Fora de série – Outliers, por Malcolm Gladwell

Acho que qualquer pessoa que tenha noção de história ou sociologia não se surpreenderá com a afirmação abaixo:

Os legados culturais são forças poderosas. Possuem raízes profundas e vida longa. Persistem, geração após geração, praticamente intactos, mesmo quando as condições econômicas, sociais e demográficas que os geraram já desapareceram. Eles desempenham um papel tão importante no direcionamento de atitudes e condutas que não podemos entender o mundo sem eles. (Parte II – Legado, cap. 6: Harlan, Kentuck)

O que torna o livro Fora de série – Outliers tão marcante é a maneira como ele consegue fazer esta afirmação se tornar muito próxima – muito mais do que o mero reconhecimento que nosso passado escravocrata ou a maneira como as mulheres eram tratadas tem alguma influência em quem somos hoje. Acredito que a escolha da editora, ao colocar na capa: “descubra por que algumas pessoas têm sucesso e outras não”, tenha sido dar ao leitor a impressão de que se trata de um livro de auto-ajuda, o que para mim foi um ponto negativo. Contrariamente ao gênero auto-ajuda, que bate na tecla do talento e esforço individual, Outliers ressalta contextos que costumam passar ignorados justamente porque a noção de meritocracia nos é tão cara. Logo no primeiro capítulo, o autor nos fala da liga de hóquei no gelo canadense, a melhor liga de hóquei do mundo, com atletas selecionados e classificados de acordo com suas capacidade desde crianças, com patamares de seleção contínuos que levam apenas a habilidade individual, sem qualquer outra influência ligada a renda ou família. E consegue nos provar que um critério aleatório garante o sucesso de algumas crianças e condena outras a jamais conseguirem se tornar profissionais. A descoberta foi feita por um psicólogo que, ao examinar a lista de jogadores profissionais, percebeu que quase todos haviam nascido em janeiro e fevereiro, poucos em março e nenhum dos meses seguintes.

Simplesmente no Canadá a data-limite para se candidatar às ligas de hóquei por idade é de 1º de janeiro. Um menino que faz 20 anos em 2 de janeiro pode, então, jogar com outro que não completará 10 anos antes do final do ano – e, nessa fase da pré-adolescência, uma defasagem de 12 meses representa uma diferença enorme em termos de desenvolvimento físico.

Tratando-se do Canadá, que é o país mais louco por hóquei do mundo, os treinadores começam a selecionar atletas para as equipes de elite – os times de primeira linha – na faixa de 9 a 10 anos. Por isso, tendem a considerar mais talentosos os jogadores maiores e com melhor nível de coordenação, que têm a vantagem daqueles meses extras de maturidade física.

E o que acontece quando um jogador é escolhido pela equipe de elite? Ele recebe treinamento de mais qualidade, seus colegas são melhores, disputa 50 ou 70 partidas por temporada em vez de 20 (como os que são relegados às houses leagues) e pratica duas ou até três vezes mais do que normalmente faria. No princípio, sua vantagem não é tanto possuir uma superioridade nata, mas apenas o fato de ser um pouco mais velho. No entanto, quando chega aos 13 ou 14 anos, por ter se beneficiado de um treinamento de alto nível e daquela prática extra, ele é de fato melhor. (Parte I – Oportunidade/ Capítulo 1 – Efeito Mateus 4.)

Para provar a força dos seus argumentos, o autor pega aqueles que nos parecem os maiores exemplos se pessoas fora de série: Bill Gates, Mozart, QIs altos, self-made-men. O único momento que se pode considerar auto-ajuda nesse livro é o reconhecimento do esforço, a necessidade das ditas 10 mil horas que o cérebro precisa para que alguém seja expert em qualquer atividade. O que vemos nas histórias estudadas é a força do contexto, tanto no mais imediato quanto família, para que escola foi mandado, o que faz nas férias de verão; no mais amplo, qual a região onde vive, a que políticas públicas teve acesso, o que faziam seus ancestrais, como a sua linguagem se organiza. Há a citação de um estudo relativo à importância que se dá à hierarquia, o quanto que um subalterno pode falar livremente com seu superior hierárquico sem que a relação entre os dois fique abalada – costume que dentro de certos contextos, como a colaboração entre pilotos em caso de perigo, pode se revelar fatal. O país que encabeça a lista como promotor de maior distância social é o Brasil. Este dado é apenas uma nota de rodapé no livro, mas fará o leitor daqui pensar… Por ter uma linguagem acessível e ser recheado de exemplos, a vontade de mandar todo mundo Outliers, especialmente o amiguinho que acredita piamente em meritocracia. E esse amiguinho perceberia, no fim da leitura, que é o reconhecimento dos outros fatores é um fardo muito menos pesado do que o mérito.

A balada de Bob Dylan, por Daniel Mark Epstein

Antes de falar da biografia, sou obrigada a falar do meu contexto, que determinou minha busca por ela e minha maneira de lê-la. Acredito que outras pessoas tenham uma história parecida.

Eu não sei inglês. Com os anos até aprendi a me virar, mas nunca fiz curso e não sou fluente. Na minha infância e adolescência, nos anos 80, não havia google e conseguir tradução de música não era instantâneo como hoje. Pra saber o que uma música dizia, eu tinha duas alternativas: a tradução que vinha na contracapa da revista Querida ou a do locutor do rádio, perto da meia noite, que recitava de maneira sexy frase por frase. Então, Bob Dylan, com sua voz analasada e longas frases incompreensíveis, nunca me atraiu. Ao longo da vida, aqui e ali, conheci fãs dele, aprendi a identificar alguns dos seus hits, meu ídolo português Miguel Araújo adora e Dylan ganhou um controvertido Nobel de literatura. Foi crescendo em mim a sensação de que havia ali uma importante referência que empobrecia meu conhecimento musical por estar alheia. Mas o que realmente me levou a Dylan foi Leonard Cohen, que é tão grande e repete, com a maior naturalidade, que se ele é o número 1, Dylan é o número 0, por estar fora de qualquer escala. Este seria o momento da vida que eu deveria acionar um fã de Dylan e passar com ele uma tarde inteira sentada no chão, cercada de LPs, enquanto ele me mostra suas preferidas e me explica cada fase e a revolução que cada música representa. Na ausência de tal pessoa, o jeito foi apelar para o lelivros.love e procurar uma biografia.

