Moralidade, por Harari

Moralidade não quer dizer “cumprir os mandamentos divinos”. Quer dizer “diminuir o sofrimento”. Daí que, para agir moralmente, não é preciso acreditar em nenhum mito ou narrativa. Só é necessário desenvolver uma profunda noção do que é sofrimento. Se você souber que uma ação causa um sofrimento desnecessário a você e a outros, você naturalmente se absterá de empreendê-la. Assim mesmo, pessoas assassinam, estupram e roubam porque só têm uma noção superficial da infelicidade que isso causa. Estão obcecadas em satisfazer sua paixão ou ganância imediatas, sem se preocupar com o impacto sobre os outros – ou mesmo o impacto sobre elas mesmas a longo prazo. Até mesmo inquisidores, que deliberadamente infligem o máximo de sofrimento em sua vítima, usam técnicas variadas de dessensibilização e desumanização para se distanciarem daquilo que estão fazendo.

Yuval Noah Harari
21 lições para o século 21
(13. Deus: Não tomarás o nome dele em vão/ posição 3349 de 6318)

Trotsky, pela Netflix e por Padura

O que é pior: uma história esquecida ou mal contada? Assisti Trotsky na Netflix sob a advertência de que ela talvez tenha feito mais mal à história dele do que o próprio Stalin, tamanhas as distorções. Mas o visual da série é lindo, o ator principal é cheio de borogodó e sempre existe aquele atrativo de aprender história de maneira fácil. Esperei para ler o porquê da série ser tão ruim apenas depois de terminar, e também li a biografia romanceada que Leonardo Padura escreveu sobre o assassinato de Trotsky, o premiado “O homem que amava cachorros“. É complicado usar uma obra de ficção para desmentir outra, mas depois desta trajetória por Trotsky, tendo a concordar com os que dizem que a série da Netflix traça um panorama excessivamente negativo sobre ele. Mas, ao mesmo tempo, se não tivesse visto a série, não teria ido atrás da história. E ainda pretendo ler a biografia escrita por Dmitri Volkog, que fica para outro post…

Antes ainda de ler Padura, eu li o artigo que está no site do PSTU. Como mulher, eu me doí bastante com a informação de terem usado a presença de uma heroína russa – Larissa Reissner -, uma mulher corajosa e de biografia bastante interessante, reduzida ao papel de amante voluptuosa, sendo que nem ao menos há registros de que ela e Trotsky tenham sido amantes.  Num episódio, o antigo noivo dela (que é abandonado durante a viagem) vai transmitir uma informação a Trotsky e ela aparece semi nua na cabine, e anda por eles com a maior naturalidade. É uma cena curta, de onde se tira tantas conclusões: era um caso assumido, a mulher além de trocar um por outro ainda se exibe, todos sabiam que Trotsky era imoral e tinha uma amante só pra ele durante a viagem, etc. O mesmo ex-noivo abandonado, mais tarde, aceita mentir para derrubar um inimigo político de Trotsky. Ou seja, para acreditar em algumas coisas é preciso acreditar também que as pessoas são todas corruptas e sem coração.

Nos primeiros minutos do primeiro episódio, há uma conversa que o preso Liev Davidovitch tem com o chefe da carceragem chamado Trotsky, de quem ele “roubaria” o nome anos mais tarde. Também não há registros desta conversa, de acordo com o artigo do PSTU. A cena dá o tom da série: revolucionários são tão ávidos pelo poder e cruéis quanto aqueles a quem eles acusam. O futuro Trostky não sabia disso quando conversou com seu algoz, mas realizaria a profecia em poucos anos. Sempre há a necessidade de construir cenas quando se conta uma história, e o livro de Padura é praticamente feito disto – mas existe uma diferença muito grande em criar cenas baseadas nos fatos a criar cenas inexistentes para provar um ponto de vista. Achar que o poder é sempre poder, e que regimes totalitários são iguais independente do que professem, é uma visão bastante cínica e que faz  muito sentido para quem assiste hoje. Mas devemos lembrar que um dos motivos de fazer sentido hoje é também pelo fracasso soviético.  Trotsky é apresentado na série como um simples carreirista, com grande dom de oratória. Mas se suas motivações fossem tão simples, seus altos e baixos na carreira pela falta de alianças e se oferecer a viajar pela Rússia de trem enquanto Lenin e Stalin se fortalecem politicamente não fazem sentido.

