Uma desistência – O mal de Montano

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Em fins do século 20, o jovem Montano, que acabava de publicar seu perigoso romance sobre o enigmático caso dos escritores que renunciam a escrever, foi apanhado nas redes de sua própria ficção, apesar de sua tendência compulsiva à escrita, e converteu-se num escritor totalmente bloqueado, paralisado, ágrafo trágico.

Em fins do século 20 – hoje, 15 de novembro de 2000, para ser mais preciso – , visitei-o em sua casa de Nantes e, tal como esperava, encontrei-o tão triste e tão seco que bem se poderia aplicar a Montano uns versos de Pushkin e dele dizer que “vive errando/ na penumbra dos bosques/ com o romance perigoso”.

O efeito positivo, no caso, é que para meu filho – porque Montano é meu filho – errar na penumbra dos bosques levou-o a recuperar uma certa paixão pela leitura, e disso me beneficiei eu, que não faz muito, e por sua recomendação, li Prosa da própria fronteira, o romance que acaba de publicar Julio Arward, este peculiar escritor em quem nunca me fiara demais, por considerar que ele simplesmente brincava de ser o duplo do romancista Justo Navarro.

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Embora isso seja claramente uma idealização, gosto de pensar numa escrita que, de tão boa, não exija do leitor mais do que o básico. Não gosto da ideia de pré-requisitos, de que para enfrentar certas obras é preciso ter atrás de si obras fundamentais e uma intimidade de décadas com a escrita. É uma idealização, eu sei. Todas as formas de arte acabam criando seu público e apenas a repetição, o repertório e o conhecimento, tornam seus admiradores capazes de entender certas sutilezas. Mas gosto de pensar que o leitor mais experimentado é capaz de entender as sutilezas e as dificuldades de um grande romance, enquanto o leitor menos experimentado passará ao largo delas, mas sem deixar de se fascinar. Gosto de pensar no poder da escrita, no poder de assombrar e interessar mesmo aqueles que sabem pouco sobre ela.

Por isso, de cara, já não gostei da maneira como começa O Mal de Montano. Cheguei até a metade do livro apenas porque me obriguei, por querer conhecer um importante autor contemporâneo. Os primeiros parágrafos, acima transcritos, mostram: o livro começa com tantas citações que o leitor já se sente perdendo algo. Era uma festa privê para os muito cultos e ninguém me avisou? Para quem conhece todos os livros, autores e biografias citadas, deve ser interessante, uma festa; já eu senti que não faço parte do grupinho de amigos de Vila-Matas. A doença do mal de Montano é o mal do excesso de amor pela literatura, que leva a enxergar o mundo como uma grande narrativa, onde memória pessoal e de livros se misturam, e onde a vida está tão cheia de citações que a pessoa se torna um dicionário ambulante delas. Como proposta, achei interessante. Só que daí exigir que para gostar um livro o leitor precisa ser também muito aficionado em literatura, ter uma referência básica de autores e ter, também, certas pretensões como escritor, me parece um pouco demais.

Mesmo assim, vá lá, eu fui em frente. Gostei da primeira parte, da relação com Montano e seu bloqueio. Achei a segunda parte interessante, como um livro que explica a própria feitura do livro, contando os elementos que levaram o autor fictício da segunda parte a escrever a primeira parte. Só que o caminho percorrido se torna cada vez mais tedioso. Agora sou eu que declaro: que um autor exija dos seus leitores, que cite, que se referencie, que discorra, tudo é permitido. Mas que não seja chato. Podem me chamar de ignorante, podem me acusar de não ter apreciado um livro premiado de um autor famoso, podem dizer o que quiser – mas eu duvido que alguém seja capaz de se declarar apaixonado pelo livro. Ele não conquista, não emociona, não cria empatia. O narrador vai, volta, bebe, conversa com as pessoas, pensa, solta algumas baforadas sobre o ato de escrever. E nada disso fica, nada entusiasma. Quando me dei conta que não estava nem aí pra que direção a história tomaria, larguei mão. Meu mal de Montano me diz que todo livro precisa, no mínimo, despertar curiosidade sobre o seu final.

7 comentários em “Uma desistência – O mal de Montano”

      1. “Em fins de”, “bosque”, “converteu-se”, “fiara” – vejo o o original por baixo das palavras, conheço de sobra as preferências espanholas. Agora, claro, pode ser implicância minha. Em bom brasileiro, diríamos “pelo fim do século 20”. Bosque, na Espanha, é floresta, grande mata, não um matinho como em português. A gente se torna, se transforma. Conversão e coisa de pastor. Fiar? É muito mais natural não confiar em alguém, pelo menos na maioria das vezes no português de hoje.

        1. Sei não, Ernani, mas você já disse certa vez que Bolaño do Brandão estava também em portunhol. Acho que rola aí uma certa implicância entre tradutores. Tenho o Javier Marías do Brandão e a mim parece que a tradução é excepcional.

          1. Ele é do tipo que traduz “yo creo” por “eu creio”. Se isso é excepcional, realmente, tenho de pendurar as chuteiras.

          2. Para o nível de complexidade que tem “Seu rosto amanhã” e outros romances de Marías, como “Os enamoramentos”, seria uma enorme desfaçatez da Cia das Letras contratar alguém que não tivesse pleno domínio do idioma espanhol e do português. Tenho alguns livros do Marías no idioma original aqui_ e já até cometi a tradução de um ensaio deste autor, que publiquei em meu blog_, e vejo que Brandão foi muito responsável e competente, ainda mais em conservar o barroquismo e o linguajar propositalmente retrógrado deste escritor. Marías e Vila-Matas tem um estilo que se pode dizer “ultrapassado”, anacrônico_ um crítico disse, em referência específica ao primeiro, “rebuscado”_, que talvez seja a causa desse estranhismo que os tradutores tem que adotar. É uma felicidade que tenhamos tradutores do porte de Ernani Ssó, Molina e Brandão.

  1. Sei lá, atitude que gerou o texto do blog e os comentários de Ernani Ssó me parecem ser, precisamente, o objeto da estrondosa ironia de Vila-Matas. BG, um leitor.

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