Foram os Deuses Protetores dos Ignorantes da Música que me fizeram baixar justo A balada de Bob Dylan: um retrato musical, de Daniel Mark Epstein. Ela era tudo o que eu precisava. Epstein é esse fã apaixonado que acompanhou a carreira de Dylan, pega na mão do leitor e o conduz à sua mesma paixão. Ele estava lá desde o começo, no histórico show de 1963, em Washington, como uma das pessoas mais jovens da platéia. E já ali a gente se pergunta: como é que um menino de 22 anos já tem tanto a dizer e com tanta qualidade?

Eu mencionei o fato de que esta canção, talvez mais do que as outras, me surpreendeu, pois mal podia acreditar que aquele jovem na minha frente a tivesse escrito. Eu não consigo me lembrar agora quando ouvi pela primeira vez “Boots of Spanish Leather” (como “Sweet Betsy from Pike”  ou “I´ve Been Worked on the Railroad”) apesar de estar quase certo que não foi de seus lábios.

Ela havia sido publicada na edição de verão da Sign Out!, em 1963, mas eu não a li imediatamente. Desde que Dylan começou a tocar a canção no início daquele ano, ela havia se espalhado de modo viral de mão em mão e de ouvido a ouvido, como uma balada do séc XIX. Devia haver uns vinte cantores folk como Gil Turner e Carol Hedin movendo-se de cidade em cidade e cantando “Boots of Spanish Leather”, identificando ou não sua fonte. Não havia uma linha na letra que a identificasse como contemporânea; muitos versos soavam atemporais, como pedras gastas e polidas por séculos de água correndo por cima delas. Os amantes da balada, seu compromisso e seu desejo, eram tão autênticos como qualquer fato ou ficção – ao menos desde que os amantes tinham como poder escolher seu destino. Em resumo, a canção soava como se estivesse por aí há gerações, pois tinha todas as qualidades de uma canção que duraria para sempre.

Colado no corpo do violão de Dylan estava um pedaço de papel com uma lista de músicas. Olhando para a lista, em certo momento, ele comentou que havia escrito algumas centenas de canções. Não mencionou isso com orgulho, e sim como se fosse uma riqueza embaraçosa; às vezes, admitiu, não conseguia se lembrar de todas as palavras. “Boots of Spanish Leather” provocou a necessária mudança de humor de drama para romance. Neste momento, Dylan se atrapalhou de modo cômico com o suporte da gaita. A iluminação do palco nunca variava, mas ainda assim o músico sinalizou uma mudança de clima tão forte como se atmosfera tivesse mudado de azul para dourado. (1.Lisner auditorium, 14 de dezembro de 1963)

O livro é dividido em quatro partes, cada uma tendo como base um show histórico de Dylan: Washington D.C. 1963, Madison Square Garden 1974, Tanglewood 1997 e Aberdeen 2009. É uma leitura que avança devagar, porque é irresistível querer ouvir cada música para entender o que está descrito e ter sua própria impressão. Se o leitor tiver tempo e curiosidade, com o pretexto de acompanhar as influências de Dylan, também conhecerá folk, rock e toda cultura que dialogou com Dylan – e, acreditem, foram muitos diálogos. No meio disso, as histórias lendárias ou não, cultivadas pelo próprio Dylan ou não, e uma tentativa de entender a mistura única de um cantor que nunca foi o mais bonito, nem a melhor voz, nem o melhor instrumentista, nem a melhor presença de palco, mas que marcou para sempre a história da música – e até da literatura, de acordo com o Nobel. De alguém que partiu do zero, não apenas sem gostar das músicas como com uma certa resistência, já me flagrei doida pra chegar em casa e tocar uma certa música, aquela, uma bem comprida do Dylan. Acho que o livro cumpriu seu papel.

Um episódio heautoscópico

mente assombradaO Mente Assombrada, de Oliver Sacks, não é nem de longe um dos melhores livros dele. Os capítulos se propõem a descrever diversos tipos de alucinações, demonstrando que elas são mais comuns do que se pensa e subnotificadas porque tendemos a acreditar que são sinais de loucura. Algumas são tão benignas e singelas como a impressão de ouvir o telefone tocar quando se está acordando, e outras podem mostrar cenas complexas de batalhas ou monstros piores do que os de qualquer filme já criado. Mas, ao contrário de livros mais envolventes como Antropólogo em Marte e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, o leitor não é levado a um envolvimento emocional com os casos; à exceção de um capítulo que trata da sua própria experiência com drogas, o livro é uma coleção de exemplos impessoais. Curiosos, mas ainda assim impessoais. E o grande atrativo dos livros do Dr. Sacks sempre foi a sua capacidade de nos envolver com seus personagens/pacientes.O livro acaba se tornando uma coletânea de alucinações e informações sobre o cérebro.

O episódio que coloco aqui está no Capítulo 14: Doppelgängersalucinação consigo mesmo e é tão interessante que parece uma história de ficção. É de um rapaz que sofria de epilepsia do lobo temporal:

O episódio heautoscópico ocorreu pouco antes da internação. O paciente interrompeu sua medicação de fenitoína, tomou vários copos de cerveja, permaneceu na cama todo o dia seguinte, e à noite foi encontrado murmurando, confuso, debaixo de um arbusto quase completamente destruído logo abaixo da janela de seu quarto no terceiro andar. [….]