Do mesmo modo que a Escola de Frankfurt coloca que não temos mais cultura para ouvir um Mozart da maneira que ele soava na época que foi composto, também me parece que não é possível entender a trajetória de heróis e vilões políticos do passado com o cinismo de hoje. E aí que Padura, como um autor cubano que cresceu dentro de um regime comunista, me parece muito mais adequado para falar de Trotsky e de seu assassino. O título do livro fala do homem, mas na verdade ele conta a história de três homens que amam cachorros: Trotsky, o assassino Mercader e Iván, um homônimo do autor. São três biografias. Iván um dia puxou papo com um homem com dois cachorros na praia. Daquele contato inocente nasceu a confidência sobre o assassinato de Trotsky, e puxando o fio daquela história, ela expunha “como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da mão fora pervertida (…) homens ébrios de poder, de ânsias de controle e de pretensões de transcendências histórica.” (Segunda parte/ 7935 de 11623)

Os três homens também têm em comum a busca por um propósito. Enquanto para Trotsky e seu assassino, a revolução proletária dá sentido às suas vidas, Padura faz parte dos efeitos colaterais dela. Além de ter passado fome e ter assistido à deprimente fuga de cubanos da ilha, a patrulha ideológica sepulta durante anos o seu talento como escritor. A ele e outros artistas, a exigência da arte alinhada com o partido (ou de propaganda) coloca apenas duas escolhas: a submissão – que leva à produção de um material sem valor – ou o abandono da profissão. Iván opta pelo abandono e sente durante anos o peso do talento não manifestado. “Como é possível que um escritor deixe de sentir-se escritor? Pior ainda, como deixa de pensar como escritor?” (parte 7862 de 11623), a esposa dele pergunta. A história d”O homem que amava cachorros” é prisão e liberdade ao mesmo tempo, uma história que lhe faz mal guardar e precisa ser transformada em livro.

Já Trotsky e seu assassino se colocam a serviço de um ideal maior, então inevitavelmente a decepção deles também é maior. Padura fez uma extensa pesquisa histórica para escrever o livro, mas como o seu foco é o período de exílio, a participação de Trotsky na Revolução Russa é apenas relembrada. A maior diferença dos fatos apresentados entre a série e o livro está na própria relação entre Trotsky e seu assassino. Na série, Mercader, sob o pretexto de escrever sobre Trotsky, passa a encontrá-lo várias vezes, mistura sua vida com a vida da família, chega inclusive a dormir com Frida Khalo. Na realidade, eles não se encontraram tanto, os dois ficaram a sós apenas duas vezes; e o próprio Trotsky percebia que havia algo de mal contado naquele personagem que se dizia belga, jornalista e filho de embaixador, mas que escrevia mal, dizia não se interessar por política e esbarrava na má educação em algumas atitudes. E pensar que para isso Mercader se preparou para incorporar o personagem por três anos!

Trotsky do livro, em desgraça, é um homem acusado de inúmeras conspirações, como se fosse o gênio do mal por tudo o que acontece de errado na nascente URSS. Na prática, ele nada mais faz do que tentar sobreviver entre países que lhe recusam exílio, amigos que lhe abandonam, filhos que são assassinados e a perseguição de Stalin. A série omite que Trotsky foi, além de um grande orador, um dos principais teóricos da Revolução Russa. Descrevem que estar perto dele é como estar perto de uma águia, que sua exigência no trabalho – para consigo e com os outros – era tão grande que extenuava todos ao seu redor. É impressionante pensar que em meio a tanta infelicidade, Trostky não tenha simplesmente desistido; ele nunca deixou de lutar, publicar, escrever e protestar, se dizia consciente de seu papel histórico e único líder possível de resistência. Stalin se preocupou em apagar todos os vestígios da atuação de Trotsky, perseguiu colaboradores, queimou livros e reescreveu a história para colocá-lo num papel de vilão e tinha por ele um ódio pessoal – ódio que aparece tanto no livro quanto na série. Muitos dos mecanismos que Stalin usou para perseguir politicamente seus inimigos foram criados pelo próprio Trotsky; tal como na poesia de Brecht, quando chegou a vez de Trotsky, ninguém se importou porque um dia ele não se importou com ninguém. Apesar de reconhecer que os ideais pela qual havia lutado se perderam em meio à violência, Trotsky defendeu a revolução até o fim: a revolução era outra e Stalin se apropriou dela.

Já Mercader era apenas um dos peões destinados a morrer pela causa. O livro conta que, quando Stalin se aliou a Hitler, inúmeros comunistas que lutaram na Guerra Civil Espanhola cometeram suicídio nas cadeias. Recomendo a leitura da biografia de Olga Benário, outra que teve um destino trágico como recompensa pelo seu idealismo. Um dos personagens mais impressionantes da história de Mercader é a sua mãe, Caridad. Bem nascida, ela abandona uma vida abastada e se torna uma furiosa comunista. Seus filhos crescem no meio da luta, o que dá uma sensação de inevitabilidade ao caminho de Mercader. É ela quem faz a pergunta definitiva que levaria o filho a um caminho sem volta: ele estaria disposto a qualquer sacrifício para ajudar a causa? Poucos dias antes do atentando, ela diz a Mercader que sua mão ao matar Trotsky será também a mão e o ódio dela; na visão de Caridad, a morte de Trotsky ajudaria a construir um novo mundo, um mundo que ela mesma era estragada demais para ocupar.

