Madonna, Tina Turner e o envelhecimento

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No último dia 2 de maio, Madonna compareceu a um tapete vermelho com um modelo Givenchy e recebeu muitas críticas. Basicamente, ela foi acusada de ser velha demais para expor o seu corpo desta maneira:

E rebateu as críticas com o seguinte texto (disponibilizado por Denise Arcoverde, no Facebook):

Nós sempre lutamos e continuaremos lutando por direitos civis e gays ao redor do mundo. Quanto aos direitos das mulheres, nós ainda estamos na era das trevas. Meu vestido no MET Gala foi uma manifestação política, assim como uma manifestação fashion. O fato de algumas pessoas ainda acreditarem que uma mulher não pode expressar sua sexualidade e ser aventureira após uma certa idade é a prova de que ainda vivemos em uma sociedade etarista e sexista. Eu nunca pensei de uma forma limitada, e não vou começar agora. Nós nunca estaremos provocando mudanças, a menos que aceitemos os riscos de sermos destemidos e passarmos a percorrer a estrada menos percorrida. É assim que mudaremos a história. Se você tem algum problema com a forma como eu me vesti, isso é apenas uma reflexão do seu próprio preconceito. Eu não tenho medo de abrir caminhos para as garotas que vêm depois de mim. Assim como Nina Simone disse uma vez, a definição de liberdade é ser destemido. Se junte à minha luta pelo gênero. Igualdade!

Em primeiro lugar, quero deixar claro que endosso tudo o que está escrito acima. Madonna tem toda razão no que diz respeito ao preconceito e reivindicar, através da sua roupa, uma igualdade de gênero. Basta lembrar que ela tem a mesma idade que Brad Pitt, que nunca vi citado em lugar nenhum como homem velho e sim como sexy.

Ao mesmo tempo, tenho dificuldade de repassar e aplaudir esse texto. Um lado meu concorda e o outro se sente incomodado. Ao mesmo tempo que me parece justo, a sua preocupação fala de um caminho que temos seguido, de uma eleição de prioridades. Madonna ousa se vestir dessa forma porque ainda está “gostosa”, “com tudo em cima”. Ela discute o direito à sexualidade e beleza femininos, mas vejo também uma questão anterior e mais profunda, acima de questões de gênero. Mais profunda e mais cercada de tabus, praticamente sem defensores: o direito ao envelhecimento.

Existem, por toda internet, muitas fotos de Antes e Depois, que comparam as celebridades consigo mesmas nas versões jovens e velhas. E, quase sempre, essas comparações concluem que a pessoa está péssima, feia, velha, uma sombra do que um dia foi. Felizmente, essas comparações tem gerado revolta e é fácil concordar que não faz sentido acusar a pessoa de ser uma versão feia de si mesma vinte anos depois. Então proponho o contrário, pensar em quando um Antes e Depois é elogioso. Tina Turner é um desses casos raros:

Essencialmente, o que esse elogio quer dizer, por que Tina Turner sai “vitoriosa” no seu Antes e Depois? Um Antes e Depois elogioso nada mais é do que comemorar que a pessoa mudou pouco. Que mesmo muito mais velha, ela ainda parece com quem ela foi na juventude. Seja através de exercícios, plásticas ou genética, a passagem do tempo deixou poucas marcas visíveis na sua aparência. Digo na aparência e não no corpo porque, ao olhar essas fotos, ninguém se pergunta do preço, das dores ou da saúde. Menos ainda em mudanças de personalidade ou expressão artística. Estamos falando apenas da fachada.

Gosto de pensar que homens e mulheres têm direito à sexualidade e beleza, em qualquer idade. Mas não gosto que sexualidade e beleza estejam ligados sempre à manutenção da juventude. Ou que sexualidade e beleza tenham primazia sobre todas as outras facetas da vida. O tempo nos afasta de quem somos quando temos vinte anos, no corpo e na alma. E essa mudança só é ruim porque atualmente classificamos assim. Não discutirmos a biografia por detrás do Antes e Depois é muito revelador – não importa se o artista melhorou ou sumiu, se foi preso ou lançou disco novo, o chamariz é a feiura. Perdemos o respeito pela experiência e vemos na velhice apenas decadência. As características associadas à idade – paciência, experiência, parcimônia, sabedoria – estão desvalorizadas, então não é à toa que não queremos e não sabemos envelhecer. Em nome do ideal de aparência dos vinte anos, estamos nos encaminhando para uma cobrança de desempenho e luta constantes contra o próprio corpo. Negar a passagem do tempo é negar justamente o que há de mais básico e infalível da vida orgânica.

Belo ou não, o corpo cansa. Enruga, cai, fica mais lento, dói, demora para se recuperar. Há uma fase da vida em que os anos atrás são muito mais vastos do que os que estão pela frente, em que há muito mais o que ser relembrado do que ser sonhado. Mesmo num corpo rejuvenescido e emplasticado, quem está dentro da pele sabe que não é mais o mesmo. Que se tenha o direito de cansar, de diminuir, de envelhecer por dentro e por fora, de ser apenas o que se é. Madonna, Brad Pitt, Tina Turner, eu, você – não somos os mesmos. Eu acho bom, estranho seria se ainda fôssemos. Que os meus vinte anos não sejam meu molde físico, tal como não é o meu molde psicológico.