O paciente fez o seguinte relato sobre o episódio: na respectiva manhã, ele se levantou sentindo tontura. Virou-se e viu a si mesmo ainda deitado na cama. Zangou-se, disse ele, com “aquele cara que eu sabia que era eu mesmo e não queria se levantar, correndo o risco de se atrasar para o trabalho”. Ele tentou acordar o corpo na cama, primeiro gritando, depois sacudindo-o e por fim pulando repetidamente sobre seu alter ego na cama. O corpo deitado não reagiu. Só então o paciente começou a se sentir intrigado com sua dupla existência, e foi ficando cada vez mais assustado por não ser mais capaz de saber qual dos dois era ele na realidade. Várias vezes a sua noção do próprio corpo transferiu-se daquele que estava em pé para o que ainda jazia na cama; quando estava no modo deitado, ele se sentia completamente acordado, mas paralisado e com medo da figura que se debruçava sobre ele e o espancava. Sua única intenção era voltar a ser uma só pessoa, e, olhando pela janela (de onde ainda podia ver seu corpo deitado na cama), ele decidiu de repente pular para fora “para pôr fim àquela sensação intolerável de estar dividido em dois”. Ao mesmo tempo, ele esperava que “essa ação desesperada atemorizasse o sujeito na cama e assim o instigasse a se fundir novamente comigo”. Sua lembrança seguinte é de acordar com dor no hospital.

Sapiens e Homo deus, Yuval Noah Harari

Na ciência – e quem sabe na vida – as perguntas costumam ser muito mais importantes do que as respostas. Para quem leu o Guia dos Mochileiros das Galáxias, a ideia é representada pelo número 42. Numa visão estritamente pessoal, posso dizer que livros menos ambiciosos costumam dar mais certo do que os que se propõem a muito. Basta tentar ler manuais que resumem todas as escolas de psicologia ou filosofia, ou que tentam contar a história do Brasil para vestibulandos em pouco mais de cem páginas. Na prática, é um apanhado de dados que falam muito pouco a quem já não tem conhecimento prévio do assunto. Por isso a minha suspeita quando soube que Yuval Harari se propunha a escrever uma história da humanidade. Aí, logo nas primeiras linhas de Sapiens: uma breve história da humanidade, ele deixa o leitor sem fôlego ao ir do maior para o menor quando fala do campo de estudos da física, química, biologia e história. O que torna o seu livro excelente e único é sua proposta, a pergunta: qual caminho tornou o Homo sapiens a espécie dominante da Terra?

Harari retoma o conceito de espécie – por isso o nome Sapiens – ao falar de humano, e isso é parte fundamental da sua abordagem. Ele relembra que houveram outros Homoaustralopithecos, neanderthais, soloensis, erectus -, que Homos coexistiram e que o sapiens ser a única espécie não é, por si só, sinônimo de ser melhor. Ao retomar as diversas escolhas feitas pelo Homo sapiens, Harari fala de suas vantagens e desvantagens, relativiza o que nos parecia um caminho inevitável e até mesmo desperta uma certa nostalgia de quando éramos caçadores-coletores, estes sim muito mais saudáveis e harmônicos com o meio em que viviam. Já adiantando o raciocínio dos livros, o caminho do Homo sapiens que Harari descreve é de um crescente descolamento da natureza, que faz com quem o sapiens nem ao mesmo se reconhece mais como um animal. E a maneira como o sapiens olha para si mesmo (o livro fala muito de ilusões intersubjetivas)  acaba interferindo em todo ecossistema.

O surgimento da ciência e da indústria modernas trouxe consigo a revolução seguinte entre homens e animais. Durante a Revolução Agrícola, a humanidade silenciou animais e plantas e transformou a grande ópera animista num diálogo entre o homem e os deuses. No decorrer da Revolução Científica, a humanidade silenciou também os deuses. O mundo transformou-se em um one man show. O gênero humano estava sozinho num palco vazio, falando consigo mesmo, negociando com ninguém e adquirindo poderes enormes sem nenhuma obrigação. Depois de decifrar as leis mudas da física, da química e da biologia, o gênero humano agora faz com elas o que quiser. (Homo deus/ 2. O antropoceno – Quinhentos anos de solidão)

O livro Sapiens se propõe a descrever as três grandes revoluções do Homo sapiens: Cognitiva, Agrícola e Científica. Quando Harari trata das duas primeiras evoluções, muito antigas e quase desprovidas de história – no sentido de registro – o livro une uma série de dados de maneira primorosa, insights originais e aquela sensação de que suas explicações são completas, simples e “puras”, que não há outra maneira de explicar o passado. O primata se levanta, usa as mãos, altera a postura de uma coluna que não estava adaptada, diminui o espaço para a saída de bebês que nascem prematuros. E a imaturidade dos bebês fazem com que não saiam como cerâmica prontas do forno e sim como vidros – maleáveis, adaptáveis, mais cultura do que biologia. Para o que não há explicação razoável, como a escolha pela agricultura ou constante dominância do sexo masculino sobre o feminino, Harari levanta várias hipóteses sem escolher nenhuma, para deixar claro que não há explicação satisfatória comprovada. Quando se apela para explicações que partem de fósseis e instrumentos de pedra, há uma tendência a explicações biologicistas e um grande desprezo intelectual pelos nossos antepassados. Como historiador, ele passa bastante longe disso:

Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas tentam justificar por meio de mitos biológicos? Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidades. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade.

A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, de uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também, natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido que a velocidade da luz, ou que os elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros. (Sapiens: uma breve história da humanidade/ 7. Sobrecarga de memória – Ele e ela)

Quando fala da Revolução Científica, por ela ter apenas quinhentos anos, Harari começa a desenvolver seu raciocínio e Homo deus: uma breve história do amanhã é uma consequência clara das discussões finais de Sapiens. Quando chega no homem atual, o autor começa a bater e com força. Superadas os três grandes flagelos da espécie – fome, pestes e guerra – a agenda humana se debruça sobre novos objetivos, que são a busca pela felicidade, imortalidade e divindade. Mas, retomando ao seu argumento inicial, Harari relembra que se conceber como superior aos animais, às plantas e ao resto do planeta não torna isto verdade. Que o homem tem agido como uma criança irresponsável, fechado os olhos para o sofrimento que causa (num trecho de Sapiens ele diz que, ao contrário de outras ideologias que matam por ódio, o capitalismo mata por indiferença) aos animais, e que o mesmo argumento de justificar sua violência por superioridade pode se voltar contra ele quando o sapiens se tornar obsoleto. A descrição que Harari faz das capacidades dos animais e o sofrimento intenso a que são submetidos apenas para nossa satisfação à mesa, levam à conclusão que o veganismo é o mínimo que se pode fazer para ajudar. Ele mesmo é vegano.

