Um episódio heautoscópico

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mente assombradaO Mente Assombrada, de Oliver Sacks, não é nem de longe um dos melhores livros dele. Os capítulos se propõem a descrever diversos tipos de alucinações, demonstrando que elas são mais comuns do que se pensa e subnotificadas porque tendemos a acreditar que são sinais de loucura. Algumas são tão benignas e singelas como a impressão de ouvir o telefone tocar quando se está acordando, e outras podem mostrar cenas complexas de batalhas ou monstros piores do que os de qualquer filme já criado. Mas, ao contrário de livros mais envolventes como Antropólogo em Marte e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, o leitor não é levado a um envolvimento emocional com os casos; à exceção de um capítulo que trata da sua própria experiência com drogas, o livro é uma coleção de exemplos impessoais. Curiosos, mas ainda assim impessoais. E o grande atrativo dos livros do Dr. Sacks sempre foi a sua capacidade de nos envolver com seus personagens/pacientes.O livro acaba se tornando uma coletânea de alucinações e informações sobre o cérebro.

O episódio que coloco aqui está no Capítulo 14: Doppelgängersalucinação consigo mesmo e é tão interessante que parece uma história de ficção. É de um rapaz que sofria de epilepsia do lobo temporal:

O episódio heautoscópico ocorreu pouco antes da internação. O paciente interrompeu sua medicação de fenitoína, tomou vários copos de cerveja, permaneceu na cama todo o dia seguinte, e à noite foi encontrado murmurando, confuso, debaixo de um arbusto quase completamente destruído logo abaixo da janela de seu quarto no terceiro andar. [….]

O paciente fez o seguinte relato sobre o episódio: na respectiva manhã, ele se levantou sentindo tontura. Virou-se e viu a si mesmo ainda deitado na cama. Zangou-se, disse ele, com “aquele cara que eu sabia que era eu mesmo e não queria se levantar, correndo o risco de se atrasar para o trabalho”. Ele tentou acordar o corpo na cama, primeiro gritando, depois sacudindo-o e por fim pulando repetidamente sobre seu alter ego na cama. O corpo deitado não reagiu. Só então o paciente começou a se sentir intrigado com sua dupla existência, e foi ficando cada vez mais assustado por não ser mais capaz de saber qual dos dois era ele na realidade. Várias vezes a sua noção do próprio corpo transferiu-se daquele que estava em pé para o que ainda jazia na cama; quando estava no modo deitado, ele se sentia completamente acordado, mas paralisado e com medo da figura que se debruçava sobre ele e o espancava. Sua única intenção era voltar a ser uma só pessoa, e, olhando pela janela (de onde ainda podia ver seu corpo deitado na cama), ele decidiu de repente pular para fora “para pôr fim àquela sensação intolerável de estar dividido em dois”. Ao mesmo tempo, ele esperava que “essa ação desesperada atemorizasse o sujeito na cama e assim o instigasse a se fundir novamente comigo”. Sua lembrança seguinte é de acordar com dor no hospital.

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