O avesso da vida

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avesso da vidaGostei muito de O avesso da vida e acho que é possível gostar dele por dois motivos totalmente diferentes. E, de certa forma, me parece que o segundo motivo obscurece o primeiro. Em primeiro lugar, gosto dos temas que ele trata. A primeira coisa que é avessa da vida é a morte. O livro trata, logo nas primeiras páginas, disso. Henry, um dentista bem sucedido, trata de um problema coronário. A medicação para tratar desse problema o deixa impotente e a única maneira de se livrar desse terrível efeito colateral é uma operação arriscada.

Trazer tudo de volta, ele pensou, os anos 60, 50, 40 – trazer de volta aqueles verões na praia de Jersey, os pãezinhos frescos perfumando o armazém no porão do Hotel Lorraine, a praia onde de manhã os barcos vendiam peixe recém-apanhado… Ficou ali parado, naquele túnel, atrás do museu, relembrando sozinho as lembranças mais inocentes dos meses mais inocentes dos anos mais inocentes de sua vida, lembranças sem maiores consequências, extasiadamente revividas- tão grudadas nele quanto o sedimento orgânico que entupia as artérias do seu coração. O bangalô a duas quadras da praia, com a torneira para fora para tirar areia dos pés. A barraca de “adivinhe seu peso” na arcada do Parque Asbury. Sua mãe debruçada na janela quando começava a chuva, puxando as roupas penduradas no varal. Esperando, ao anoitecer, o ônibus para voltar para casa, depois do cinema de sábado à tarde. Sim, o homem a quem isto estava acontecendo tinha sido o menino que, com seu irmão mais velho, esperava o ônibus 14. Não era capaz de compreender – era a mesma coisa que tentar entender física molecular. Por outro lado, também não era capaz de acreditar que o homem a quem isto estava acontecendo era ele próprio e que, quaisquer que fossem as coisas pelas quais este homem tinha que passar, ele teria que passar também. Traga de volta o passado, o futuro, traga-me de volta o presente – eu só tenho trinta e nove anos!

p.13

Uma palavra que me vêm à cabeça quando penso nos muitos temas que o livro trata é que é um livro adulto. Por algo avesso à vida podemos pensar na morte de muitas coisas. Não é apenas a escolha entre uma morte física ou a morte da virilidade; vemos o problema da solidão inerente a todas as escolhas, da ausência de respostas fáceis, a dificuldade de elencar prioridades. O que é ser responsável, amar e conhecer, problemas tão típicos da vida adulta. Cada alternativa é debatida por muitos ângulos, todos muito coerentes ainda que opostos. Os personagens se debatem constantemente com o sentido da própria vida, do sofrimento, e com seu próprio passado. Fiquei encantada. Quem já leu Philip Roth pode ver como “mais do mesmo” as discussões sobre o judaísmo e a sexualidade; como leitora, procuro não cobrar que os autores se tornem maiores do que seus próprios temas e mudem radicalmente de um livro para o outro. Aceito como parte da bagagem de Roth. Com uma certa boa vontade, podemos ver na discussão sobre o judaísmo uma questão de herança e ancestralidade… mas que a maneira como ele coloca a questão parece alheia à realidade brasileira, isso parece.

Outra maneira de gostar do livro, que obscurece tudo que disse antes, é pela maestria com que ele foi escrito. Roth faz valer a pena tantas inovações e liberdades narrativas na literatura. Há tempos não lia um livro tão moderno, tão bem construído, que acredita tanto no seu leitor. O livro é construído num caleidoscópio; cada capítulo interfere no anterior e muda totalmente o que havíamos entendido. A história muda dentro da história. Principalmente: isso é feito com tamanha naturalidade como se não fosse nada, quando o leitor se dá conta, ele mudou também. É preciso muito domínio para se arriscar desse jeito e conseguir um bom resultado, sem adquirir aquele ar de “obra inacessível de puro experimentalismo”. Achei brilhante e maduro, um daqueles livros que, sozinhos, demonstram toda qualidade de um escritor.

3 thoughts on “O avesso da vida

  1. Olha aí, Caminhante lendo o Roth! Um outro assunto que marca esse livro é a religião, as religiões, as Top 3 nas paradas de sucesso: Cristianismo, Islã e Judaísmo. O lugar do judeu exilado durante a História, por toda a “Idade Média (odeio esse tempo, carregado de preconceito nariz empinado iluminista) e seus guetos na Europa, e que hoje está no meio de muçulmanos com misseis apontados para seus kipás, de volta à Israel, é muito bem apontado em Operação Shylock. Inclusive, acho que é ainda melhor escrito, com um Roth seguro de si (ao contrário do Roth no próprio livro), sem vergonha alguma das ideias ali contidas — ideias que somente ele mesmo colocaria no papel. Essa fase dele é demais, nota-se o amadurecimento do Mr. Roth sexagenário e a confiança de que não errará a mão, ainda que escreva sobre assuntos delicadíssimos, até por sua condição de judeu-americano (ou americano-que-é-judeu-mas…?).

      • Esse é mesmo um grande tema do livro mas, pra mim, foi a parte mais fraca. Fraca por ser a que menos me gerou empatia. Achei todos os outros temas tão bons, tão universais, e essa discussão do judaísmo me pareceu bastante limitada aos países que foram tratados. Talvez se eu fosse judia, ou mais interessada nesse assunto, isso tivesse me mobilizado mais…

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