Só que o isolamento do sapiens, conforme Harari projeta, tende a uma radicalização tal que passará a ser até dentro da espécie. O avanço da tecnologia capaz de prolongar a vida humana e aumentar nossa capacidade com o uso de inteligências artificiais não é estendido a todos. Enquanto uns serão amortais, outros não terão função dentro do sistema e serão descartados. Só que quando o livro fala do perigo de um Homo deus que se priva e se aproveita dos seus irmãos sapiens, não consigo deixar de pensar que o autor vem de um país muito mais igualitário. O que ele vê num o futuro me parece bastante aqui e agora, senão pelo avanço da tecnologia, pela pura e simples diferença no acesso à cultura. As diferenças de classes no Brasil são tão gritantes que duas pessoas que nunca se viram, trancadas durante poucos minutos numa mesma sala, já são capazes de adivinhar com uma grande probabilidade acerca as origens uma da outra. Nossas diferenças de classe são mais sofisticadas do que uma mera diferença racial – elas invadem o tipo físico, as roupas, a maneira de gesticular, de se portar, de olhar. A linguagem falada é diferente e escrita ainda mais. Criamos tantos e tão sofisticados códigos que o indivíduo não consegue, conscientemente, dominar todos – com isso a mobilidade social se torna cada vez mais difícil. E é essa falta de domínio dos códigos padronizados pela elite cultural e econômica que serve de justificativa para a manutenção de privilégios; os outros são burros, não sabem votar, são manipulados, precisam ser protegidos de si mesmos, não precisam de quase nada.

Ao mesmo tempo que demonstra o quão fenomenal o que conseguimos como espécie, as projeções que Harari faz estão muito mais para distopias. Ele alerta que quando fala na busca por eternidade, felicidade e divindade está apontando tendências, o que não quer dizer que as aprova. Sua ambição é, tal como aconteceu com o marxismo, que a própria leitura dos seus livros influencie o futuro e faça com que ele não aconteça da forma prevista. Se levarmos em conta que os livros são best sellers mundiais e lidos por gente como Barack Obama e Mark Zuckberg, quem sabe seja possível.

Judas, Amós Oz

Um ex-estudante sem perspectivas que, para conversar com um velho, recebe teto, comida e um pequeno salário de uma mulher mais velha que quase nunca aparece. A ação do livro se passa quase toda na casa, na água-furtada que o rapaz está instalado, no cômodo onde conversa com o velho, na cozinha onde se serve de sopas e sanduíches. E com tão poucos elementos, Amós Oz escreve um livro apaixonante, transforma o encontro dos três personagens naqueles momentos preciosos definidores da vida e que de antemão sabemos que não pode durar. Judas é o nome do livro porque é sobre a visão de Jesus para os judeus a pesquisa que Shmuel desenvolvia antes de largar os estudos. Através de Jesus ele chega a Judas, e com Judas os judeus, e com os judeus a formação do Estado de Israel, e com o Estado de Israel a vida do velho e da mulher, o preço que cada um deles pagou e o resultado dos seus sonhos desfeitos. No final, Judas nos parece uma metáfora de todos os personagens – contraditórios, condenados e, se olharmos mais de perto, talvez os únicos que se mantiveram fiéis.

Quando o mundo novo sair vitorioso, quando os seres-humanos forem todos honestos e simples e produtivos e fortes e iguais e eretos, com certeza será abolido por lei o direito de existência de pessoas distorcidas como eu, que são do grupo dos que comem e nada fazem e ainda enfeiam tudo com todo tipo de graçolas e brincadeiras sem fim. [16.]

É difícil descrever a maneira como Amós Oz domina a escrita, como ele chega ao ponto com poucas palavras, como consegue ser rápido ou se estender e transportar o leitor com uma facilidade espantosa. A sua capacidade de descrever as pessoas é uma das melhores que eu já li. Não apenas as descrições físicas, como os cabelos revoltos de Shmuel, a profundidade da fenda entre a boca e o nariz de Atalia, o rosto talhado em pedra de Wald, mas também na escolha do detalhe, que para uns é a maneira de andar, em outros no tipo de expressão que repete, num terceiro a forma como segura os objetos. Oz coloca a pessoa na nossa frente, e nos sentimos lá, com frio na umidade dos cômodos simples onde um homem velho, ranzinza e muito culto fala sem parar. Há também, em Oz, uma distância entre a decisão e a ação que fica bastante realista para o leitor e é muito difícil descrever em prosa; tal como na vida real, a decisão fica misturada aos sentimentos, outros pensamentos, o que está acontecendo no entorno, à ação de outros personagens. A decisão não se forma na mente e sai como uma flecha, ao contrário – seus personagens se envolvem e se perdem, não tem propósito definido, apenas necessidade de se sentirem bem e uma vaga ideia de como conseguir isso. Às vezes parece que nem vão conseguir. Para conseguir, rompem laços ou nem deixam que eles se formem, vão embora sem dizer adeus, declaram o que sentem muito mais com gestos do que com palavras. O leitor é tomado por um grande sentimento de doçura e nem sabe direito de onde ela vem.

Shmuel sentiu que tinha de despertar o interesse dela, entretê-la, mas a visão da ruela deserta sobre a qual pairavam varais de secar roupa e varandas vazias, e que um lampião solitário iluminava com uma luz turva, lhe provocou uma sensação opressiva e ele não encontrou palavras. Apertou de encontro às costelas o braço que ela cruzara com o seu, como a lhe prometer que tudo ainda estava em aberto. Ele agora sabia que ela o tinha sob seu domínio e que podia levá-lo a fazer quase tudo o que lhe pedisse. Mas não sabia como começar a conversa que no íntimo ele já mantinha com ela há semanas. [21.]

