The Crown

Alerta de spoiler: este texto falará livremente sobre fatos de toda primeira temporada de The Crown. Caso não goste de spoiler e prefira descobrir as coisas à medida que assiste a série, abandone já e volte apenas depois que terminar.

A discreta abertura de The Crown me parece resumir, em imagem, aquilo de que a série trata. A abertura começa com o ouro derretido, que adquire formas geométricas estáveis para ser transformado em coroa. A série, sobre a Rainha Elisabeth II, mostra a gradual transformação de uma mulher comum em rainha. Essa transformação é mostrada em dois caminhos complementares: a história linear da vida de Elisabeth pouco tempo antes da coroação, com a morte de seu pai, o rei George VI e os fashbacks da infância de Elisabeth, onde mostra o quanto criação dela foi moldada para a futura possibilidade de usar a coroa após a abdicação do trono por Edward, seu tio mais velho. É também de Edward a fala que melhor resume o conflito entre o transitório e humano frente à coroa:

– Mas há também o outro grande amor da minha vida: a coroa. E proteger essa coroa. E imagino que você esteja numa posição difícil agora, dividida ao meio. Uma metade é irmã, a outra metade é rainha. Uma criatura híbrida, estranha, como uma esfinge ou Gamayum. Como eu sou Ganesha ou o Minotauro. Somos pessoas pela metade, arrancadas das páginas de alguma mitologia bizarra, com dois lados dentro de nós, o humano e a coroa, numa terrível guerra civil, que não tem fim e que deteriora todas as nossas interações humanas, como irmão, marido, irmã, esposa, mãe. Eu entendo a agonia e estou aqui para lhe dizer que ela jamais a deixará. (temporada 01, episódio 10 – Gloriana)

O centro é Elisabeth, mas a Coroa está presente em cada detalhe da vida da família real e tem exigências que não poupam ninguém que entre em contato com ela. Embora Elisabeth tenha se casado com o homem que escolheu, logo nas primeiras cenas descobrimos que, para isso, Philip precisa abrir mão das cidadanias grega e dinamarquesa, se converteu ao anglicanismo e adotou o sobrenome Mountbatten para virar cidadão britânico. Quando Elisabeth se torna rainha, os problema já começam quando ambos precisam abandonar a casa que vivam; Philip deixa de ter uma carreira, tem que se conformar a abrir mão do direito de dar seu sobrenome aos seus filhos – Charles e Ana – e precisou se ajoelhar frente à esposa na sua cerimônia de coroação, fatos que para ele diminuíam sua “virilidade”. O papel cada vez mais acessório e de “cortador de fita” de Philip tem o irritam cada vez mais, e até mesmo seu desejo de aprender a pilotar um avião quase é impedido pelo Parlamento – é estranho saber que Churchil, aquele Churchil, se deu ao trabalho de discutir vivamente o assunto . Mais tarde, quando Philip parece se conformar com a vida de nobre desocupado e passa a viver em meio a festas e falta de explicações, o casamento fica cada dia mais comprometido. Fica sempre a pergunta do quanto isso seria inevitável ou não se eles fossem apenas um casal, e não a rainha e o Duque de Edimburgo.

A série, sem precisar recorrer a sentimentalismos, faz com que o público simpatize cada vez mais com Elisabeth. Quase não a vemos interagir com os filhos, ela máximo sorri ao olhar para eles brincando com o pai ou tutores. Não há nas suas falas nada de apaixonado ou espirituoso, características que parecem estar restritas à sua irmã Margaret. A família inteira parece ser feita de gelo e rancor, como nas picuinhas incansáveis a Edward e a esposa, que nem ao menos é recebida no palácio. Porém, vemos em Elisabeth uma mulher sensata, que procura fazer o seu melhor frente a uma tarefa maior do que qualquer pessoa. A consciência que ela tem de suas próprias limitações chega a ser enternecedora. Ela confessa se sentir burra diante de chefes de estado, e que precisa desviar a conversa para cachorros e cavalos para se sair bem. Sua educação a versou apenas na tarefa de prepará-la para governar, tarefa que exige que ela conheça a constituição e tenha, como maior qualidade, a capacidade de ficar quieta (isso lhe é dito sem a menor ironia). Para sanar suas falhas, ela contrata para si mesma um tutor. Vemos a dificuldade daquela mulher jovem que tem a tarefa de governar em meio a informações muitas vezes incompletas e podendo apelar quase que tão somente ao próprio bom senso. Um dos momentos que simbolizam quando ela está começando a se tornar realmente uma rainha, é quando ela dá uma bronca em Churchil, a quem tanto respeita, tal como uma mãe dando uma bronca.