Para o leitor, a manipulação de Mercader e a inutilidade da sua luta eram evidentes desde as primeiras linhas. Mas é especialmente triste estar na pele dele – graças ao talento narrativo de Padura – quando ele começa a desconfiar do seu destino, sem ser capaz de alterá-lo. Um desses momentos é quando seu mentor redige a carta que ele deveria deixar cair no local do crime, onde se dizia um decepcionado ex-trotskista. Há muita facilidade por parte do seu mentor em criar um discurso mentiroso, e que soava igual a tudo o que Mercader havia ouvido durante todos seus anos na luta. Ter sobrevido após o ato fez com que ele pudesse acompanhar o desenrolar da história e experimentar um pouco da solidão do homem que ele mesmo matou. Dos três biografados do livro, Mercader é o que vive mais tempo é, por isso mesmo, o que precisa conviver com a maior dor: a escolha pela própria condenação.

É possível usar a biografia de Trotsky como uma acusação ao comunismo – e bons tempos que as pessoas se preocupavam em conhecer para poder odiar com propriedade. Mas quem for um pouco mais apaixonado por política e história, verá excessos parecidos em todos os regimes totalitários. Trotsky personalizou sua crítica na figura de Stalin como o grande vilão do comunismo, sendo que talvez (minha opinião) ele seja cria inevitável de toda forma de centralização de poder e eliminação da oposição.

Semanas antes, Liev Davidovitch constatara dramaticamente o horror vivido por seus compatriotas quando uma velha amiga, fugida milagrosamente da Finlândia, lhe escrevera: “É terrível verificar que um sistema nascido para resgatar a dignidade humana tenha recorrido à recompensa, à glorificação, ao estímulo da denúncia, e que se apoie em tudo o que é humanamente vil. A náusea sobe-me pela garganta quando ouço as pessoas dizerem: fuzilaram M., fuzilaram P. fuzilaram, fuzilaram. As palavras, de tanto as ouvirmos, perdem seu sentido. As pessoas repetem-nas com a maior tranquilidade, como se estivessem dizendo: vamos ao teatro. Eu, que vivi esses anos no medo e senti a compulsão de denunciar (confesso com pavor, mas sem sentimento de culpa), deixei de sentir na minha mente a brutalidade semântica do verbo fuzilar… Sinto que chegamos ao fim da justiça humana na Terra, ao limite da dignidade humana. Que morreram demasiadas pessoas em nome daquela que, prometeram-nos, seria uma sociedade melhor”…

Segunda parte/posição 6862 de 11623

Série completa da Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire

Após três anos de trabalho, o professor André Azevedo da Fonseca disponibiliza no youtube uma série de trinta e nove vídeos sobre a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire. No momento que vivemos, onde o nome de Paulo Freire surge a todo instante – e quase sempre sem maiores explicações, apenas demonizado -, acho importante entrar em contato com a obra dele. Até para ser contra (caso você seja), é importante conhecer.

Economia brasileira – a história contada por quem a fez

Já que estamos todos tão loucos com a eleição, preocupados com quem possa salvar o país, sugiro esta série excelente sobre a Economia Brasileira. Se é para decidir e acusar, brigar com os amigos e se decepcionar com as escolhas políticas, façamos tudo isso com conhecimento. Nada do que está acontecendo no Brasil surgiu ontem ou nos últimos dez anos. Vamos conhecer a nossa história, entender a maneira como o nosso país foi formado, o que a crise tem a ver com isso e a partir daí debater, agora num nível melhor.

A série parece bobinha, começando por aquela parte da história que todos nós conhecemos, e aos poucos vai dando insights muito interessantes. Veja mesmo!

Obrigada pela indicação, Chicuta!

Bradbury e Murakami: dois livros e dois processos de escrita

Uma vez eu estava conversando no MSN com um psicólogo. Era o tempo do orkut e tínhamos conhecidos em comum. Foi a nossa primeira e última conversa. Eu estava falando do tempo que fui escultora. Disse a ele que o meu processo de trabalho era bastante infantil. Logo em seguida ele me deu uma patada – por isso que as pessoas não gostam de você, psicólogos – dizendo que eu me diminuía, que eu não tinha auto-estima, etc. Levei muito tempo tentando entender de onde ele havia tirado aquilo, até descobrir que foi a palavra infantil. Eu não estava me diminuindo, muito pelo contrário. Quem já tentou um trabalho criativo sabe como é duro ser adulto: racionalizar antes mesmo de começar, ter plena consciência das dificuldades, saber que não há nada sob o céu que já não tenha virado tema, enfim, colocar tanta ansiedade antes mesmo de começar que fica difícil sair do lugar.