Afora tudo o que eu citei, a discussão sobre Judas Iscariotes, os judeus e o Estado de Israel já valeriam a leitura. Há um paralelo evidente entre a figura de Judas e o pai de Atalia, um politico envolvido na criação do Estado de Israel e que se opõe a seus pares com relação a criação do Estado e o conflito com os árabes. O Judas que Shmuel resgata, ao contrário do que ficou marcado na história cristã, é o mais fervoroso dos discípulos de Jesus, o único que não suporta viver num mundo sem ele, o que o levou a ser conhecido no lugar de ser apenas mais um andarilho milagreiro da sua época. Em ambos – o discípulo e o político – vemos que por detrás da traição pode haver a dedicação mais idealista e extremada, um ato de coragem muito maior do que aquele que renega três vezes ou que vota com a maioria. Nos passeios pela cidade, nas perspectivas que se apresentam a um Shmuel sem dinheiro e, principalmente, nas histórias pessoais do velho e Atalia, vemos o que é estar num país que, ao mesmo tempo que é a concretização de um sonho, vive uma guerra infinita. A guerra, Israel e ser judeu cobram preços individuais, às vezes muito altos.

A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

handmaid- esperma extra

Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

handmaids tale driver

.oOo.

A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

handmaid - women choice

* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Inveja e escolaridade na Série Napolitana, Elena Ferrante

Spoilers: sim, tem. Até o terceiro livro.

Até agora, julho de 2017, a Série Napolitana, é formada pelos seguintes livros: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida.

Vou me sentir produzindo um post caça níqueis, daqueles que colocam algo polêmico só para provocar a ira das pessoas, mas quem leu os livros sabe que eu tenho razão: a série napolitana é a história de uma amizade, sim, mas de uma amizade baseada em inveja e rivalidade mútuas, principalmente da parte da protagonista Lenu com relação à sua amiga Lila. Lenu diz logo no começo do primeiro livro, com todas as letras, que se aproximar de Lila foi a forma como ela conseguiu lidar com a inveja, ela se conformou com o papel secundário numa competição que estava destinada a perder. Por um lado, a inveja é explicável pelo fato de Lila ser acima da média. A facilidade de aprendizagem e as análises que faz do que lhe cai em mãos mostram que Lila tinha um QI elevado; como pessoa, é independente, corajosa, intensa, verdadeira, criativa, apta a quaisquer atividades físicas. Para completar o quadro, como se já tivesse qualidades o suficiente, quando se torna uma mulher, Lila fica linda. Outro motivo, que para mim é um dos grandes atrativos da história, é perceber que o Destino, num sadismo brincalhão, misturou os sonhos de ambas e fez com que cada visse a outra obter com facilidade o que desejava para si: a que ama estudar e se destaca por suas ideias não pode prosseguir os estudos; a romântica que adora crianças se vê sozinha por muito mais tempo do que gostaria.

Talvez por isso, ao contrário da maioria dos leitores da série, tenho no primeiro o meu livro preferido. Gosto de quando está tudo começando, quando elas são crianças com dramas pequenos num bairro violento. Gosto de torcer pela Lila menina destemida, que vence competição, que estuda sozinha e supera o conteúdo do colégio, enfrenta os meninos e parece ser capaz de qualquer coisa. Era óbvio que ela estava destinada a perder, que por mais que lesse jamais conseguiria suprir a falta de uma educação formal. Lila dizer a Lenu que ela é a sua amiga genial, que deve estudar pelas duas, foi como um plot twist pra mim. O primeiro livro tem pra mim o valor utópico do antes: antes de escolaridade, antes de papéis de gênero, antes das diferenças econômicas , enfim, antes dos papéis sociais as esmagassem – porque era apenas uma questão de tempo até que esmagassem. Se a proibição de estudar já não fosse o suficiente, ficou claro que o que aguardava Lila não era tão bom quanto ela prometia quando criança quando ela começa a chamar atenção dos homens. Excesso de beleza e inteligência numa mulher é quase como maldição rogada por bruxa. Vista como troféu pelos homens ricos do bairro e possível saída para melhorar de vida pela família, Lila se casa cedo e mal.

“Vamos, me ajude, ou vou me atrasar.”

Jamais a havia visto nua, me envergonhei. Hoje, posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar sobre seu corpo, de ser a testemunha participante de sua beleza de dezesseis anos poucas horas antes de que Stefano a tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a. Naquele momento foi apenas uma tumultuosa sensação de um inconveniente necessário, uma situação em que não se pode virar o rosto para o outro lado, não se pode afastar a mão sem dar a reconhecer o próprio desconcerto, sem o declarar justo ao se retrair, sem portanto entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem está nos perturbando, sem exprimir precisamente com a recusa a violenta expressão que nos abala, de modo que você se obrigar a continuar ali, a deixar o olhar sobre os ombros de menino, sobre os seios de mamilos crispados, sobre os quadris estreitos e as nádegas rijas, sobre o sexo escuríssimo, sobre as pernas compridas, sobre os joelhos tenros, sobre os tornozelos arredondados, sobre os pés elegantes; e você finge como se não fosse nada, quando na verdade tudo está em ato, presente, ali no quarto pobre e um tanto escuro, a mobília miserável ao redor, sobre o piso irregular e manchado de água, e o coração se agita, e suas veias se inflamam.

A amiga genial/ A história do sapato, 57.

O primeiro livro da série é essencial para se apegar aos personagens, que são sempre os mesmos, como se as mudanças fossem apenas uma troca de cadeiras, onde quem ontem era vizinho, amanhã é namorado e depois se torna cunhado. O bairro, uma periferia napolitana, é mais um personagem: a vizinha que enlouquece quando se apaixona pelo marido de outra, o agiota temido por todos, a briga de fogos de artifício, os pequenos comerciantes, etc. O bairro é o berço, amado e detestado, lugar de onde se quer fugir e não se consegue, origem do dialeto que eles falam sabendo que os define e empobrece diante do (idioma) italiano. Num meio ignorante, Lenu à princípio não percebe o que a educação pode fazer por ela e sente que a vida de estudante lhe deixa em suspenso enquanto todos à sua volta estão trabalhando e casando. Mas o caminho que se abre diante dela, diferente de todos à sua volta, transforma Lenu numa arrivista e é de grande sensibilidade a maneira como ela descreve as diferenças culturais e a superação exigente de quem tenta migrar para uma classe acima daquela de onde nasceu:

Estava entre os que se esforçavam dia e noite, que obtinham ótimos resultados, que eram até tratados com simpatia e estima, mas que nunca sustentariam com postura adequada a alta qualidade daqueles estudos. Eu sempre teria medo: medo de dizer uma frase errada, de usar um tom excessivo, de estar vestida inadequadamente, de revelar sentimentos mesquinhos, de não ter pensamentos interessantes.

