A arte de amolar o boi, de Eduardo Almeida Reis

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A primeira providência, para quem deseja virar fazendeiro, deve ser arranjar uma fazenda, com a mesma diligência com que os assaltantes de bancos arranjar metralhadoras e os médicos e economistas arranjam seus diplomas. Há uma diferença, contudo, na maneira pela qual são obtidas essas diversas ferramentas de trabalho, porque a aquisição da metralhadora envolve riscos, e a obtenção do diploma, via de regra, exige algum esforço – enquanto a procura da fazenda é uma das fases mais divertidas da vida de qualquer pessoa.

Existem diversas maneiras honestas e desonestas, legais e ilegais, bonitas e feias, para você conseguir a sua fazendinha. Permita-me chamá-lo de você, logo de saída, porque devemos estar juntos durante as muitas páginas deste manual, e o tratamento leitor é meio formal, e como tal muito cacete.

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Este livro prova a máxima de que não importa o assunto e sim a forma como ele é contado. Dito de outra forma: o bom autor é capaz de criar interesse por qualquer coisa. Acredito que não existam muitas pessoas no mundo que precisem de um manual de como gerir uma fazenda, mas tenho certeza de que A arte de amolar boi: manual do proprietário de sítios e fazendas é capaz de encantar qualquer um que pegue o livro nas mãos. Pra começar, olha o nome dos capítulos:

Capítulo I: Considerações técnicas, turísticas, científicas e filosóficas sobre a fazenda dos seus sonhos e o seu sonho de se transformar num fazendeiro supimpa.

Capítulo II: Onde se conta como deve o ilustre amigo adquirir sua fazenda, e das cautelas necessárias para com o tipo de negócio, o corretor, a região, as benfeitorias, a luz e a força, o acesso, o pagamento e outras coisas de importância transcendental.

Capítulo XIV: Se é mesmo verdade que o sofrimento e a luta forjam caracteres, o produtor de leite deve ser um ótimo caráter. É hora de o ilustre amigo tomar conhecimento das delícias e das agruras do negócio leiteiro, peleja onde as agruras batem as delícias numa proporção de 99 x 1.

O livro é inteiro assim, divertido. E, por incrível que pareça, realmente discute como cuidar de uma fazenda. Logo nos primeiros parágrafos você desejará ter uma lista telefônica – somos antigos – e procurar por Eduardo Almeida Reis, se oferecer pra tomar um café na fazenda dele, e entre canecas fumegantes e bolinhos de fubá ouvir todas as suas histórias. Porque não é possível que quem escreva de uma maneira tão deliciosa não seja pessoalmente espirituoso e muito bom de papo. A narrativa é tão fluida e sem esforço que parece que estamos percorrendo fazendas com ele, que sua fala foi apenas transcrita.

Fui pesquisar o ano da publicação, porque a que tenho em mãos é do Círculo do Livro, que tinha o péssimo hábito de nunca colocar datas, e descobri duas coisas: esse livro tem de monte em sites, e baratinho. E o mesmo autor escreveu “Zebu para principiantes”. Corra e adquira djá os dois.

 

One thought on “A arte de amolar o boi, de Eduardo Almeida Reis

  1. Eu tenho este livro – A Arte de Amolar o Boi – é muito bom.
    Uma história gostosa de se ler e muito instrutiva.

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