O Linguado, de Günter Grass

As pessoas te perguntarão que Bíblia é essa que você leva para cima e para baixo quando estiver lendo O Linguado e você se verá obrigado a contar, em poucas palavras, do que se trata o livro. E isso será meio difícil, cada resposta sairá de uma maneira. Nenhuma delas poderá deixar de dizer que é um livro sobre um linguado – um peixe mesmo – que ajuda os homens ao longo da história a se libertar do domínio feminino. Pra alguns você citará que na idade das pedras as mulheres antes era trisseúdas, ou seja, tinham três seios, e, assim, “aos homens nada faltava”. Outras vezes vai contar que se fala de comida o tempo todo, como se fosse um livro culinário, o que vai deixar o leitor de receitas animado, mas você vai alertar que as receitas falam de cabeças cozinhadas dentro de cabeças e outras combinações difíceis de experimentar. Se você disser que o protagonista/narrador lembra de suas diversas vidas e mulheres, precisará esclarecer que não é um livro reencarnacionista. O Linguado é dividido pelos meses de gestação e há também um tribunal feminista, mas eu juro que o que melhor descreve essa ficção é dizer que é uma Fábula. Fábula, aquele gênero que costuma ser construído ao longo do tempo, oralmente, e tem um formato fácil de reconhecer e quase impossível para um autor contemporâneo imaginar, sentar e escrever de maneira convincente. E assim é.

E quem ainda quiser cozinhar como a gorda Gret e tiver um motivo parecido ao dela, quando eu, o seu companheiro de cama na época, não sentia mais vontade, não queria mais repartir a sua carne, mas de rabo mole me perguntava apenas pelo sentido de tudo aquilo e vivia jogado por aí, preguiçosamente por aí, que se atenha à seguinte receita.

Tome doze a dezessete cristas de galo, coloque-as de molho em leite morno até que a pele das cristas se deixe puxar facilmente, ponha de molho as cristas em água fria para que o seu vermelho descore e fique surpreendentemente branco, depois as salpique com limão, como a gorda Gret fazia com suco de pepino, passe as cristas em ovo batido, frite-as ligeiramente de ambos os lados e siva-as sobre rodelas de aipo estufadas na manteiga a qualquer mocinho, que, como eu naquele tempo, tenha dificuldade de ficar teso, de ser tão másculo como o galo, mesmo que tenha motivos bastantes para deixar a cabecinha cair. Pois fácil não era viver à sua sombra: a gorda Gret não dava nada por um rabo mole. Sempre me endireitava o pilão. Vale a pena imitar suas receitas. (p.280)

Assim como O Tambor (outro livro de Günter Grass), aqui também tem sexo e escatologia, mas sem o bizarro; por outro lado, o humor também não é tão exuberante. O Linguado é um daqueles livros que eu classifico de “aproveitar a viagem”, que a graça está em se deixar guiar pelo universo do autor – aprecie as soluções, as mudanças, as loucuras; esqueça o final porque ele virá por si só. Logo no início a lista de todas as Ilsebill e seus pares intimida, dá a impressão de que teremos que sempre retornar a lista para entender o que se passa. Bobagem; o narrador vai e volta o tempo todo, nas histórias e nos poemas, e gera um efeito acumulativo onde uma história ajuda a explicar a outra. Eles passeiam por todas as épocas, são filhos e netos de si mesmos; a alimentação ora é de papa de glicéria, ou cheia de pimentas, ou uma ode à batata – ou não se alimentam de nada, porque a fome, a peste e as penitências também fazem parte. As vidas dos personagens conta um pouco da história caxúbia (região da Polônia que Grass transforma num mundo) e as mudanças nos costumes. É hilária a maneira como se fala das funções corporais com tanta naturalidade, as metáforas para descrever o sexo, os peidos, as fezes, os cus. O Linguado é uma doce e longa reflexão sobre o amor e relacionamentos. Como mulher, achei muito interessante ler na fala masculina – racional no Linguado e emocional no narrador – a maneira como eles se sentem impactados por nós, no que para eles é um grande poder: as nossas “covinhas”, o preparo da comida, o poder da natureza ligado à magia e à própria concepção. No embate para tornar o mundo patriarcal, livre da passividade feliz oferecida pelo seio, o Linguado reconhece nas mulheres a capacidade de transformar as desvantagens em formas renovadas de poder. Ao mesmo tempo, o tribunal feminista aponta que à mulher foi destituição da atuação da mulher na esfera pública, os desejos femininos ficaram submetidos às necessidades masculinas e o discurso de amor recai numa exigência de sacrifícios constantes – e nesse momento, a fala delas também é a minha fala. Fico com vontade de colar passagens ótimas (e longas) aqui, que falam desse cotidiano de lidar com um outro, desejado e desejante, de ganhar perdendo e perder ganhando, os arranjos constantes para fazer uma relação (que é um terceiro ser e pode gerar um fisicamente) funcionar. O próprio embate é uma demonstração de que não há respostas fáceis. Como eu disse antes sobre o livro, e que de certa forma é o que o livro nos diz sobre a vida: há de se aproveitar a viagem.

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