O longo adeus

chandlerO gênero policial, de cara, não me interessou. Eu li muita Agatha Christie na minha adolescência, até cansar. O nome Philip Marlowe não me era estranho, por causa do Ernani Ssó. O fato de ser uma edição de bolso ajudava. Peguei porque a contracapa informava que O longo adeus era um dos maiores romances da literatura americana de todos os tempos. O superlativo, por mais que não fosse merecido, indicava um clássico. E clássicos sempre valem a pena, nem que seja para dizer que não gostou.

Se eu nunca havia lido Chandler ou Marlowe, como é que antecipadamente eu sabia que, por ser detetive, ele era um sujeito durão, solitário, um certo charme, cigarro no canto da boca, que apanha mas não se dobra, bebida alcoólica a qualquer hora do dia? E que ele tem suas conexões, uma relação pouco harmoniosa tanta com a polícia quanto com os bandidos, um escritório vazio e meio abandonado, não trabalha por dinheiro e sim por um sentido de honra bastante particular? Mais: como eu poderia antecipar as comparações interessantes, o humor e até mesmo a loira sedutora com culpa no cartório e que procura nosso herói para ajudar a encontrar seu marido desaparecido? Pior ainda: pra que ler Chandler e não os muitos que vieram depois, como Columbus ou até mesmo Ed Mort, depois de perceber tudo isso? Porque Chandler não é qualquer porcaria, ele não é qualquer um. Ele é o pai do gênero. Todos detetives particulares pé rapados são tributários a Marlowe. E tanta gente teve vontade de escrever detetives assim porque Chandler o faz com baita estilo:

Existem loiras e loiras, e isto é quase uma piada hoje em dia. Todas as loiras têm pontos em comum, exceto talvez as loiras metálicas que são tão loiras quanto um zulu embranquecido e com uma disposição tão macia quanto uma calçada. Há a loira pequena e engraçadinha, que anda perto do chão e ri agitada, a loira grande como uma estátua, que nos abraça com um simples olhar azul-gelado. Há a loira que nos dá uma olhada de alto a baixo e cheira bem que é uma beleza, brilha e se dependura no seu braço e está sempre muito, muito cansada quando você a leva pra casa. Ela fez um gesto desamparado e tem uma dor de cabeça danada e você tem vontade de bater nela e só não bate porque no fundo está satisfeito de ter descoberto da dor de cabeça antes de investir tempo, dinheiro e esperanças demais nela. Porque esta dor de cabeça via sempre existir, uma arma que nunca falha e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia.

Existe a macia e alcóolica loira que está a fim e não se importa com a roupas que veste desde que seja mink, ou para onde vai desde que seja para o Starlight Roof, onde tem champanha seco à beça. Existe a pequena e viva loira, que faz questão de pagar sua parte e vive cheia de raios de sol, bom senso, e sabe lutar judô, e pode puxar um chofer de caminhão por cima do ombro sem perder mais que uma linha do editorial do Saturday Review. Há a loira pálida com anemia de algum tipo não fatal mas incurável. É bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, você não está a fim, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard – ou então está estudando provençal. Ela adora música e quando a Filarmônica de Nova Iorque toca Hindemith é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto compasso depois. Ouvi falar que Toscanini também consegue fazer isso. São dois, portanto.

E por último existe aquela maravilha que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns milionários, um milhão por cabeça, e termina a vida com uma villa rosa-pálido em Cap d´Antibes, um Alfa-Romeo equipado com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo.

Essa é outra vantagem de se ler os clássicos: chegar na fonte, entender como e porquê tudo começou.