha sucessória consanguínea, independente de todos os outros fatores. Até mesmo o risco de uma guerra lhe parecia justificável. No fim, sua atitude sempre correta colocou no poder um rei cruel, dividiu o reino e fez com que ele mesmo perdesse a cabeça.

O erro de Stark foi pensar sempre como um homem justo e nunca como um político. Ele obedeceu princípios elevados na esfera pública e ignorou seus efeitos na esfera política. Eddard Stark destoou tanto da corte que foi eliminado rápido demais, antes que pudesse fazer qualquer diferença. Até seus inimigos o admiravam e o reconheciam como um homem bom – uma admiração que em nada o ajudou. Podemos dizer que ele foi um crente, ele achou que o Certo era medida suficiente para tudo. Não foi para si e nem para o reino. Ele não soube jogar o jogo de tronos, não soube adaptar-se ao papel que lhe foi exigido. Entre conselheiros e nobres que agem apenas conforme seus interesses, numa ética do esclarecimento bastante mesquinha; um soldado, como Stark, que agia apenas em nome de princípios elevados, vemos a dificuldade de atingir o equilíbrio ético. O livro aponta um caminho com outro personagem, ainda mais fascinante: Tyrion Lannister.

3 comentários em “Eddark Stark e a ética no jogo de tronos”

  1. Não li (e não lerei), nem tinha assistido, mas quando fiquei sabendo da moda entorno da GOT pensei: deve ser a mesma merda de Senhor dos Aneis. Resisti o que pude, até que me convenceram a assistir um mísero episódio. Pra que! Fiquei viciado, tinha de assistir todos os episódios o mais rápido possível, para então revê-los. Agora acalmei, mas continuo baixando o último episódio todo domingo, até junho. Daí entraremos no inverno, esperando a temporada seguinte, o próximo verão…
    Ate agora meu personagem favorito é o anão, Tyrion Lannister (no aguardo do texto sobre). Baita ator o Peter Dinklage. Arya Stark também muito bem, assim como Tywin Lannister, o pai linha-dura. Quem eu não suporto é a Daenerys Targaryen, a quem prefiro chamar de “Shakira que não toma banho”, ou “Dirty Shak”, e a incestuosa Cersei.

    1. Mesma coisa que você: todos meus amigos viam, e me dava preguiça em pensar que parecia com Senhor dos Anéis. Aquela primeira cena com os White Walkers já foi o suficiente pra me fisgar. Eu não vi ainda nenhum episódio da terceira temporada, estou esperando a net me liberar pelo Now. Também tenho no Tyron meu personagem favorito. Gosto também de me encantar um uns menos importantes, como o Jorah Mormont, o Cão (que passei a gostar quando li o livro), o professor de dança, o Lorde das Cebolas… Mas é complicado pegar amor por eles, quando você vê PUF!, nego morre.

Deixe uma resposta para Matheus Lopes Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *