Os resíduos do dia, de Kazuo Ishiguro (e um tico de Que horas ela volta?)

Ler Os resíduos do dia tem tudo a ver com o momento atual, em que o filme Que horas ela volta? será representante do Brasil no Oscar e tem constrangido os brasileiros no exterior, ao mostrarem para os estrangeiros o quanto ainda somos escravocratas. Essencialmente, ambos expõem a crueldade das relações com empregados “quase da família”. No caso do livro, na Inglaterra do século XX. Há um filme sobre esse livro, de 1993, com Anthony Hopkins no papel principal.

Durante um ou dois minutos, não fiz ideia do que meu patrão estava dizendo. Então percebi que estava fazendo alguma piada e me esforcei para sorrir como era devido, embora desconfie que algum resto de confusão, para não dizer choque, deva ter continuado visível na minha expressão.

Ao longo dos dias seguintes, porém, aprendi a não mais me surpreender com tais observações de meu patrão, e sorria do jeito certo sempre que detectava aquele tom de brincadeira em sua voz. Mesmo assim, nunca tenho muita certeza do que ele espera de mim nessas ocasiões. Talvez eu devesse rir com gosto, ou até responder com alguma observação minha. Esta última possibilidade tem me ocupado durante estes meses, e é algo que ainda me deixa indeciso. (p.24)

O livro, todo escrito em primeira pessoa, é um diário de viagem do mordomo Stevens. Estimulado pelo seu novo patrão, um americano, ele, pela primeira vez, viaja para Inglaterra sozinho de carro, e vai à busca da antiga governanta da casa, Miss Kenton. Enquanto viaja, ele reflete sobre a sua profissão, as mudanças políticas que assistiu nos salões, deixa adivinhar sua paixão por Miss Keaton e, principalmente, sobre a maneira como ser mordomo e os valores associados a essa profissão lhe são caros.

Certa tarde, para sua própria tristeza e vergonha, Mr. Charles permitiu-se ficar bêbado na companhia de dois outros hóspedes, cavalheiros que chamarei apenas de Mr. Smith e Mr. Jones, uma vez que é possível que ainda sejam lembrados em certos círculos. Depois de uma hora e tanto bebendo, os dois cavalheiros resolveram dar um passeio de carro por algumas aldeias vizinhas. O automóvel ainda era uma espécie de curiosidade à época. Convenceram Mr. Charles a acompanhá-los e, como seu chofer estava de folga naquele momento, convocaram meu pai para dirigir o carro. (….)

Porém, a atenção de Mr. Smith e Mr. Jones havia se voltado então para meu pai e, sem dúvida, entediados pela vista que o local tinha a oferecer, passaram a se divertir gritando observações desagradáveis sobre o “erro” do motorista. Mr. Charles ficou deslumbrado com a maneira como meu pai não demonstrou nenhum indício de raiva ou desconforto, continuando a dirigir com uma expressão em perfeito equilíbrio entre a dignidade pessoal e a prontidão para obsequiar. (p.48-49)

Essa é parte difícil e a maestria do livro. Na própria linguagem do mordomo e nas suas observações, percebemos seu enrijecimento pessoal, sua adesão a um papel onde a noção de “dignidade” se confunde com a capacidade de sofrer grandes humilhações sem demonstrar. Sofremos com relatos que ele mesmo não coloca como sofrimento, e sim como exemplo de grande profissionalismo. A governanta Miss Kenton, para o leitor, atua como um sopro de vida, alguém consegue olhar com crítica e afeto o que acontece à sua volta. O mordomo Stevens, tal como na empregada “parte da família” vivida pela Regina Casé, é a personificação de um sistema bem azeitado, onde os dominados compram o discurso e os valores dos seus dominadores, o que naturaliza a relação entre patrões e empregados como se fosse uma diferença de humanidade. São personagens que nos deixam sem saber se amamos ou odiamos na sua adesão; ora sofremos por eles, ora nos enraivecemos por atuarem contra seus próprios interesses. Mas, ao mesmo tempo, seu próprio descompasso com o que acontece à sua volta – “mordomos menores abandonam seus seres profissionais em prol da vida pessoal à menor oportunidade” (p.54) – sinalizam a mudança. Ainda bem. Que o desconforto de leitores e espectadores diante de antigos papéis seja o início de uma nova atitude.