Ray Bradbury, no seu O Zen e a arte da escrita, mostra que ele tem o processo infantil. Os seus artigos são todos apaixonados e num determinado momento ele fala que insistiram demais em dizer que o processo de escrever é difícil e é preciso ter prazer. No começo, achei que o tom grandiloquente dele fosse estilo, uma maneira de imprimir otimismo no leitor; depois, à medida que ele contou como escreve, eu me convenci que para ele é fácil mesmo. Na disciplina que ele se impôs, um conto sai em uma semana: segunda ele escreve, terça e quarta revisa, etc. Domingo as ideias fermentam. Nós os conhecemos como o sujeito que escreveu o livro que se tornou o filme Farenheit 451, mas a produção dele é enorme e inclui traduções, teatro, quadrinhos e até mesmo a construção do Epcot Center. Ele se propõe uma pergunta absurda (“e se ao invés de apagar incêndios os bombeiros o provocassem?”) e à partir daí a imaginação voa. Diante da vivacidade e imaginação incríveis desse sujeito, eu só conseguia pensar numa coisa enquanto lia: Bradbury, acho que te odeio.

Não seria maravilhoso, por exemplo, jogar longe um exemplar da Harper´s Bazaar que você folheava no dentista e se lançar sobre sua máquina de escrever com uma fúria hilária para atacar a esnobação tonta e às vezes chocante dessa revista? Há alguns anos, fiz exatamente isso. Deparei com um artigo em que os fotógrafos da Bazaar, com seu pervertido senso de igualdade, mais uma vez utilizaram nativos do bairro de Porto Rico ao lado de modelos esquálidas que posavam em benefício de mulheres ainda mais esquálidas dos melhores salões do país. As fotografias me irritaram tanto que corri, não andei, para minha máquina de escrever e escrevi Sol e sombra, a história de um velho porto-riquenho que acaba com uma tarde de trabalho de um fotógrafo da Bazaar ao se intrometer em cada foto dele de calças arriadas.

Acredito que alguns de vocês gostariam de ter feito esse trabalho. Eu me diverti muito fazendo; era o efeito redentor da vaia, do berro e da intensa gargalhada. Provavelmente, os editores da Bazaar nem ouviram falar, mas vários leitores leram e gritaram:” Da-lhe, Bazaar! Da-lhe, Bradbury!”. Não proclamo vitória, mas havia sangue em minhas luvas quando liguei para eles.

A alegria da escrita (1973)

Algumas vezes as pessoas viram pra mim e dizem que vão escrever um livro. Que com todo material que só elas têm, o livro está ali e será muito interessante. Como sabem o quanto eu amo escrever e que, mesmo assim, o desejado livro nunca sai, eu noto que há algo diferente no olhar delas quando me dizem isso. Talvez temam que eu sinta inveja ou me sinta desafiada de alguma forma. Mas é justamente o contrário: escrevam, escrevam mesmo. Porque só se as pessoas realmente sentarem e levarem a sério o processo de escrever, vão entender o que eu passo.

O Do que eu falo quando eu falo de corrida, do Murakami, à princípio pode não parecer um livro sobre escrita e acho que a maioria dos leitores o busca para ler um livro de corrida. E é, é um excelente livro de corrida; mas caso além de gostar de praticar esportes, a pessoa também goste de escrever, esse livro será um prazer duplo. Sobre Murakami, só conseguia pensar: somos o mesmo tipo de gente. Não sei ao certo o que isso significa, apenas que nós somos. Para ele, escrever e correr são uma coisa só. Primeiro, porque ele passou a correr quando decidiu virar um autor. Antes ele era dono de um bar de jazz (!) e escreveu seu primeiro livro impulsivamente e ele fez sucesso. Quando decidiu escrever, passaria a ser mais sedentário e para se manter ativo passou a correr. Escrever e correr são seu estilo de vida; as duas atividades exigem o mesmo tipo de temperamento e disciplina. As três características fundamentais do escritor seriam talento e concentração. Embora o talento seja inato, ele pondera, aqueles que persistem – tal como ele que não tinha físico de atleta e começou a correr aos trinta – podem acabar encontrando águas profundas de tanto escavarem. E as duas atividades, embora não pareça, são exaustivas:

Escrever romances, para mim, é basicamente um tipo de trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro inteiro está mais próximo do trabalho braçal. Não envolve levantar peso, correr ou pular. A maioria das pessoas, contudo, enxerga apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escritório. Basta ter força para erguer uma xícara de café, imaginam, que você pode escrever um romance. Mas assim que você arregaça as mangas para começar, percebe que não é um trabalho tão tranquilo quanto parece. O processo todo – sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma história, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo fluxo da história nos trilhos – exige muito mais energia, por um longo período, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que você não mova seu corpo de um lado para o outro, mas há um exaustivo e dinâmico trabalho operando dentro de você. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo o seu ser; e para o romancista esse processo exige pôr em ação toda a sua reserva física, geralmente ao ponto da estafa.

