A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

Do título, ao tema, aos depoimentos, à forma como as entrevistas foram conduzidas, as perguntas que a autora procurou responder, as questões levantadas – tudo em A guerra não tem rosto de mulher grita a importância da representatividade. Uma das suas entrevista confidencia a Aleksiévitch que passou a noite anterior à entrevista com o marido, que também participou da guerra, estudando livros de história. Ele revisou a história oficial com ela porque “não queria que ela passasse vergonha”. Censores e editoras também passaram muito tempo achando o conteúdo do livro vergonhoso por ser excessivamente “naturalista”, desqualificar heróis, jogava lama na vitória dos aliados. O que há de vergonhoso no relato feminino é a tendência a falar do que é deixado de lado nos grandes feitos heróicos da história, constituído por datas e alta tecnologia e se voltar para o prosaico: mães que uivavam de dor ao se despedir dos filhos nas estações, do horror à cor vermelha por ter visto sangue demais, a resistência quando se precisa matar uma pessoa pela primeira vez. 

Estamos acostumados a pensar que a participação feminina na guerra, no que diz respeito ao trabalho, estava limitada às fábricas e enfermarias. Mas elas também estiveram no front, foram franco-atiradoras, motoristas, tanquistas. A presença delas nunca era indiferente – o trabalho pesado demais para os seus corpos, a necessidade maior de provar que consegue ser útil, o pudor dos homens diante delas. Os homens ora viam nelas filhas, ora o retrato da valentia e pureza, e as punham num lugar especial; estupro de mulheres, ou até mesmo de crianças, estava reservado a outras. Nem todas as paixões de guerra vingavam, às vezes as pessoas se viam cansadas de olhar para aqueles com quem vivenciaram o horror. Em um dos depoimentos, uma disse que a guerra obriga a deixar parte da humanidade de lado e se tornar mais animal, para sobreviver. Muitas falam da guerra como o período que “foram homens”. Com o final da guerra, vinha a difícil tarefa de se readaptar, preconceito – como se pelo fato de terem passado tanto tempo com homens fosse sinônimo de prostituição – , o esquecimento da história oficial.

Certa vez uma mulher que havia sido piloto recusou-se a se encontrar comigo. Por telefone, explicou: “Não posso… não quero lembrar. Passei três anos na guerra. E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita… Quando meu futuro marido me pediu em casamento… Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag. Ele disse: ‘A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo.’ Eu queria chorar. Começar a gritar. Bater nele. Como assim casar? Agora? No meio de tudo isso – casar? No meio da fuligem preta, de tijolos pretos… Olhe para mim… Veja em que estado estou! Primeiro, faça de mim uma mulher! Me dê flores, flerte comigo, me diga palavras bonitas! Eu quero tanto isso! Esperei tanto! Por pouco não bati nele… !ueria bater… Uma de suas bochechas estava queimada, vermelha, e eu vi que ele tinha entendido tudo: desciam lágrimas por essa bochecha. Pelas cicatrizes ainda recentes… E eu mesma não acreditei que estava dizendo: ‘Sim, eu me caso com você’.

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Para além da guerra em si, é um livro terno. Impossível deixar de perceber a pessoa amorosa que fez aquelas entrevistas. Há um trajeto doloroso na busca desses depoimentos, que pareciam nunca ter fim – uma mulher indicava a outra, pessoas escreviam pedindo para ser entrevistas, ou a auto-censura só permitiu que algumas coisas fossem ditas depois da queda da URSS. A autora começa uma “mocinha” que pede para ouvir sobre o horror e  vive a cada entrevista um contato profundo e efêmero. Lembranças que faziam as entrevistadas passarem mal, cair no choro, ter que tomar remédio para o coração – e depois pediam para continuar. “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Mesmo diante da morte e da dor, existe o lado rotineiro da vida, roupas que precisam ser lavadas, vontade de comer bombons, cheiro de casa, a natureza. “Não importa do que as mulheres falassem, até mesmo de morte, sempre se lembravam (sim!) da beleza, que aparecia como uma parte indestrutível da existência”. Apesar de tudo, é também um livro de heroísmo, tal como outros livros de guerra; mas o olhar bondoso da autora e o ineditismo do material que ela colheu também transformam o livro numa reflexão sobre memória, humanidade, vida. 

Depois, mais de uma vez me deparei com essas duas verdades convivendo numa mesma pessoa: a verdade pessoal, relegada à clandestinidade, e a verdade geral, impregnada do espírito do tempo. Do cheiro dos jornais. A primeira raramente consegue ficar de pé diante da segunda. Por exemplo, se no apartamento, além da narradora, estivesse também presente outro tipo de parente ou conhecido, vizinho (especialmente homem), ela seria menos sincera e confidente do que se estivéssemos só as duas. Já se tornava uma conversa pública. Para o expectador. Extrair suas impressões pessoais se tornava tarefa impossível, e eu imediatamente verificava uma rigorosa defesa interna. Um autocontrole. A correção se tornava habitual. E até pude identificar um padrão: quanto mais ouvintes presentes, mais desapaixonado e estéril era o relato. Mais cauteloso em relação ao que manda o figurino. O que era terrível já se tornava grandioso, e o incompreensível e obscuro no ser humano era imediatamente explicável. Eu ia parar no deserto do passado, onde só havia monumentos. Façanhas. Orgulhosas e impenetráveis. [….] Todas as vezes eu ficava estupefata com essa falta de confiança no que é simples e humano, com esse desejo de substituir a vida por um ideal. O que é habitualmente cálido por uma auréola fria.

Eu não conseguia esquecer como havíamos bebido chá daquele jeito caseiro, na cozinha. As duas chorando.

Fui a única a voltar para minha mãe/ posição 1793 de 5468