Ubik, de Philip K. Dick

Saber que Philip K, Dick era um escritor bastante adaptado para o cinema, que dele são Blade Runner e o Vingador do Futuro, ao invés de me animar a ler deram aquela preguiça, a mesma que a gente se vê tendo com Jorge Amado: se eu já vi na TV, já sei o que acontece, então vou dedicar o meu tempo lendo algo diferente. Mas como sou fã de ficção científica, foi se tornando obrigatório para mim ler PKD. Peguei Ubik sem ter a menor ideia do que se tratava, apenas pela capa, que dizia: na lista dos cem melhores romances em língua inglesa da Time. E sabia que não tinha virado filme.

Refletindo, Pat disse:

-Parece uma coisa tão… negativa. Eu não faço nada. Não faço os objetos mexerem, não transformo pedras em pão, nem dou a luz sem fecundação ou reverto processos patológicos em pessoas doentes. Nem leio mente. Nem vejo o futuro, nenhum talento comum do tipo. Só anulo a habilidade de outra pessoa. Parece… – Ela gesticulou. -Bestificante.

-Como fator de sobrevivência da raça humana – explicou Joe – , é tão útil quanto os talentos psi. Especialmente para nós, Padrões. O fatos antipsi é uma restauração natural do equilíbrio ecológico. Um inseto aprende a voar, então outro aprende a construir uma teia para prendê-lo. Isso é o mesmo que não saber voar? Os mariscos desenvolveram conchas duras para se protegerem. Portanto, pássaros aprenderam a voar com o marisco para o alto e largá-lo numa rocha. Nesse sentido, você é uma forma de vida predadora para os Psis, e os Psis são formas de vida que têm como presa os Padrões. Isso faz de você uma amiga da classe dos Padrões. Equilíbrio, o ciclo completo, predador e presa. Parece ser um sistema eterno, e, francamente, não vejo como poderia ser melhorado. (p.33-34)

É um livro perturbador. Primeiro porque, como em toda ficção científica, a gente se vê num mundo diferente e se apega nos poucos indícios que o autor nos dá – fechaduras que exigem 5 centavos para abrir, mortos que mantém a consciência por sistemas de meia vida, viagens a longa distância feitas com facilidade – para entender no que aquele mundo difere do nosso. PKD localiza esse livro na década de 90, mas obviamente ela não é os anos 90 que nós vivemos. Estamos ainda nos acostumando com uma guerra entre talentos de espionagem entre empresas, feitas por pessoas com capacidade de ler pensamentos e influenciar decisões, quando surge uma moça com um talento difícil de entender e que modifica o passado. Depois de um acontecimento chave, toda realidade em torno do protagonista – que também não é claro logo nas primeiras páginas – deixa de fazer sentido. A moça e seu talento misterioso têm algo a ver com isso? O acontecimento chave alterou a relação espaço/tempo? Os fatos envolvem apenas os personagens ou é um acontecimento de escala global? Parece difícil que o autor consiga dar um final satisfatório a tantas questões e ele dá. Na verdade, mais de um, as informações parecem surgir como caixas dentro de caixas. Não tem como não terminar o livro rendido à mente de Dick: o sujeito era um gênio.

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