História do novo sobrenome/ Juventude, 106.

Entre os seus, todos que encontram Lila se dão conta de seu magnetismo, e em qualquer tarefa que se proponha – desenhar sapatos, administrar uma loja – tem um toque especial. Mas sempre numa escala pequena, doméstica, porque o mundo desprovido de educação acessível à Lila é pequeno. Por mais que se torne capaz de revolucionar e dar a volta por cima, a falta da educação formal torna Lila sempre uma pessoa “e se”.

A sinceridade é um ponto chave na série, uma sinceridade que não poupa nem a própria narradora. Ela nos mostra uma violência sem fim da periferia napolitana – que resolve os assuntos com surras e mortes, que leva uma criança a ser jogada pela janela pelo seu próprio pai, que faz com que apanhar do marido seja tão comum a ponto de ser demonstração de ombridade. Ela nos fala de um machismo profundo, arraigado em homens e mulheres, onde a própria Lila que era capaz de enfrentar um homem com o dobro do tamanho dela aceite com naturalidade ser violentada e espancada pelo marido; ou nos episódios que Lenu é bolinada por homens mais velhos, apenas porque a situação se mostrou propícia para eles. Principalmente, o livro é claro no tratamento da inveja, nos momentos que Lenu está sempre se comparando com Lila como se – nas palavras da própria Lenu – a vida de ambas fossem os dois pratos de uma balança e que para uma estar por cima a outra precisa estar por baixo. Na maior parte do tempo, Lenu se queixa dos sucessos de Lila, que está bem enquanto ela está mal; aí, quando Lenu está bem, ela vai ter com Lila ou vê algo de Lila e imediatamente se descobre não tão bem assim, porque o que Lila tem é mais intenso, ou superior, ou até mesmo é a base do aparente sucesso de Lenu. O momento mais forte desse processo, para mim, é o final do segundo livro, quando Lenu ao invés de ficar feliz com o seu primeiro romance, o compara com uma história que Lila escreveu na infância. Aí ela decide procurar Lila, que está numa situação de pobreza e subemprego assustadora. Ao interromper o trabalho da amiga com as mãos machucadas num ambiente totalmente insalubre, Lenu só consegue dizer: “Aconteceu uma coisa maravilhosa, escrevi um livro!”. E como se tudo aquilo não fosse suficiente, ao perceber que Lila se desfaz do tal livro de infância assim que fica sozinha, Lenu se reduz de novo à sua inveja – que Lila sim entendia das coisas, era superior a tudo aquilo, etc.

Há momentos que o leitor se pergunta se Lila é tão interessante ou é tudo fruto de uma mente paranoicamente invejosa. Como quando o marido de Lenu diz que achou Lila uma pessoa horrível, e ela começa a achar que ele falou aquilo para se defender do fascínio que sentiu. Quando finalmente consegue dormir com Nino, lá vai a outra perguntar se o desempenho na cama era melhor do que o da amiga. A vida adulta faz com que cada uma siga sua vida e o contato entre elas – e a consequente comparação  – perde cada vez mais o sentido. Lila passa a ser uma amiga de telefonemas esporádicos e notícias distantes. Quando Lenu passa a ter o foco da história mais para si, somos obrigados a dar razão ao que ela disse o tempo todo, ao que todos os personagens diziam: Lila é muito mais interessante, mostra mais Lila porque isto está muito comum.

Uma visão sobre o Comandante d´O Conto da Aia

Alerta de spoiler: O livro é de 1985 e tem filme, série, peça de teatro, desenho. Aqui os spoilers abundam por ser uma discussão e não uma resenha.

“Beije-me como se sentisse vontade”, pede o Comandante a Offread. O Conto da Aia é narrado em primeira pessoa e Offred, sua protagonista, oferece ao leitor uma visão tão limitada da sua realidade quanto o que ela mesma vê: um quarto onde precisa ficar trancada, uma janela com uma pequena visão do jardim, palavras ríspidas de mulheres, olhares cobiçosos dos homens. Tudo parece uma espécie de prisão de luxo, tanto que às vezes a própria Offread faz menção ao fato de ser um privilégio ter o que comer e estar naquela posição – o que nos faz adivinhar o que há algo pior ao mesmo tempo que isso seja difícil de imaginar. Como em qualquer sistema opressivo dos bons, as contradições estão em toda parte: ela veste vermelho e se cobre, ela serve ao sexo e não pode sentir prazer, ela é uma privilegiada e não tem liberdade nenhuma. Nada pertence a Offread, nem o seu próprio nome, que é ligado à família onde está e deve ser dado à outra, quando o prazo dela estar naquela casa e tentar gerar um filho se esgotar.

Há tempo de sobra. Esta é uma das coisas para as quais não estava preparada – a quantidade de tempo não preenchido, o longo parênteses de nada. Tempo como som de ruído fora de sintonia. Se ao menos eu pudesse bordar. Tecer, tricotar, alguma coisa para fazer com as mãos. Quero um cigarro. Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco a fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas agora vejo o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio.

Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.