10 thoughts on “Madonna, Tina Turner e o envelhecimento

  1. Caminhante, como sempre uma grande análise. Sinto que a agressão aqui é ao direito de envelhecer.
    Mas tenho me sentido bastante incomodado quando a liberdade de se exibir o corpo, as formas, é vinculada a questão do sexismo.
    Parece-me que é bem menos evocada no cotidiano sexualizado de clipes, editoriais e etc., este universo em que praticamente é exigida a exibição de corpos perfeitos (masculinos e femininos) para o sucesso. Aparentemente a forma física é mais relevante que o talento artístico propriamente dito (para ficar só nessa seara).
    Quando se quebra a regra da idade ou do ambiente a coisa ganha nova dimensão. Mas, pessoalmente, penso que quando alguém se veste como Madonna neste evento, independente de sua idade, está querendo apenas exibir sua forma física. Parece-me realmente um tanto vulgar.
    Acho que o barulho é só por Madonna não precisar disso para repercutir (apesar de estar batendo um bolão), até porque se fosse o Brad Pitt a mostrar as bochechas das nádegas pela transparências das calças, veríamos um escândalo de proporções mais interessantes.

    • Obrigada, Leonardo.
      Também acho essa questão bem complexa. Concordo contigo que o corpo “perfeito” acaba sendo uma cobrança e um critério para qualquer forma de exibição e arte. O vestido em questão, independente de quem use, é horrível. Aí fica parecendo que se a gente não aplaude o conjunto inteiro (Madonna + idade + vestido) está sendo preconceituoso. Também vi justificativas no sentido de “Madonna pode porque está linda”, e não acho que seja isso que ela esteja reivindicando.

      • Só pra dar um exemplo real. Quando fotos do Putin posando de macho man foram divulgadas, choveram comentários pejorativos.

        • É verdade. Fora dos poucos papéis que esperamos dos velhos – avós, sábios ou doentes -, tudo nos parece indecente e/ou ridículo.

  2. Bem,confesso que não entendi aonde você quer ou quis chegar com o seu comentário.Mas,na verdade,não importa.O que importa é que devemos respeitar qualquer decisão que seja tomada por outrem,ainda que diametralmente oposta a nossa.Eu concordo com a cantora em tudo e vejo em mim o efeito que a combinação de exercícios físicos de força mais exercícios aeróbicos e ainda um permanente estado de inquietação mental,com variadas atividades acadêmicas e estudos de casos avançados em engenharia mecânica,combinado com uma alimentação bastante regrada e natural e bastante farta também;vejo em minha pessoa o resultado de todo esse processo,toda essa catarse e te adianto que é incrível o somatório de todas essas variantes.Tenho 50 anos mas possuo uma aparência que varia entre os 38 e os 40 anos,conforme o feedback que recebo diariamente.Tenho um irmão mais velho com um ano de diferença e a minha presença física comparada com a dele é gigantescamente desproporcional.E veja bem,sou um empresário,que assim como todos os outros desse país,vivo situações diárias de variado estresse e quando por algum motivo divino alguma bonança ocorre,meu estado de espírito se anima e minha aparência cai lá para os 34,35 anos.Certa vez assistindo a um video clipe do extinto Charlie Brown Júnior,vi escrito em uma parede,escondida e quase imperceptível,uma inscrição que,se não mudou,provocou profundas reflexões em minha pessoa: “quem tem coragem de ser jovem para sempre”.Não era uma pergunta,era uma proposição.
    Eu tenho e é isso que por vezes causa confusão em algumas pessoas.As vezes,na academia,quando estou no meio da minha sessão,percebo que minha dedicação incomoda algumas almas,fazendo com que alguns conflitos ocorram,principalmente os de ordem presencial.Mas o que eles não entendem é que a minha “luta” é contra mim mesmo,na incessante batalha de vencer as minhas limitações.E após vencê-las,parafraseando a genial tirada de marketing,não têm preço que pague a satisfação e a alegria de romper com meus limites.
    Portanto,acredito fielmente que a idade cronológica é só um número e que quem se propor a continuamente se manter ativo e focado,desfrutando a alegria de poder viver a plenitude do seu poder mental,físico e espiritual;esses terão descoberto a fonte da juventude eterna.

  3. Eu acredito em uma frase: quem tem coragem de ser jovem para sempre.
    Eu tenho e vou chegar aos meus 100 anos sendo um jovem física,mental e espiritualmente.Como falo para minha namorada : ” vou chegar lá,fortão bonitão e espadaço”.

  4. Entendo perfeitamente o ponto de vista da autora. É indiscutível que Madonna pode se vestir como bem entender. Mas, vejo como “prisão” e não “liberdade” a busca da eterna juventude. Essa batalha contra o tempo acaba se tornando o centro da vida da pessoa. Ainda assim, na sociedade em que vivemos, essa atitude é melhor vista que lutar pelo direito de envelhecer. Particularmente, prefiro olhar o belo rosto da Charlotte Rampling com suas rugas do que o efeito “gata” (olhos puxados e sobrancelhas elevadas) que Madonna exibe depois de várias plásticas e uso de botox. O principal problema, a meu ver, é que os rostos ficam padronizados. Há centenas de mulheres com a mesma cara no showbiz! E o pior:chega um momento em que não conseguem parar ( nem as plástica, nem o tempo…)e acabam como a Goldie Hawn, um pastiche de si mesma. Aliás, uma atriz jamais deveria eliminar linhas de expressão… Bem, isso não significa que não se deva cuidar da pele, dos dentes, dos cabelos e tentar ficar o melhor possível.
    Mas, como disse Jeanne Moureau “as rugas do meu rosto me custaram muitos anos de vida e sofrimentos para consegui-las. Não vou agora retirá-las”. Afora isso, que cada um viva como quiser…

    • Emma, também vejo como prisão. No texto: “não gosto que sexualidade e beleza estejam ligados sempre à manutenção da juventude. Ou que sexualidade e beleza tenham primazia sobre todas as outras facetas da vida. “

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