Quatro: A maior parte do que sei sobre escrever ficção aprendi correndo todos os dias

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

Conheço fãs que gostam de tudo o que Murakami escreve, assim como também conheço quem tenha muitas reservas em relação ao autor; de ambos, ouvi que Kafka à beira-mar é seu melhor livro. Não li livros o suficiente dele para dizer se é o melhor ou não, fora esse li apenas outro que também é considerado excelente, o Caçando Carneiros. Mas, olha, que livro. Ele atende muitos critérios diferentes de um grande livro: a história se mostra cada vez mais interessante; o autor não enrola, quando o leitor capta as pistas, ele já parte para novas informações; não há uma única cena desnecessária; os personagens são cativantes; o final, as explicações e a falta de explicações são satisfatórios; o livro trata de temas profundos sem jamais se tornar piegas ou moralista. Murakami entrega aos seus leitores alguns prazeres específicos, como situações e formas de ver o mundo bastante japonesas, por mais que o mundo globalizado nos passe a ilusão de uniformidade, ainda há sim hábitos muito próprios em cada país. Oshima, a biblioteca, os personagens sempre acompanhados de uma garrafa de chá quente, é desse tipo de detalhe que estou falando. E tem as músicas. Os personagens ouvem algumas músicas e, quando fui atrás delas no youtube, os comentários eram: “Dá um like se você veio parar aqui por causa do Kafka à beira-mar”. Uma delas já entrou no meu panteão de preferidas. Não vou dizer quais são as músicas, descubra (e dê um like) você também.

A profecia é água escura e misteriosa, sempre presente.

Normalmente, ela fica submersa em algum lugar desconhecido. Mas, quando o momento chegar, a água transbordará e, silenciosa, banhará em gelo cada uma de suas células, irá afogá-lo num turbilhão cruel que o fará ofegar. Você se agarra ao respiradouro existente no alto, próximo ao teto, e busca desesperado o puro ar externo. Mas o ar que lhe vem dali é seco e quente, queima sua garganta. Água e sede, frio e calor: elementos que deviam se opor juntam-se então para atacá-lo simultaneamente.

Tanto espaço neste vasto mundo, mas você não encontra – e bastava um, bem pequeno – nenhum capaz de acomodá-lo. E, quando ansiar por uma voz, ali encontrará apenas o silêncio, ali encontrará a voz da profecia sussurrando sem parar. E pode ser que um dia essa voz aperte algo semelhante a um interruptor misterioso, oculto nalgum lugar dentro de sua cabeça.

Sua alma se assemelha a um rio cujas águas a chuva incessante transformou em caudal. A correnteza submergiu e ocultou todas as placas de sinalização terrestre e provavelmente já as carregou para um lugar escuro. Mas a chuva, copiosa, continua a cair sobre o rio. E toda vez que você vir em noticiário tais cenas de inundação, você pensará: Realmente, assim é a minha alma.

Capítulo 1/ Posição 212 de 9572

O livro conta três histórias em paralelo, que adivinhamos que em algum momento se encontrarão: um adolescente que resolve fugir de casa, um evento estranho envolvendo crianças durante a Segunda Guerra Mundial, um homem com inteligência reduzida que conversa com gatos. Não conto mais do que isso para não estragar as surpresas. O que posso adiantar é que, tais como as atuais novelas da Globo, Murakami acaba num instante com um suspense que pensaríamos que levaria o livro inteiro. Quando pensamos que uma informação específica vai desvendar o livro, ela é colocada na mesa e abre dúvidas ainda maiores. Em muitos sentidos, o livro me lembrou o filme A viagem de Chihiro e sua impossibilidade de classificar os elementos como bons ou maus, algo tão fácil em filmes da Disney. Há momentos que o leitor pula da cadeira, sem acreditar no que está lendo. Há, tal como no Caçando Carneiros (e acredito que em todos os livros dele), o fantástico mesclado no dia a dia –  e assume seu papel de fantástico na maior desfaçatez e humor. Quando o livro termina, nos pegamos nostálgicos, apaixonados por pelo menos três personagens, imaginando que vidas levam depois da aventura e temos como nossas as suas músicas preferidas.

