Achados de uma geração perdida, de Suzanne Rodriguez-Hunter

Nem todos – na verdade, apenas ele – nasceram para serem Borges. Para quem gosta de escrever, constatar isso costuma ser doloroso. Mas, ao mesmo tempo, que bom que não somos Borges, que bom que existe Kafka, Rosa, Woolf e tantas outras vozes, tantas maneiras diferentes de descrever o mundo, e cada uma interessante à sua maneira. Mais do que isso: às vezes nem é necessário ser um grande escritor para produzir um livro que valha a pena, basta a execução correta de uma boa ideia. O Achados de uma geração perdida: receitas e anedotas da Paris dos anos 20 é exatamente assim.

Eles se rebelaram contra seus pais, dançavam a som de músicas estridentes e chocantes, eram desiludidos pela guerra, flertavam com cocaína, abriram as fronteiras da liberdade sexual, cortavam os cabelos geometricamente e os pintavam com henna, adoravam arte abstrata, participavam de seitas, voavam em aviões num mundo que se tornava pequeno, dirigiam carros velozes, discutiam suas motivações inconscientes, rejeitavam o conformismo e muitos entre eles bebiam ou se drogavam em excesso.

À falta de maiores informações, poder-se-ia pensar serem eles frutos de uma explosão de natalidade, a exemplo do que ocorreu nos anos 60, mas estaríamos enganados. Na verdade, eles eram os Modernos – a primeira geração moderna. Nascidos perto da virada deste século, eles ficaram conhecidos hoje em cia para nós como a “geração perdida”. (p.18)

A proposta é muito simples: a autora pega alguém da geração perdida – nomes nada desinteressantes como Picasso, James Joyce, Ernest Hemingway, Josephine Baker, Cole Porter, entre outros -, traça um rápido perfil e conta um episódio culinário envolvendo essa pessoa. Depois, oferece a receita dos pratos citados. O resultado é uma delícia. Através de histórias prosaicas – John dos Passos de licença durante a guerra, Robert McAlmon conhece os sogros do seu casamento de fachada, o jovem Hemingway se presenteia com cerveja, salada de batata e salsinha nos tempos de dureza, Brancusi canta e dança músicas folclóricas romenas para seus convidados – conhecemos grandes nomes da geração de 20, nossos ídolos se mostram como pessoas comuns e entendemos um pouco de uma época.

Quando a chuva começou a cair pesado, alugaram um quarto de hotel, metendo-se dentro de pijamas enquanto suas roupas secavam perto da lareira. Fitzgerald, que era hipocondríaco, mesmo quando em plena forma, convenceu-se de que estava morrendo de uma congestão pulmonar. Rastejou para a cama onde ficou tomado de desespero, bebendo limonada quente e uísque. Quem, ele se perguntava preocupado, irá cuidar de Zelda e sua filha Scotty quando partisse? Começou, então, a contar a Hemingway detalhes íntimos do caso de amor de Zelda com um piloto francês. Esse tipo de descrição enojou Hemingway que, agora, arrependia-se amargamente de toda aquela viagem.

De alguma forma, Fitzgerald recuperou-se quando as roupas secaram e concordou com Hemingway de que um jantar poderia ajudá-lo em seu estado delicado. Vestiram-se e desceram as escadas. Fitzgerald pediu uma ligação telefônica para Zelda em Paris. Enquanto esperavam, os dois homens seguiram para o restaurante. Mesmo inquieto, Fitzgerald conseguiu saborear uns escargots e uma garrafa de vinho branco, antes que a ligação fosse completada. Ele sumira por quase uma hora. Hemingway comeu o resto dos escargots. (p.169-170)

Isso sem falar nas receitas. Até eu, que detesto cozinhar, fiquei com vontade de fazer a Sopa de Cebola Les Halles, um prato popular entre os boêmios, porque sustentava e era uma poucas coisas que se servia de madrugada. Tem o drink afrodisíaco de Jimmy, o barman, que “nas mulheres, tinha o efeito de fazer com que tirassem a roupa em público”. Você fica sabendo sobre o que Alice, companheira de Gertrude Stein, servia nas disputadas reuniões na casa de ambas, pode tentar repetir o que James Joyce e Silvia Beach – editora da Shakespeare e Company, futura responsável pela publicação de Ulisses – comeram assim que se conheceram… Enfim, o livro é maravilhoso. Tem em sebos. Não percam.

Muito além do peso

Por Adriane Hagedorn

Não te dá um nó na garganta ouvir de uma criança que o que falta em sua vida é o sentido? Então se prepare para muitos outros nós que estão por vir!

O filme “Muito além do peso”, de Estela Renner nos dá um soco seco no estômago e trata de forma clara e educacional o descaso que se tem com a alimentação correta. Você imagina um mundo com crianças que não sabem distinguir uma batata de uma cebola; ou um abacate de um pimentão?

