O olho, de Vladimir Nabokov

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Não tenho muito o que dizer de O Olho, de Nabokov, sem entregar o livro. É curtinho, de pouco mais de cem páginas e acho que o trecho a seguir explica bem qual o sentido do título:

Muitas vezes, ao voltar a pé para casa, a cigarreira vazia, o rosto queimando na brisa da aurora como se eu tivesse acabado de remover uma maquiagem teatral, cada passo lançando uma pontada de dor que ecoava em minha cabeça, eu inspecionava minha débil felicidadezinha de um lado e de outro e me assombrava, tinha pena de mim mesmo e me sentia desanimado e medroso. O ápice do ato amoroso era para mim nada mais que um árido promontório com uma vista desoladora. Afinal de contas, para viver feliz, um homem tem de reconhecer vez ou outra alguns momentos de perfeito vazio. No entanto, eu estava sempre exposto, sempre de olhos bem aberto; mesmo com sono eu não cessava de me observar, sem entender nada de minha existência, enlouquecendo com a ideia de não conseguir deixar de ser tão consciente de minha presença, e invejando toda aquela gente simples – escriturários, revolucionários, lojistas – que, com confiança e concentração, desempenham seus pequenos trabalhos. (p.18-19)

Ao contrário do que o trecho pode dar a entender, é um livro muito divertido. Através dele descobri que não é por acaso que Humbert Humbert, o protagonista de Lolita, nos deixa em maus lençóis ao ser tão condenável e interessante ao mesmo tempo. O humor de Nabokov é fantástico, e O Olho tem várias passagens hilárias, tanto de cenas muito bem descritas como em forma de diálogos. O personagem principal é duplamente estrangeiro: por ser um russo vivendo em Berlim, mas também um estrangeiro de si mesmo depois de sua experiência de “quase morte”. É um olhar analítico e sarcástico, que procura entender o pequeno universo que tem ao seu redor: Matilda e o marido, o livreiro paranóico, as irmãs que vivem no andar de cima e seu círculo de amizades, o misterioso Smurov. É como um thriller psicológico, vale a leitura.

1 comentário em “O olho, de Vladimir Nabokov”

  1. Foi o primeiro Nabokov que li. Gosto bastante das novelas do Nabokov, talvez até mais que dos grandes romances, mesmo relendo sem parar Lolita e Fogo Pálido. Até hoje estou devendo Ada ou Ardor.

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