Parte V, capítulo 13

São pelo menos quatro mulheres na casa, e elas junto com o motorista servem apenas ao bem estar de um homem: o Comandante. De acordo com o ritual, ele deveria usar a aia apenas em dias prescritos, com a presença da sua esposa, as duas unidas como uma só carne, uma como a verdadeira companheira e a outra apenas como depositária do futuro filho de ambos. Da fora mais deserotizada possível, ele penetra uma aia impassível e ejacula. Mas, para a surpresa do leitor, o Comandante subverte as regras e, apesar de poder pedir o que quiser, leva a aia para o seu lugar mais privado da casa e se aproxima dela amigavelmente. Pede para jogar no tabuleiro, observa enquanto ela lê uma revista, conversa com ela. Ele lhe pede com olhares tristes o carinho que vai além da obrigação e passa a olhar para ela durante o sexo, o que a constrange, porque traz de novo ao ato que era mecânico uma presença. O Comandante se esforça para agradar e ser amado e parece ser, da mesma forma que Offread, um prisioneiro do seu papel. Nessa parte, rola uma paixãozinha enquanto a gente vai lendo.Como as feministas alertam: o machismo afeta os dois lados. Na prática, a divisão entre esposa e aia faz com que ele não seja próximo de nenhuma das duas. Os mesmo papéis que servem também isolam os homens em seu poder.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Parte IV, cap.15

Mas qualquer possibilidade de uma paixão vai embora quando sabemos mais sobre o Comandante: que ele havia feito esse jogo antes e que a aia anterior tinha cometido suicídio; que ele foi um dos responsáveis pela implementação daquele regime e que o justificava dizendo: “Queríamos transformar o mundo num lugar melhor. Melhor nunca significou bom para todos, sempre fica pior para alguns”. Alguns, no caso, é apenas toda população feminina…Ele foi um dos responsáveis por tirar de Offread até mesmo o direito de ter seu nome; ele sabia que aquele jogo podia ser mortal para ela, que arcaria com todos os ônus. Ele não fazia nada que pudesse ajudá-la individual e coletivamente e no entanto, ainda queria o seu calor. De sensível e oprimido, descobrimos no Comandante um homem vaidoso e voltado apenas para o seu prazer. Porque, apesar de ser meio sem graça aqui e ali, a submissão feminina é muito confortável. Offread sinaliza que mesmo o mais liberal dos homens ainda pode se sentir assim quando narra que seu marido Luke, o homem da época que ela era alguém, quis fazer sexo com ela no mesmo dia que todas as mulheres perderam seus empregos e o direito de usarem dinheiro. Offread estava totalmente abalada mas “pelo menos nós temos um ao outro” – se Luke iria cuidar dela, então tudo estava bem. Eu me lembrei do Livreiro de Cabul, com homens desejosos que as mulheres que usam burca e seguem estritas normas de conduta agissem – apenas e tão somente na hora do sexo – como as mulheres que aparecem nos filmes ocidentais. Em pouco tempo é isso que o Comandante faz: traz para Offread uma lingerie, a leva para a Casa de Jezebel e para a cama, em busca de uma relação sexual completa.

Mulheres com direitos cortados por canetada, mulheres colocadas sob a tutela masculina, mulheres divididas por funções, mulheres mantidas na ignorância, mulheres vigiadas, mulheres reduzidas ao desejo masculino – o livro é extremamente perturbador para qualquer mulher que o leia. Talvez a gente adivinhe, como a autora Margaret Atwood afirmou, que tudo aquilo já aconteceu de uma forma ou de outra – ou ainda pode acontecer. Até o Comandante levar Offread para o bordel, esta distopia ainda não havia me convencido. Em palavras, a minha crítica era: oprimir as mulheres ok, mas dessexualizar totalmente as relações e fazer delas apenas máquinas para fazer filhos não faz sentido, os homens não abririam mão do prazer que lhes é mais caro, o de dispor do corpo feminino. Aí quando surge a lingerie e o bordel, o quadro se completou para mim. Será que toda opressão e hipocrisia andam juntas? A esposa do comandante e a aia, colocadas em campos opostos, assim como as mulheres na cozinha, perdiam tempo com antipatias mútuas sem se dar conta de que eram todas vítimas. A conclusão do livro é óbvia: somos todas mulheres e não podemos deixar acontecer.

Fisiologia, prazer e sexo anal

Nos muitos comentários contra este vídeo, dizem que os dados sobre endocardite estão errados e que é clara a visão preconceituosa dela a respeito da homossexualidade. Eu não tenho formação o suficiente para discutir os dados que a palestrante levanta e opiniões abalizadas seriam muito bem vindas. Entre os defensores, há os que dizem que “Deus criou tudo perfeito como deve ser”, o que eu também me parece bastante complicado, porque não usamos “tal como deve ser” muitos órgãos – somos bípedes, comemos alimentos industrializados, tiramos pedaços do nosso corpo, medicamos, fazemos enxertos, etc.

O que torna essa discussão interessante, para mim, são as perguntas que a palestrante coloca no início: de onde surgiu o consenso de que sexo anal é ótimo e muito prazeroso a qualquer mulher, se feito da maneira correta? Com endocardite ou não, as explicações dela expõem a fragilidade, do ponto de vista físico, da penetração anal em relação à vaginal. Que, por mais que os discursos atuais tendam ao contrário, não é uma simples questão de “respire fundo e tenha boa vontade, querida”. Há uma clara influência da indústria pornográfica sobre esse discurso e a ênfase não está no prazer feminino. Vale lembrar que as consequências do pornô vão além daqueles que estão no filme, ele influencia a forma como todos os que assistem vivenciem sua sexualidade – e algumas dessas pessoas ainda estão na adolescência:

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”(….) Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

(Retirado de: A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível)

The Crown

Alerta de spoiler: este texto falará livremente sobre fatos de toda primeira temporada de The Crown. Caso não goste de spoiler e prefira descobrir as coisas à medida que assiste a série, abandone já e volte apenas depois que terminar.