Tio Tungstênio, de Oliver Sacks

Oliver Sacks é um médico que foi se tornando escritor e se tornando celebridade. Por não ter começado no mundo literário com a intenção de ser realmente escritor, a trajetória dos livros dele segue uma direção atípica. Embora sempre interessante, os livros dele começam mais técnicos e se libertam cada vez mais; começam falando de outros e depois revelam a biografia. Como acontece com qualquer autor, há livros melhores do que outros, mas no geral dá pra pegar sem medo porque são sempre bem escritos. Se me pedissem uma recomendação, eu diria que Enxaqueca e A Mente Assombrada são péssimos começos por serem muito técnicos, e que Diários de Oaxaca é totalmente fora da curva. Para amar Sacks é preciso lê-lo em ação: comecem com O homem que confundiu sua mulher com um chapéu ou Um antropólogo em marte. Tio Tungstênio, para mim, é meio como um Carl Sagan: leve até aquela criança inteligente e solitária que ama ciência – mesmo que essa criança ainda exista apenas dentro de si.

Por mais fraco que fosse o nosso olfato em comparação com o dos cães – nossa cachorra, Greta, conseguia detectar suas comidas favoritas se abríssemos uma lata no outro extremo da casa -, ainda assim os humanos pareciam possuir um analisador químico no mínimo tão refinado quanto os olhos ou os ouvidos. Não parecia existir uma ordem simples, como a escala de tons musicais ou cores do espectro, mas mesmo assim nosso nariz era admirável porque fazia categorizações que correspondiam, de algum modo, à estrutura básica das moléculas químicas. Todos os halogênios, embora diferentes, tinham odores característicos de halogênio. O clorofórmio cheirava exatamente como o bromofórmio, e tinha um cheiro bem parecido – mas não idêntico ao do tetracloreto de carbono (que era vendido como líquido para lavagem a seco chamado Thawpit). A maioria dos estéres tinha cheiro de fruta; os alcoóis – pelo menos os mais simples – tinham cheiros “alcoólicos” semelhantes, e o mesmo valia para aldeídos e as cetonas.

(Erros e surpresas certamente podiam ocorrer; tio Dave contou-me queo fosgênio, cloreto de carbonila, o terrível gás venenoso usado na Primeira Guerra Mundial, em vez de anunciar-se perigoso emitindo um cheiro característico dos halogênios, tinha um enganoso odor de feno recém-cortado. Esse aroma adocicado e rústico, recendendo aos campos de feno da infância, foi a última sensação que tiveram os soldados envenenados por fosfeno antes de morrer)

8. Fedores e explosões/ Posição 1204 de 4826

 

Para quem cresceu com a imagem do Dr. Sacks como o médico doce de Tempo de Despertar e sua incrível empatia evidenciada nos livros que tratam de casos clínicos, quando ele revela um pouco da vida sempre nos pega um pouco de surpresa. No Mente Assombrada descobrimos que Dr. Sacks já se submeteu a muitas experiências com drogas, até se tornar viciado nelas. No Diário de Oaxaca, sabemos que ele é o tímido que se afasta do grupo para escrever e que ama samambaias. Com o Tio Tungstênio, ele vai ainda mais para trás e fala do seus antecedências familiares: o avô que estimulou o intelecto dos filhos, homens e mulheres; o papel da sua família na popularização das lâmpadas elétricas; a cultura reinante numa casa próspera de um casal de médicos; a chocante perda da idílio quando se afasta dos pais na época da guerra e vai para um colégio interno de crianças judias; a difícil reconstrução de si mesmo e o papel da ciência na sua vida. Sacks reconstrói seu interesse e nos leva à história do desenvolvimento da química, a biografia dos seus pioneiros, o desenvolvimento de princípios e objetos que hoje nos parecem tão “naturais” como se tivessem surgido do ar. Rico de deliciosa cultura enciclopédica, é um livro que consegue ser ao mesmo tempo científico e humano, histórico e biográfico. Recomendo.

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

Do título, ao tema, aos depoimentos, à forma como as entrevistas foram conduzidas, as perguntas que a autora procurou responder, as questões levantadas – tudo em A guerra não tem rosto de mulher grita a importância da representatividade. Uma das suas entrevista confidencia a Aleksiévitch que passou a noite anterior à entrevista com o marido, que também participou da guerra, estudando livros de história. Ele revisou a história oficial com ela porque “não queria que ela passasse vergonha”. Censores e editoras também passaram muito tempo achando o conteúdo do livro vergonhoso por ser excessivamente “naturalista”, desqualificar heróis, jogava lama na vitória dos aliados. O que há de vergonhoso no relato feminino é a tendência a falar do que é deixado de lado nos grandes feitos heróicos da história, constituído por datas e alta tecnologia e se voltar para o prosaico: mães que uivavam de dor ao se despedir dos filhos nas estações, do horror à cor vermelha por ter visto sangue demais, a resistência quando se precisa matar uma pessoa pela primeira vez. 