O documentário – que estreou em novembro – apresenta dados assustadores de cultura, educação e da alimentação de crianças brasileiras. O aparentemente inofensivo refresco de fruta em pó, por exemplo, é um dos vilões da alimentação que já começa com o pé errado desde cedo. Em 35g de refresco, há 28g de açúcar e 1% de fruta! Isso contribui a um outro fato: 51 quilos, peso médio de consumo anual de açúcar por brasileiro.

De todos os dados informados no documentário (que nos surpreende a cada nova informação) um me pegou de surpresa: 56% dos bebês ingerem refrigerantes com frequencia antes de completar um ano.

Leio o restante do post e os videos que ele apresenta.

 

ATUALIZAÇÃO: é possível ver o documentário completo aqui.

Carne fresca

Elias, no final do século XX, já previa que tenderíamos a nos tornar cada dia mais vegetarianos. Ele não previa com isso os argumentos de preocupação com o meio ambiente ou o discurso de amor aos animais. Se levarmos em conta o que sua teoria, tais explicações são racionalizações, explicações posteriores de um processo muito profundo que tem sofrido nossa mentalidade ao longo dos séculos – a alteração dos padrões de boas maneiras e da noção de nojo.

As boas maneiras são contrárias ao contato. Ser civilizado é sinônimo de ser mais controlado e distante. Isso se reflete na maneira como lidamos com as pessoas, com momentos específicos para tocar, sempre em partes do corpo pré-determinadas e da maneira mais desapaixonada possível. O objetivo é que o toque não pareça um toque. Basta pensar no incômodo que causa quem leva os beijinhos de cumprimento à sério, e beija de verdade a ponto de deixar o rosto do outro marcado com saliva. A vontade imediata é limpar o rosto, gesto que contemos também em nome da educação. O contato com o que há de mais corporal é considerado vergonhoso. Não queremos e não podemos entrar em contato com fluidos, excrementos e cheiros de pessoas com quem não temos intimidade. Mesmo com aquelas que temos intimidade, esperamos que elas não nos forcem a ter contato e ver tudo. Temos para com algumas funções corporais uma mistura de nojo, pudor e vergonha. O espaço onde cada um elimina de si essas características é o banheiro, o mais privativo dos lugares.

Na comida também evitamos o contato. Cada prato é o domínio intransferível da comida de cada um, regra que só pode ser quebrada entre os que são muito íntimos. Os talheres individuais servem de mediadores entre a comida e a boca, e os talheres de comida servem de mediadores entre a comida da mesa e do prato. Mastigamos silenciosamente e de boca fechada para que os outros não participem involuntariamente do nosso gesto de comer. A comida que comemos à mesa nada tem a ver com a que foi colhida ou abatida. Ela já chega ao consumidor pré-lavada, cortada em cubos, embalada, em bandejas. A nossa complexa vida social gerou uma divisão de trabalho tão intensa que muitos de nós jamais verão pessoalmente um animal de corte, muito menos o seu abate. Não gostamos de vincular morte à comida nem no que dizemos a mesa, quanto mais ao que comemos. Escondemos dos nossos olhos todo o processo pela qual a carne passa, e isso faz com que ela se desvincule do sangue e morte que lhe é inerente.

Sabemos que certos alimentos têm origem animal, mas é quase algo teórico. Não vemos e não queremos saber. Queremos que certas coisas permaneçam abstratas, porque não conseguimos mais lidar com os processos que transformam um porco numa linguiça. Que sejam feitos por outras pessoas, longe de nossos olhos e consciências. Por isso muitos optam pelo caminho do vegetarianismo.

Alimentação perfeita

Cresci em meio a livros de alimentação natural e homeopatia, e minha mãe sempre se esforçou para seguir o que esses livros pregavam. Mas era muito difícil. Se por um lado as marmitas de comida macrobiótica que ela trazia determinaram o meu paladar para sempre, por outro éramos crianças e todas as crianças estão atentas às novidades das bolachas, dos chocolates, dos salgadinhos. Ela tentava achar um meio termo, se recusando a comprar Tang e dando preferência ao chocolate no lugar da bala. A intenção era ser naturalista, mas pra isso ela precisava de um tempo, dinheiro e pesquisa impossíveis para uma mulher que passava o dia inteiro fora.