A discreta abertura de The Crown me parece resumir, em imagem, aquilo de que a série trata. A abertura começa com o ouro derretido, que adquire formas geométricas estáveis para ser transformado em coroa. A série, sobre a Rainha Elisabeth II, mostra a gradual transformação de uma mulher comum em rainha. Essa transformação é mostrada em dois caminhos complementares: a história linear da vida de Elisabeth pouco tempo antes da coroação, com a morte de seu pai, o rei George VI e os fashbacks da infância de Elisabeth, onde mostra o quanto criação dela foi moldada para a futura possibilidade de usar a coroa após a abdicação do trono por Edward, seu tio mais velho. É também de Edward a fala que melhor resume o conflito entre o transitório e humano frente à coroa:

– Mas há também o outro grande amor da minha vida: a coroa. E proteger essa coroa. E imagino que você esteja numa posição difícil agora, dividida ao meio. Uma metade é irmã, a outra metade é rainha. Uma criatura híbrida, estranha, como uma esfinge ou Gamayum. Como eu sou Ganesha ou o Minotauro. Somos pessoas pela metade, arrancadas das páginas de alguma mitologia bizarra, com dois lados dentro de nós, o humano e a coroa, numa terrível guerra civil, que não tem fim e que deteriora todas as nossas interações humanas, como irmão, marido, irmã, esposa, mãe. Eu entendo a agonia e estou aqui para lhe dizer que ela jamais a deixará. (temporada 01, episódio 10 – Gloriana)

O centro é Elisabeth, mas a Coroa está presente em cada detalhe da vida da família real e tem exigências que não poupam ninguém que entre em contato com ela. Embora Elisabeth tenha se casado com o homem que escolheu, logo nas primeiras cenas descobrimos que, para isso, Philip precisa abrir mão das cidadanias grega e dinamarquesa, se converteu ao anglicanismo e adotou o sobrenome Mountbatten para virar cidadão britânico. Quando Elisabeth se torna rainha, os problema já começam quando ambos precisam abandonar a casa que vivam; Philip deixa de ter uma carreira, tem que se conformar a abrir mão do direito de dar seu sobrenome aos seus filhos – Charles e Ana – e precisou se ajoelhar frente à esposa na sua cerimônia de coroação, fatos que para ele diminuíam sua “virilidade”. O papel cada vez mais acessório e de “cortador de fita” de Philip tem o irritam cada vez mais, e até mesmo seu desejo de aprender a pilotar um avião quase é impedido pelo Parlamento – é estranho saber que Churchil, aquele Churchil, se deu ao trabalho de discutir vivamente o assunto . Mais tarde, quando Philip parece se conformar com a vida de nobre desocupado e passa a viver em meio a festas e falta de explicações, o casamento fica cada dia mais comprometido. Fica sempre a pergunta do quanto isso seria inevitável ou não se eles fossem apenas um casal, e não a rainha e o Duque de Edimburgo.

A série, sem precisar recorrer a sentimentalismos, faz com que o público simpatize cada vez mais com Elisabeth. Quase não a vemos interagir com os filhos, ela máximo sorri ao olhar para eles brincando com o pai ou tutores. Não há nas suas falas nada de apaixonado ou espirituoso, características que parecem estar restritas à sua irmã Margaret. A família inteira parece ser feita de gelo e rancor, como nas picuinhas incansáveis a Edward e a esposa, que nem ao menos é recebida no palácio. Porém, vemos em Elisabeth uma mulher sensata, que procura fazer o seu melhor frente a uma tarefa maior do que qualquer pessoa. A consciência que ela tem de suas próprias limitações chega a ser enternecedora. Ela confessa se sentir burra diante de chefes de estado, e que precisa desviar a conversa para cachorros e cavalos para se sair bem. Sua educação a versou apenas na tarefa de prepará-la para governar, tarefa que exige que ela conheça a constituição e tenha, como maior qualidade, a capacidade de ficar quieta (isso lhe é dito sem a menor ironia). Para sanar suas falhas, ela contrata para si mesma um tutor. Vemos a dificuldade daquela mulher jovem que tem a tarefa de governar em meio a informações muitas vezes incompletas e podendo apelar quase que tão somente ao próprio bom senso. Um dos momentos que simbolizam quando ela está começando a se tornar realmente uma rainha, é quando ela dá uma bronca em Churchil, a quem tanto respeita, tal como uma mãe dando uma bronca.

Mas, ao mesmo tempo que ela é a autoridade máxima por ser uma rainha, as convenções a que Elisabeth está amarrada na tarefa de manter a Coroa, às vezes fazem com que o poder real pareça com poder nenhum. Como instituição, a Coroa precisa sobreviver e sua continuidade está principalmente ligada à perpetuação das regras:

Diálogo de Elisabeth sobre a escolha de seu secretário pessoal:
– Há um modo de fazer as coisas aqui, uma ordem desenvolvida por gerações. E a individualidade, na casa Windsor, qualquer desvio no modo de se fazer as coisas não deve ser encorajado. Isso resulta em catástrofes como a abdicação.
– A abdicação do trono e a escolha do meu secretário não têm ligação entre si.
– Eu discordo. Eu servi o seu tio, como sabe, e é nas pequenas coisas que a podridão começa. Se errar uma vez é fácil errar de novo. Se for individualista uma vez, é mais fácil voltar a ser. (temporada 01, episódio 07 – Scientia Potentia Est)

Elisabeth se mostra uma excelente rainha justamente por sua personalidade prudente e até mesmo desinteressante. Quando Margaret assume alguns compromissos públicos em nome da irmã e passa a ser espontânea e espirituosa nas suas declarações, isso se mostra muito prejudicial e Churchil lhe adverte:

– Vossa Majestade, quando aparece num evento público, em funções oficiais, você não é você mesma.(….) E ninguém quer que seja você, só querem que seja.
– Uma estátua, uma coisa?
– A Coroa. É isso que todos foram ver, não a senhora.Quando é você mesma, estraga a ilusão, quebra a magia. (temporada 01, episódio 08 – Orgulho e Alegria)

Sempre que confrontada entre a necessidade daqueles que a cercavam ou a manutenção do trono da Inglaterra, Elisabeth escolhe o segundo. Como consequência, fica cada vez mais solitária. Saber que até mesmo ela, sempre tão sensata, escolheu mal o marido por ter caído da velha falácia de ser atraída pelo bonitão e não o amigo com quem tinha afinidade, e que desde o primeiro momento apoiou o casamento de Margaret apesar de sua posição pública, fazem com que o público entenda um pouco do peso que é representar uma tradição. Acredito que na segunda temporada, muito mais rainha do que ouro, as atitudes dela se tornem tão “corretas” e desumanas que ela perca a simpatia do expectador. Estou curiosa para saber como Lady Di será retratada. No mais, a série tem se mostrado tão fiel que até o príncipe Charles criança se parece com o original.