Estamos acostumados a pensar que a participação feminina na guerra, no que diz respeito ao trabalho, estava limitada às fábricas e enfermarias. Mas elas também estiveram no front, foram franco-atiradoras, motoristas, tanquistas. A presença delas nunca era indiferente – o trabalho pesado demais para os seus corpos, a necessidade maior de provar que consegue ser útil, o pudor dos homens diante delas. Os homens ora viam nelas filhas, ora o retrato da valentia e pureza, e as punham num lugar especial; estupro de mulheres, ou até mesmo de crianças, estava reservado a outras. Nem todas as paixões de guerra vingavam, às vezes as pessoas se viam cansadas de olhar para aqueles com quem vivenciaram o horror. Em um dos depoimentos, uma disse que a guerra obriga a deixar parte da humanidade de lado e se tornar mais animal, para sobreviver. Muitas falam da guerra como o período que “foram homens”. Com o final da guerra, vinha a difícil tarefa de se readaptar, preconceito – como se pelo fato de terem passado tanto tempo com homens fosse sinônimo de prostituição – , o esquecimento da história oficial.

Certa vez uma mulher que havia sido piloto recusou-se a se encontrar comigo. Por telefone, explicou: “Não posso… não quero lembrar. Passei três anos na guerra. E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita… Quando meu futuro marido me pediu em casamento… Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag. Ele disse: ‘A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo.’ Eu queria chorar. Começar a gritar. Bater nele. Como assim casar? Agora? No meio de tudo isso – casar? No meio da fuligem preta, de tijolos pretos… Olhe para mim… Veja em que estado estou! Primeiro, faça de mim uma mulher! Me dê flores, flerte comigo, me diga palavras bonitas! Eu quero tanto isso! Esperei tanto! Por pouco não bati nele… !ueria bater… Uma de suas bochechas estava queimada, vermelha, e eu vi que ele tinha entendido tudo: desciam lágrimas por essa bochecha. Pelas cicatrizes ainda recentes… E eu mesma não acreditei que estava dizendo: ‘Sim, eu me caso com você’.

1978-85/ Posição 126 de 5468

Para além da guerra em si, é um livro terno. Impossível deixar de perceber a pessoa amorosa que fez aquelas entrevistas. Há um trajeto doloroso na busca desses depoimentos, que pareciam nunca ter fim – uma mulher indicava a outra, pessoas escreviam pedindo para ser entrevistas, ou a auto-censura só permitiu que algumas coisas fossem ditas depois da queda da URSS. A autora começa uma “mocinha” que pede para ouvir sobre o horror e  vive a cada entrevista um contato profundo e efêmero. Lembranças que faziam as entrevistadas passarem mal, cair no choro, ter que tomar remédio para o coração – e depois pediam para continuar. “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Mesmo diante da morte e da dor, existe o lado rotineiro da vida, roupas que precisam ser lavadas, vontade de comer bombons, cheiro de casa, a natureza. “Não importa do que as mulheres falassem, até mesmo de morte, sempre se lembravam (sim!) da beleza, que aparecia como uma parte indestrutível da existência”. Apesar de tudo, é também um livro de heroísmo, tal como outros livros de guerra; mas o olhar bondoso da autora e o ineditismo do material que ela colheu também transformam o livro numa reflexão sobre memória, humanidade, vida. 

Depois, mais de uma vez me deparei com essas duas verdades convivendo numa mesma pessoa: a verdade pessoal, relegada à clandestinidade, e a verdade geral, impregnada do espírito do tempo. Do cheiro dos jornais. A primeira raramente consegue ficar de pé diante da segunda. Por exemplo, se no apartamento, além da narradora, estivesse também presente outro tipo de parente ou conhecido, vizinho (especialmente homem), ela seria menos sincera e confidente do que se estivéssemos só as duas. Já se tornava uma conversa pública. Para o expectador. Extrair suas impressões pessoais se tornava tarefa impossível, e eu imediatamente verificava uma rigorosa defesa interna. Um autocontrole. A correção se tornava habitual. E até pude identificar um padrão: quanto mais ouvintes presentes, mais desapaixonado e estéril era o relato. Mais cauteloso em relação ao que manda o figurino. O que era terrível já se tornava grandioso, e o incompreensível e obscuro no ser humano era imediatamente explicável. Eu ia parar no deserto do passado, onde só havia monumentos. Façanhas. Orgulhosas e impenetráveis. [….] Todas as vezes eu ficava estupefata com essa falta de confiança no que é simples e humano, com esse desejo de substituir a vida por um ideal. O que é habitualmente cálido por uma auréola fria.

Eu não conseguia esquecer como havíamos bebido chá daquele jeito caseiro, na cozinha. As duas chorando.