Se por um lado minha mãe não conseguiu a alimentação perfeita, eu tive a oportunidade de conhecer quem conseguiu essa proeza. Era uma família formada por um casal de uma filha. Não conheci o pai, que passava quase todo o tempo na chacarazinha que eles tinham. Eu desconfiei de qualquer coisa quando a filha, que era uma pessoa muito sociável, se recusou a ir a um comes & bebes de confraternização. O convívio com a família e muitos sucos de bambu depois, me fizeram descobrir que ela e a mãe conseguiam realmente se alimentar de modo “perfeito”, do modo que todos os livros de comida natural pregam. Elas eram totalmente vegetarianas e cortaram o açúcar de suas vidas. As coisas que elas comiam vinham de diferentes origens: da chácara, da hortinha no apartamento, de feiras de orgânicos e, por último, da sessão de hortifruti do supermercado perto de casa. E era apenas isso e produtos de limpeza que elas compravam lá. Tudo o que elas comiam era feito em casa e integral; graças ao talento culinário da mãe, tudo era muito gostoso.

Ao mesmo tempo, foram elas que me fizeram perceber porque minha mãe nunca conseguiu ter a alimentação natural perfeita, do mesmo modo que eu não consigo. Se nós lemos Sugar Blues e acreditamos no poder dos alimentos, o que nos falta? A família de alimentação perfeita a tinha tão perfeita que elas nunca comiam fora de casa. Seus critérios alimentares eram rigorosíssimos. A filha se viu em sérios problemas quando começou a namorar e foi conhecer a família dele. Para agradá-la, sabendo que ela não bebe refrigerante ou sucos de caixa, decidiram lhe oferecer um chá. Compraram matte leão. Mas pra quem é realmente naturalista algo que vem adoçado, cafeinado e numa garrafa pet não pode nem ser chamado de chá. Ela não aguentou beber e foi pega no flagra quando despejava o conteúdo do copo na pia da cozinha…

Por outro lado, conheço quem se despreocupe completamente com essas questões. Eu mesma fiz isso, quando casei. Adotamos aqui em casa o mesmo esquema que o Luiz estava acostumado na casa dos pais dele: geladeira sempre cheia de refrigerante, comida congelada, bolachas recheadas, muitas idas à praças de alimentação. Mais tarde, tivemos que lutar para emagrecer e eu me revelei uma grande viciada em coca-cola. A mesma coca-cola que um amigo do Luiz (cada dia mais gordo e com problemas de colesterol) toma de café-da-manhã, porque “espremer uma laranja pra fazer suco dá muito trabalho e perde muito tempo”. Na falta de tempo e de habilidade para fazer uma boa comida natural, pagamos caro pra comer regularmente num restaurante vegetariano. Dá pra dizer que temos uma alimentação mais saudável do que a média. Vejo os resultados disso quando minha cunhada, que é mais nova do que o Luiz, teve que retirar pedras da vesícula e parece muito mais velha.

Por isso que eu gostei muito quando a Sonia Hirsch, na sua entrevista, falou da alimentação possível, a alimentação que conjuga o que faz bem com o que todo mundo come. Porque a comida é muito mais do que um simples combustível que nos anima. Ela está nas confraternizações entre amigos, no lanche da tarde com as visitas, nos almoços para conhecer os pais, no cafezinho com os colegas de trabalho, nos jantares de negócios. O que comemos fala da época que nós vivemos, e com quem comemos fala sobre as nossas relações . Não acho que devemos nos submeter apenas à nossa época de maneira acrítica, em matéria de comida ou em qualquer outra. Ao mesmo tempo, não conseguimos estar de todo fora dela.

Entrevista de Abujamra com Sonia Hirsch

“O Ministério da Saúde é um grande ministério da doença, que detecta a doença até aonde não existe, pra promover campanhas”. Com essa provocação, Sonia Hirsch, jornalista especializada em saúde e alimentação relaciona a indústria farmacêutica com a má alimentação da população.

Segundo ela “a alimentação de hoje produz o doente de amanhã, e todo mundo fica feliz”. Por todo mundo, Sonia engloba tanto os médicos e suas clínicas, quanto a indústria farmacêutica e a publicidade: “a propaganda é inteiramente irresponsável, o governo é inteiramente irresponsável, não só com relação à propaganda, mas ao que está escrito no rótulo”.

“À medida que a indústria do Câncer foi crescendo, os exames de fezes foram decaindo”, com essa frase, Sonia critica a postura dos médicos de hoje, que aboliram essas medidas simples, na detecção das doenças, e passaram a se preocupar em diagnosticar o câncer.

Sua indignação em relação ao câncer levou sua pesquisa mais a fundo: “o câncer sempre me pareceu uma história mal contada, uma caixa preta que não tinha razão de ser”. Boa parte de suas pesquisas e publicações em seu site são relacionados a esse tema.

Mesmo com as críticas, a jornalista enfatiza: “a saúde é um direito de todos e um dever de todos”, cada um deve ser responsável por saber aquilo que é melhor para si. Para Sônia o Estado não conseguer cuidar de todos nós.

Veja aqui.

Blog da Sonia Hirsch. Site dos livros de Sonia Hirsch.