Mas, ao mesmo tempo que ela é a autoridade máxima por ser uma rainha, as convenções a que Elisabeth está amarrada na tarefa de manter a Coroa, às vezes fazem com que o poder real pareça com poder nenhum. Como instituição, a Coroa precisa sobreviver e sua continuidade está principalmente ligada à perpetuação das regras:

Diálogo de Elisabeth sobre a escolha de seu secretário pessoal:
– Há um modo de fazer as coisas aqui, uma ordem desenvolvida por gerações. E a individualidade, na casa Windsor, qualquer desvio no modo de se fazer as coisas não deve ser encorajado. Isso resulta em catástrofes como a abdicação.
– A abdicação do trono e a escolha do meu secretário não têm ligação entre si.
– Eu discordo. Eu servi o seu tio, como sabe, e é nas pequenas coisas que a podridão começa. Se errar uma vez é fácil errar de novo. Se for individualista uma vez, é mais fácil voltar a ser. (temporada 01, episódio 07 – Scientia Potentia Est)

Elisabeth se mostra uma excelente rainha justamente por sua personalidade prudente e até mesmo desinteressante. Quando Margaret assume alguns compromissos públicos em nome da irmã e passa a ser espontânea e espirituosa nas suas declarações, isso se mostra muito prejudicial e Churchil lhe adverte:

– Vossa Majestade, quando aparece num evento público, em funções oficiais, você não é você mesma.(….) E ninguém quer que seja você, só querem que seja.
– Uma estátua, uma coisa?
– A Coroa. É isso que todos foram ver, não a senhora.Quando é você mesma, estraga a ilusão, quebra a magia. (temporada 01, episódio 08 – Orgulho e Alegria)

Sempre que confrontada entre a necessidade daqueles que a cercavam ou a manutenção do trono da Inglaterra, Elisabeth escolhe o segundo. Como consequência, fica cada vez mais solitária. Saber que até mesmo ela, sempre tão sensata, escolheu mal o marido por ter caído da velha falácia de ser atraída pelo bonitão e não o amigo com quem tinha afinidade, e que desde o primeiro momento apoiou o casamento de Margaret apesar de sua posição pública, fazem com que o público entenda um pouco do peso que é representar uma tradição. Acredito que na segunda temporada, muito mais rainha do que ouro, as atitudes dela se tornem tão “corretas” e desumanas que ela perca a simpatia do expectador. Estou curiosa para saber como Lady Di será retratada. No mais, a série tem se mostrado tão fiel que até o príncipe Charles criança se parece com o original.

Eu sou Malala, com Christina Lamb

De uma maneira ou de outra, a gente sabe que existe uma Malala antes de ler o livro e sabe que foi a pessoa mais jovem a receber o Nobel, que ela é muçulmana e luta pela educação de meninas. Quem lê o livro quer conhecer essa história e as autoras do livro – a própria Malala e Christina Lamb – parecem ter uma profunda compreensão do que essa menina representa. Eu sou Malala oferece ao leitor uma descrição sincera e ampla, que contempla Malala no contexto da família, dos amigos e da política. De forma inteligente e interessante, Malala é colocada com uma menina por um lado comum, que gosta de arrumar o cabelo e brincar com as amigas, e por outro bastante estimulada por um pai educador, idealista e muito atuante, que oferece a sua filha muito mais do que seria esperado – ao que ela corresponde amplamente, e pai e filha se tornam representantes da mesma luta. O livro nos oferece o ponto de vista paquistanês dos ataques de onze de setembro, o crescimento do Talibã, a ambiguidade interna com os EUA e o que leva uma adolescente a  “merecer” um tiro na cabeça.

Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. O primo de meu pai, Jehan Sher Khan Yousafzai, foi um dos poucos a nos visitar para celebrar meu nascimento e até mesmo nos deu uma boa soma em dinheiro. Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas da descendência masculina. Meu pai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu “Malala”. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: “Sei que há algo diferente nessa criança”. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas no meu berço, algo reservado somente aos meninos. (p.21-22)

Também eu não queria me render. Mas nos aproximávamos do prazo determinado pelo Talibã para que as meninas deixasse de ir à escola. Como impedir 50 mil meninas de ir à escola em pleno século XXI? Eu não parava de pensar – ou desejar – que algo mudaria e que as escolas permaneceriam abertas. Mas nosso prazo estava se esgotando. Tínhamos determinado que  sinal da Khushal seria o último a parar de tocar. A sra. Maryam até mesmo se casara, para poder ficar no Swat. Sua família havia se mudado para Karachi por causa do conflito e ela não podia morar sozinha. (p. 168)

Todos recitamos surahs do Corão e uma oração especial para proteger nossos queridos lares e nossa querida escola. Então o pai de Safina colocou o pé no acelerador e lá fomos nós, do pequeno mundo de nossas rua, casa e escola rumo ao desconhecido. Não sabíamos se algum dia voltaríamos a nossa cidade. Tínhamos visto fotos de como o Exército acabara com Bajaur, numa operação contra os talibãs, e pensamos que tudo aquilo que conhecíamos seria destruído.

As ruas estavam repletas. Eu nunca as vira tão movimentadas. Havia carros por toda parte, bem como riquixás, carroças puxadas por mulas e caminhões, todos lotados de pessoas com seus pertences. Havia até mesmo motos com famílias inteiras balançando-se sobre elas. Milhares de pessoas caminhavam apenas com a roupa do corpo. Parecia que todo vale estava em fuga. Diz-se que os pachtuns descendem de uma das tribos perdidas de Israel, e meu pai comentou: “É como se fôssemos israelistas fugindo do Egito, só que não temos nenhum Moisés para nos guiar”. Poucas pessoas sabiam para onde ir; a maioria apenas sabia que tinha de partir. Foi o maior êxodo da história pachtum. (p. 188-189)

Numa perspectiva mais literária, eu diria que Malala é um livro sobre perder e reconstruir o próprio lar; a perda de Malala, das outras meninas e dos paquistaneses em geral é tão profunda que é preciso construir um mundo novo, porque o lugar que amavam foi destruído pela violência, ignorância e disputas pelo poder. A história é tocante por ser muito próxima: os Yousafzai são uma família que querem nada mais do que o direito à felicidade e oferecer do melhor aos seus. Ao conhecer o contexto político, vemos os acontecimentos exteriores se avolumarem lá fora enquanto eles, pessoas comuns, nada podem fazer a respeito. Quando a violência se torna generalizada, Malala e os outros são engolidos, sua forma de viver é colocada em risco e preservar o mínimo de dignidade passa a ser um posicionamento político. Vemos as fotos da família no meio do livro, sabemos que agora eles vivem na Inglaterra, e para surpresa e choque etnocêntrico do leitor, sair do campo para ter acesso ao ápice da civilização não foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Malala já famosa e ganhadora de prêmios fala do tédio na Inglaterra, de um pai longe do que construiu, de uma mãe sem as amigas, uma escola onde não se sente amada. Há sim conforto e segurança, mas falta a cultura acolhedora, as montanhas e as flores, o pertencimento. Ser inglês ou ocidental não é o mundo ideal, o mundo ideal é um Paquistão mais justo. Como ela mesma conclui no fim do livro: “Eu sou Malala. Meu mundo mudou, eu não.”