Judas, Amós Oz

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Um ex-estudante sem perspectivas que, para conversar com um velho, recebe teto, comida e um pequeno salário de uma mulher mais velha que quase nunca aparece. A ação do livro se passa quase toda na casa, na água-furtada que o rapaz está instalado, no cômodo onde conversa com o velho, na cozinha onde se serve de sopas e sanduíches. E com tão poucos elementos, Amós Oz escreve um livro apaixonante, transforma o encontro dos três personagens naqueles momentos preciosos definidores da vida e que de antemão sabemos que não pode durar. Judas é o nome do livro porque é sobre a visão de Jesus para os judeus a pesquisa que Shmuel desenvolvia antes de largar os estudos. Através de Jesus ele chega a Judas, e com Judas os judeus, e com os judeus a formação do Estado de Israel, e com o Estado de Israel a vida do velho e da mulher, o preço que cada um deles pagou e o resultado dos seus sonhos desfeitos. No final, Judas nos parece uma metáfora de todos os personagens – contraditórios, condenados e, se olharmos mais de perto, talvez os únicos que se mantiveram fiéis.

Quando o mundo novo sair vitorioso, quando os seres-humanos forem todos honestos e simples e produtivos e fortes e iguais e eretos, com certeza será abolido por lei o direito de existência de pessoas distorcidas como eu, que são do grupo dos que comem e nada fazem e ainda enfeiam tudo com todo tipo de graçolas e brincadeiras sem fim. [16.]

É difícil descrever a maneira como Amós Oz domina a escrita, como ele chega ao ponto com poucas palavras, como consegue ser rápido ou se estender e transportar o leitor com uma facilidade espantosa. A sua capacidade de descrever as pessoas é uma das melhores que eu já li. Não apenas as descrições físicas, como os cabelos revoltos de Shmuel, a profundidade da fenda entre a boca e o nariz de Atalia, o rosto talhado em pedra de Wald, mas também na escolha do detalhe, que para uns é a maneira de andar, em outros no tipo de expressão que repete, num terceiro a forma como segura os objetos. Oz coloca a pessoa na nossa frente, e nos sentimos lá, com frio na umidade dos cômodos simples onde um homem velho, ranzinza e muito culto fala sem parar. Há também, em Oz, uma distância entre a decisão e a ação que fica bastante realista para o leitor e é muito difícil descrever em prosa; tal como na vida real, a decisão fica misturada aos sentimentos, outros pensamentos, o que está acontecendo no entorno, à ação de outros personagens. A decisão não se forma na mente e sai como uma flecha, ao contrário – seus personagens se envolvem e se perdem, não tem propósito definido, apenas necessidade de se sentirem bem e uma vaga ideia de como conseguir isso. Às vezes parece que nem vão conseguir. Para conseguir, rompem laços ou nem deixam que eles se formem, vão embora sem dizer adeus, declaram o que sentem muito mais com gestos do que com palavras. O leitor é tomado por um grande sentimento de doçura e nem sabe direito de onde ela vem.

Shmuel sentiu que tinha de despertar o interesse dela, entretê-la, mas a visão da ruela deserta sobre a qual pairavam varais de secar roupa e varandas vazias, e que um lampião solitário iluminava com uma luz turva, lhe provocou uma sensação opressiva e ele não encontrou palavras. Apertou de encontro às costelas o braço que ela cruzara com o seu, como a lhe prometer que tudo ainda estava em aberto. Ele agora sabia que ela o tinha sob seu domínio e que podia levá-lo a fazer quase tudo o que lhe pedisse. Mas não sabia como começar a conversa que no íntimo ele já mantinha com ela há semanas. [21.]

Afora tudo o que eu citei, a discussão sobre Judas Iscariotes, os judeus e o Estado de Israel já valeriam a leitura. Há um paralelo evidente entre a figura de Judas e o pai de Atalia, um politico envolvido na criação do Estado de Israel e que se opõe a seus pares com relação a criação do Estado e o conflito com os árabes. O Judas que Shmuel resgata, ao contrário do que ficou marcado na história cristã, é o mais fervoroso dos discípulos de Jesus, o único que não suporta viver num mundo sem ele, o que o levou a ser conhecido no lugar de ser apenas mais um andarilho milagreiro da sua época. Em ambos – o discípulo e o político – vemos que por detrás da traição pode haver a dedicação mais idealista e extremada, um ato de coragem muito maior do que aquele que renega três vezes ou que vota com a maioria. Nos passeios pela cidade, nas perspectivas que se apresentam a um Shmuel sem dinheiro e, principalmente, nas histórias pessoais do velho e Atalia, vemos o que é estar num país que, ao mesmo tempo que é a concretização de um sonho, vive uma guerra infinita. A guerra, Israel e ser judeu cobram preços individuais, às vezes muito altos.

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