Uma pequena lembrança que me veio à tona lendo 1808

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Mandei a minha dissertação para a editora da UFPR, e tal como acontece nesses casos, ela foi enviada a três pareceristas. Eu tive acesso aos três pareceres. Dois eram bastante elogiosos e recomendaram fortemente a publicação. O terceiro parecer, bastante longo, destilava tal ódio que até hoje me pergunto pra que inimigo meu ele foi mandado. Havia desde implicâncias mínimas, como reclamar que eu repeti muito a expressão “este livro” – e uma busca no word mostrar que eu a usei apenas duas vezes – a dizer que capítulos inteiros eram ruins, desnecessários ou preconceituosos. Uma dessas muitas críticas dizia que eu não entendia nada dos conceitos que usei, dada a forma simples e direta com que eu os descrevia.

Ora, quem escreve sabe que o simples e o direto é justamente o mais difícil de fazer. Escrever “como dizia Fulano” e encher o texto de aspas e citações é muito mais fácil. O autor não se expõe, o parágrafo se torna uma sopa de letrinhas e o leitor que se vire pra entender aquilo. Colocar em ordem, apresentar de forma didática e usar o discurso direto, isso sim é muito difícil. Exige domínio do que vai ser exposto e muito trabalho com a escrita.

É justamente esse o segredo do sucesso da série de livros de história do Brasil de Laurentino Gomes, os best sellers 1808, 1822 e 1889. São fontes sérias mastigadas da maneira mais interessante possível. É tão bom de ler que dá sempre aquela sensação de: nem parece um livro de História do Brasil…

 E foi assim que os portugueses reagiram na manhã de 29 de novembro de 1807, quando circulou a informação de que a rainha, o príncipe regente e toda a corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha britânica. Nunca algo semelhante tinha acontecido na história de qualquer outro país europeu. Em tempos de guerra, reis e rainhas haviam sido destronados ou obrigados a se refugiar em territórios alheios, mas nenhum deles tinha ido tão longe para viver e reinar do outro lado do mundo. Embora os europeus dominassem colônias imensas em diversos continentes, até aquele momento nenhum rei havia colocado os seus pés em seus territórios ultramarinos para uma simples visita – muito menos para ali morar e governar. Era, portanto, um acontecimento sem precedentes tanto para os portugueses, que se achavam na condição de órfãos da sua monarquia da noite para o dia, como para os brasileiros, habituados até então a ser tratados como uma simples colônia extrativista de Portugal.

No caso dos portugueses, além da surpresa da notícia, havia um fator que agravava a sensação de abandono. Duzentos anos atrás, a noção de Estado, governo e identidade nacional era bem diferente da que se tem hoje. Ainda não existia em Portugal a ideia de que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido – o princípio fundamental da democracia. No Brasil de hoje, se, por uma circunstância inesperada, todos os governantes fugissem do país, o povo ainda teria a prerrogativa de se reunir e eleger um novo presidente, deputados e senadores, de modo a recompor imediatamente o Estado e seu governo. As próprias empresas, depois de um período de incerteza pela ausência de seus donos ou dirigentes, poderiam se reorganizar e continuar funcionando. Em Portugal de 1807 não era assim. Sem o rei, o país ficava à mingua e sem rumo. Dele dependiam toda a atividade econômica, a sobrevivência das pessoas, o governo, a independência nacional e a própria razão de ser do Estado português.

1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil,  p.30-31

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