Caçando carneiros, de Murakami

O problema de escrever sobre um autor consagrado, especialmente um contemporâneo, é que parece que a gente precisa se posicionar sobre ele. “Amo Murakami, acho um gênio”, ou “Murakami é um lixo, não merece o destaque que recebe”. Eu não poderia fazer nenhuma dessas afirmações depois de ler apenas um livro dele. E, torcidas à parte, não dá pra simplesmente gostar (ou desgostar) de um livro e pronto?

Eu gostei muito de Caçando Carneiros. Achei o começo meio fraco e foi num crescente de interesse. A mania de Murakami de usar metáforas me pareceu muito cansativa, como se ele não conhecesse a fluidez da própria escrita. Dá aquela sensação de – será que vou suportar centenas de páginas de metáforas? (Antes que o leitor pare, ele para). O cenário todo montado, a gente curioso para saber o que vem a seguir e “seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa” (p.11), “como se minha mão esbarrasse de repente numa parede invisível que flutua no espaço” (p. 15). Aí você fica sem saber se se detém pensando no que significa ou simplesmente passa por cima. Mas são sempre descrições bonitas e nada óbvias, é preciso reconhecer.

Agora, na cama com uma nova namorada e correndo os dedos por seus cabelos, pensei na baleia por um longo tempo.

No aquário das minhas lembranças, é sempre fim de outono. O vidro do tanque está gelado e eu visto uma malha grossa. Do outro lado da janela panorâmica da sala de exposição, o mar é escuro, cor de chumbo, as incontáveis ondas de espumante crista branca lembrando golas de renda em vestidos de meninas.

– Em que está pensando? – perguntou-me.

– Em algo muito antigo – respondi.

p.33

Como explicar? A história é conduzida de uma maneira que ela modifica o ponto de interesse a cada capítulo. Começa com uma ida ao funeral, depois vai para lembranças, um casamento desfeito, e é como se cada resposta e abrisse caminho para outra pergunta. As informações se acrescem e, ao mesmo tempo, não são suficientes. Eu lia e me perguntava até onde o autor conseguiria ir, que em algum ponto ele não conseguiria levantar questões sem revelar e ia acabar perdendo a mão (leitor metido a escritor é um saco). Mas Murakami consegue sim. O personagem principal, cujo nome nem sabemos, cria identificação com o leitor logo no início pela maneira como confessa sua banalidade. A história segue e, a cada detalhe, a banalidade é abandonada e os acontecimentos se tornam imprevisíveis. É como se o “caçar carneiros”, descoberto pela terça parte do livro, dividisse o romance em dois: na primeira parte um livro sensível, na segunda uma história de detetive bastante imaginativa. Não sei se o estranhamento é causado pela distância cultural ou o quê, sei que Murakami descreve situações que jamais passariam pela minha cabeça. Os personagens têm momentos marcantes, os fatos são engraçados, a narrativa é fluida, a gente fica com vontade de comentar com o sujeito da mesa ao lado. Li por aí que foi com Caçando carneiros que Murakami começou a chamar atenção do mundo. Deixo registrada minha concordância e entusiasmo.