Fui a única a voltar para minha mãe/ posição 1793 de 5468

As rãs, de Mo Yan

Ao longo da leitura de As Rãs, pensei muito em que palavras usaria para descrever o livro. Pensei muito porque realmente quero recomendar este livro, que li como mera curiosidade para conhecer um escritor chinês que ganhou um prêmio Nobel. Uma das palavras que me veio à mente, e que nunca vi usada em literatura, é naif. De acordo com o Wikipedia:

A Arte Naïf é uma classificação que designa artistas auto-didatas que inventam um jeito pessoal de expressar suas emoções.(….) A palavra naïf é um termo francês que significa ingênuo ou inocente; portanto, a “arte naïf” é todo produto artístico de natureza pueril que demonstra uma criatividade autêntica baseada na simplificação de elementos decorativos a níveis brutos, espontâneos, puros, coloridos.

O livro passa a impressão, que tem a ver com a história pessoal do autor (a biografia é desinteressante, já adianto), de ter sido escrito por alguém que não veio de um meio literário e sim cheio de narrativas orais; o livro seria apenas apenas a última etapa do processo, de uma história que já foi contada e enriquecida de detalhes a cada audiência. Há algo de espontâneo e direto no livro, como se fosse uma reunião dos causos mais interessantes da vizinhança. A sensação ao ler o livro é esta: nos reunimos com os amigos e parentes e eles nos contam as últimas novidades, em detalhes deliciosos. Some isso às diferenças culturais, expressões impensáveis dentro da nossa própria língua, costumes diferentes, as mudanças radicais da Revolução Cultural. As Rãs é tão emocionante e surpreendente como se fosse um grande Casos de Família por escrito.

Professor, tínhamos em nossa aldeia um costume bem antigo de batizar as crianças com o nome de partes do corpo humano, como Chen Nariz, Zhao Olho, Wu Intestino, Sun Ombro… Nunca procurei saber a origem dessa prática, talvez tenha surgido por acreditarem que um nome humilde daria vida longa, ou pelo fato de as mães considerarem o filho parte da própria carne. Esse é um costume que caiu um desuso. Os pais de hoje não querem mais dar nomes estranhos aos filhos. As crianças da aldeia agora recebem nomes sofisticados de personagens de novelas de Hong Kong, de Taiwan ou Coreia. Quem tinha nome à maneira antiga, na maioria dos casos, acabou optando por outro mais elegante. Naturalmente, há aqueles que mantiveram o original, como o Chen Orelha e o Chen Sobrancelha.

Chen Nariz – pai de Chen Orelha e Chen Sobrancelha – foi meu colega de escola primária e meu amigo de juventude. Entramos na escola primária de Dayanglan no outono de 1960. As memórias mais marcantes que tenho daquela época de fome são, em grande parte, relacionadas à comida. Por exemplo, a história de quando comi carvão. Muitos pensam que é invenção minha, mas juro por minha tia que tudo aquilo aconteceu de fato, eu não inventei nada. (Parte I. capítulo 1)

O protagonista, Corre Corre, é como um dos muitos camponeses de uma pequena vila na China. Ele é como os que o cercam; Corre Corre não faz a menor questão de esconder suas fraquezas, que muitas vezes se propõe a ser melhor e não consegue, que vai no fluxo e acaba por decidir pelo que lhe é mais cômodo, o que o torna um personagem muito simpático. Seu ponto de contato com um mundo diferente é a sua tia, uma mulher idealista, teimosa e forte, que se torna a obstetra da vila e mais tarde representante do Governo. A vida dele e de toda vila é modificada quando inicia a Revolução Cultural, que traz novos valores e perspectivas. A tia dele acaba sendo o ponto de contato de políticas distantes do Partido Comunista e a realidade do povo comum. A delícia do livro é oferecer a visão micro do que é decidido no macro, como o povo reage a decisões políticas que num momento vão de encontro aos seus desejos e em outro os contrariam. O mesmo partido que no início estimulava a concepção, depois adota a política do Filho Único e coloca à força DIU, faz laqueaduras e interrompe sem escrúpulos gravidezes de sete meses. O processo não foi nada tranquilo, como nos faz parecer as distantes estatísticas. A tia mantém, por toda vida, a mesma atitude de fervor aos ideais do partido, e vai ao céu e ao inferno por isso. Mais do que a história de Corre Corre e sua tia, o livro conta a história da vila inteira, é um registro sobre a Revolução Cultural. O livro me fez lembrar das linhas de conhecimento, que quando tendem para a sociedade esquecem do indivíduo e vice-versa. Mo Yan consegue mostrar muito bem essa relação. Vemos como camponeses, pobres e ignorantes em muitos aspectos, dotados de relações e saberes tradicionais, manejam com inteligência os meios para tentar fazer as situações irem a seu favor. Temos o macro, com o partido, as políticas, o presidente Mao; em meio a isso, pessoas que se apaixonam, se vingam, mudam de ideia, se divertem, protagonizam barracos e, principalmente, procuram seu caminho.