Um certo probleminha com a ficção científica

Eu me animo com as minhas próprias indicações, e desde que publiquei textos a respeito, continuo lendo Nietzsche e ficção científica. Estou no 3001. Depois do 2001, li o excelente 2010. Só que, se me permitem comentar rapidamente a continuação, foi como terminar Matrix e ver Matrix 2 – já vou adiantando que não detesto Matrix 2, como parece ser o caso da maioria dos fãs. Enquanto 2001 é um livro que se arrasta no início e depois nos abre a mente e nos faz sonhar, 2010 é um livro que começa emocionante e cheio de aventuras desde o início. Mas ele é mais isso, um livro de aventuras. Parece que as continuações têm esse problema, que quebrarem a mágica dos livros/filmes que lhe deram origem. Minha teoria é que as continuações dão respostas, e interessantes mesmo são as perguntas. Depois de 2010 vem o 2061 que, conforme meu amigo Bruno que leu toda série e é fã de ficção científica me explicou, teve a data inspirada na segunda passagem do cometa Halley, que agitou tanto os anos 80 e nem deu pra ver. Foi graças ao Bruno que não parei a série ao não encontrar com 2061 na biblioteca. Parti logo para o 3001, que ignora completamente o livro anterior.

Essa introdução toda foi só pra dizer que estou no 3001. Lembram dos dois astronautas da Discovery, Poole e Bowman? HAL acerta uma nave em Poole e ele flutua pelo espaço, enquanto Bowman se vira para completar a missão, encontra o monolito e etc? Em 3001 descobrimos que Poole não morreu! Ele é reencontrado e reanimado mil anos depois. Ele encontra uma sociedade muito diferente daquela onde vivia e precisa se readaptar. Aí começa aquele enorme risco que é quando um autores de ficção científica jogam as coisas muito para o futuro. Uma coisa é falar de uma estação espacial e de uma nova, outra é imaginar a organização social. O mundo do ano 3000 imaginado por Clarke tem grandes estações espaciais, combustíveis a vácuo, naves conduzindo cometas, capacetes que leem as informações direto do nosso cérebro. Mas também há um armazenador de informações pessoais tão pequeno que tem “o tamanho de um disquete, só que mais grosso” ou comunicações unilaterais via rádio, que levam horas pra chegar.

Só que não é isso o que mais chama atenção e realmente me incomoda. São projeções do futuro que pecam pelo excesso de racionalidade. Para usar com mais conforto o tal capacete que lê informações cerebrais, todos – homens e mulheres – fazem uma depilação definitiva no couro cabeludo e usam peruca. Como várias religiões davam muitas brigas, a sociedade decidiu abandonar tudo e são apenas teístas (“acreditam não existir mais que um só deus”) ou deístas (acreditam “não haver menos que um só deus”). O consumo de carne é abandonado porque despende muitos recursos naturais e passa a ser considerado uma coisa bárbara. Acho que nem preciso mencionar que existe apenas uma única língua universal, que mistura inglês, francês, mandarim e germanismos. Muito melhor. Tão fácil fazer isso, é só juntar os maiores linguistas de mundo, criar uma língua e ensinar todo mundo, certo?

Nessas visões a humanidade consegue olhar para si mesma, abandonar suas irracionalidades sozinha e entrar em acordos que facilitem a vida de todos. Eu não consigo acreditar nisso. Não vejo acontecendo nem em confraternização de fim de ano, quanto mais em escalas mundiais. Não acredito nesse homem tão racional, não acredito no avanço tecnológico acompanhado de um “crescimento” na parte emocional e instintiva. Ao invés de me ver parecida com a humanidade de 3001, sinto um parentesco muito maior com qualquer romance do século XVI. Pega Cervantes, Balzac, Machado, Faulkner e outros e diz se aquilo não diz a verdade. O entorno pode ser diferente mas a humanidade está toda lá: paixão, ciúme, inveja, ira, vaidade, desejo de poder. A racionalidade é apenas um pedaço, e dos pequenos. O monolito ficaria decepcionado.