Extinção, de Thomas Bernhard

Embora tenha amado de paixão Extinção e esteja num caso de amor com Thomas Bernhard, quando aquela amiga me viu lendo o livro e me perguntou do que se tratava, eu fiquei constrangida. Ela é uma das pessoas que eu conheço que tem a vida familiar mais sólida e satisfatória e um livro e um autor que se dedica a falar mal da própria família da forma como Bernhard faz não é para qualquer leitor. Mesmo para mim ele não foi recomendado com entusiasmo. Além dessa característica que citei, à medida que Bernhard foi amadurecendo (tenho aqui em mãos Perturbação, o segundo romance dele), ele foi se aperfeiçoando no fluxo de pensamentos e com isso abandonando os diálogos e as divisões de parágrafos. Extinção, seu último romance, tem apenas dois longos parágrafos, que são as duas partes do livro.

Meu relato nada mais é a não ser uma extinção, dissera a Gambetti. Meu relato simplesmente extingue Wolfseeg. Até cerca das onze fiquei com Gambetti na Piazza del Popolo, disse comigo observando as fotos sobre minha escrivaninha. Todos nós carregamos uma Wolfsegg conosco e temos vontade de extingui-la para nossa salvação, ao querermos pô-la por escrito, queremos aniquila-la, extingui-la. Mas a maior parte do tempo não temos força para uma tal extinção. Mas provavelmente agora seja o momento. Estou na idade certa, dissera a Gambetti, na idade ideal para um tal propósito. Meu apartamento na Piazza Minerva, dissera a Gambetti, na penumbra as cortinas quase todas baixadas, para ser deixado em paz, para estar seguro da luz romana e começar o trabalho. O que me impede, dissera a Gambetti, de começar nesse instante? Mas logo em seguida: acreditamos poder dar início a um tal propósito e no entanto não estamos em condições para tanto, tudo está sempre contra nós e contra um tal propósito, assim continuamos a adiá-lo e nunca arranjamos tempo, assim tantos trabalhos intelectuais que deviam ser escritos não são escritos, tantos rascunhos que temos o tempo inteiro, anos a fio, décadas a fio, em nossa cabeça continuam em nossa cabeça. Alegamos todas as razões possíveis para não ter que começar um tal trabalho, desencavamos todos os pretextos possíveis, invocamos todos os espíritos possíveis, que só podem ser todos espíritos malignos, para não ter de começar quando devíamos começar. Essa é a tragédia daquele que quer escrever, que continue sempre a invocar quem impede a sua escrita, dissera a Gambetti, uma tragédia que ao mesmo tempo é uma perfeita e pérfida comédia. (p.147-148)

O enredo em si é simples: após voltar de uma visita à família, na Áustria, o protagonista recebe um telegrama das irmãs avisando que seus pais e seu irmão mais velho morreram num acidente de carro. A partir daí, num diálogo imaginário com seu aluno Gambetti, ele reavalia seu passado, as péssimas relações com sua família e a forma como influenciaram quem ele é. A primeira parte do livro é inteiramente dedicada à primeira noite e o impacto imediato da notícia. Fico meio sem palavras para descrever esse livro, de tão bem escrito. Não sou a maior fã de fluxo de pensamentos, mas o de Bernhard é feito com tal maestria que simplesmente não nos entediamos, não encontramos emenda e não desejamos que pare. É contraditório e assumidamente exagerado. É possível ouvir a voz do protagonista, mergulhar no seu mundo interior e achar que realmente aquilo é uma longa reflexão. Ele pensa muito e “fala” muito, retorna aos mesmos assuntos, mas de formas diferentes e enriquecido de outras informações. Ao rever sua vida, novos personagens vão entrando, as várias ações vão se explicando e formando um quadro cada vez mais completo de cada um.  A família é retratada com crueza e depois o próprio protagonista entende que não é bem assim, e que ao mesmo tempo o é, sempre e em todas as famílias; ao assumir o amor e o ódio, as mutilações e a incompreensão causadas pelo convívio, sem se corrigir ou esconder, ele usa o exagero como método para chegar à verdade. Quando chegamos na segunda parte do livro e a Wolfseeg, conhecemos intimamente aquela propriedade, a relação entre as pessoas e o significado de cada coisa; então,cada passo dele é um passo nosso e queremos saber até onde é possível ir para se extinguir uma Wolfseeg.

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