Tio Tungstênio, de Oliver Sacks

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Oliver Sacks é um médico que foi se tornando escritor e se tornando celebridade. Por não ter começado no mundo literário com a intenção de ser realmente escritor, a trajetória dos livros dele segue uma direção atípica. Embora sempre interessante, os livros dele começam mais técnicos e se libertam cada vez mais; começam falando de outros e depois revelam a biografia. Como acontece com qualquer autor, há livros melhores do que outros, mas no geral dá pra pegar sem medo porque são sempre bem escritos. Se me pedissem uma recomendação, eu diria que Enxaqueca e A Mente Assombrada são péssimos começos por serem muito técnicos, e que Diários de Oaxaca é totalmente fora da curva. Para amar Sacks é preciso lê-lo em ação: comecem com O homem que confundiu sua mulher com um chapéu ou Um antropólogo em marte. Tio Tungstênio, para mim, é meio como um Carl Sagan: leve até aquela criança inteligente e solitária que ama ciência – mesmo que essa criança ainda exista apenas dentro de si.

Por mais fraco que fosse o nosso olfato em comparação com o dos cães – nossa cachorra, Greta, conseguia detectar suas comidas favoritas se abríssemos uma lata no outro extremo da casa -, ainda assim os humanos pareciam possuir um analisador químico no mínimo tão refinado quanto os olhos ou os ouvidos. Não parecia existir uma ordem simples, como a escala de tons musicais ou cores do espectro, mas mesmo assim nosso nariz era admirável porque fazia categorizações que correspondiam, de algum modo, à estrutura básica das moléculas químicas. Todos os halogênios, embora diferentes, tinham odores característicos de halogênio. O clorofórmio cheirava exatamente como o bromofórmio, e tinha um cheiro bem parecido – mas não idêntico ao do tetracloreto de carbono (que era vendido como líquido para lavagem a seco chamado Thawpit). A maioria dos estéres tinha cheiro de fruta; os alcoóis – pelo menos os mais simples – tinham cheiros “alcoólicos” semelhantes, e o mesmo valia para aldeídos e as cetonas.

(Erros e surpresas certamente podiam ocorrer; tio Dave contou-me queo fosgênio, cloreto de carbonila, o terrível gás venenoso usado na Primeira Guerra Mundial, em vez de anunciar-se perigoso emitindo um cheiro característico dos halogênios, tinha um enganoso odor de feno recém-cortado. Esse aroma adocicado e rústico, recendendo aos campos de feno da infância, foi a última sensação que tiveram os soldados envenenados por fosfeno antes de morrer)

8. Fedores e explosões/ Posição 1204 de 4826

 

Para quem cresceu com a imagem do Dr. Sacks como o médico doce de Tempo de Despertar e sua incrível empatia evidenciada nos livros que tratam de casos clínicos, quando ele revela um pouco da vida sempre nos pega um pouco de surpresa. No Mente Assombrada descobrimos que Dr. Sacks já se submeteu a muitas experiências com drogas, até se tornar viciado nelas. No Diário de Oaxaca, sabemos que ele é o tímido que se afasta do grupo para escrever e que ama samambaias. Com o Tio Tungstênio, ele vai ainda mais para trás e fala do seus antecedências familiares: o avô que estimulou o intelecto dos filhos, homens e mulheres; o papel da sua família na popularização das lâmpadas elétricas; a cultura reinante numa casa próspera de um casal de médicos; a chocante perda da idílio quando se afasta dos pais na época da guerra e vai para um colégio interno de crianças judias; a difícil reconstrução de si mesmo e o papel da ciência na sua vida. Sacks reconstrói seu interesse e nos leva à história do desenvolvimento da química, a biografia dos seus pioneiros, o desenvolvimento de princípios e objetos que hoje nos parecem tão “naturais” como se tivessem surgido do ar. Rico de deliciosa cultura enciclopédica, é um livro que consegue ser ao mesmo tempo científico e humano, histórico e biográfico. Recomendo.

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