A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

handmaid- esperma extra

Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

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A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

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* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Fisiologia, prazer e sexo anal

Nos muitos comentários contra este vídeo, dizem que os dados sobre endocardite estão errados e que é clara a visão preconceituosa dela a respeito da homossexualidade. Eu não tenho formação o suficiente para discutir os dados que a palestrante levanta e opiniões abalizadas seriam muito bem vindas. Entre os defensores, há os que dizem que “Deus criou tudo perfeito como deve ser”, o que eu também me parece bastante complicado, porque não usamos “tal como deve ser” muitos órgãos – somos bípedes, comemos alimentos industrializados, tiramos pedaços do nosso corpo, medicamos, fazemos enxertos, etc.

O que torna essa discussão interessante, para mim, são as perguntas que a palestrante coloca no início: de onde surgiu o consenso de que sexo anal é ótimo e muito prazeroso a qualquer mulher, se feito da maneira correta? Com endocardite ou não, as explicações dela expõem a fragilidade, do ponto de vista físico, da penetração anal em relação à vaginal. Que, por mais que os discursos atuais tendam ao contrário, não é uma simples questão de “respire fundo e tenha boa vontade, querida”. Há uma clara influência da indústria pornográfica sobre esse discurso e a ênfase não está no prazer feminino. Vale lembrar que as consequências do pornô vão além daqueles que estão no filme, ele influencia a forma como todos os que assistem vivenciem sua sexualidade – e algumas dessas pessoas ainda estão na adolescência:

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”(….) Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

(Retirado de: A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível)

Julgamento e punição em Black Mirror

Eu acredito que a série Black Mirror já virou uma referência cultural obrigatória. As três temporadas disponíveis (até a publicação deste post) possuem episódios com histórias e durações diferentes, que fazem pouca ou nenhuma referência entre eles, mas tem em comum o uso da tecnologia. Às vezes a tecnologia está implantada nos corpos dos personagens, mas sempre está nas vidas. É também através da tecnologia que existem as redes sociais, que tem como característica o imediatismo e a possibilidade de um julgamento público. É sobre as questões levantadas na série acerca de julgamento e punição que eu gostaria de falar. Antes de continuar, o spoiler alert obrigatório: falarei sobre os episódios indistintamente, entregando a história, então não leia se quiser descobrir sozinho.

Acho que o episódio punitivo por excelência é do Urso Branco (episódio 2, 2º temporada). Uma mulher acorda sem memória, num mundo dividido entre presas, caçadores e uma multidão de indiferentes que gosta apenas de olhar enquanto os dois primeiros grupos morrem. Depois de um dia terrível, descobrimos que tudo aquilo não passa de um imenso teatro televisionado que tem por objetivo punir a moça, que havia sido responsável pelo sequestro seguido de morte de uma criança. Várias coisas que ela foi encontrando ao longo do dia faziam referência à sua história, apesar de ela não lembrar porque teve a memória apagada: o símbolo usado nas telas, a fuga na floresta, cordas de enforcamento, imagens pelo celular, o termo Urso Branco. Depois de tudo revelado, ela é colocada de volta e entendemos que ela vive aquilo em looping, como punição. O mais chocante é quando vemos, depois dos créditos, a diversão que aquilo se torna àqueles que fazem o papel de público e pagam ingresso. Há até um carro especial que torna possível vê-la e odiá-la enquanto está amordaçada e confusa numa cadeira. Como ela é claramente culpada, então está liberado torturar e se divertir com isso.

Acho que não foi por acaso que as histórias que envolvem punição tem crianças envolvidas, porque ninguém nos parece mais monstruoso do que aquele que fere crianças. No Manda Quem Pode (episódio 3, 3º temporada) – o episódio menos futurista de todos – vemos um adolescente ser chantageado e, junto a outras pessoas também chantageadas, ter seus limites testados. O maior medo dessas pessoas é ter seus segredos revelados; no caso do adolescente, um vídeo onde se masturba. Com o que conhecemos a respeito dele e suas dificuldades de relacionamento, seu medo parece bastante coerente. Apenas no final o espectador fica sabendo que não foi uma masturbação qualquer: ele estava vendo pornografia infantil. Até então, tínhamos pena dele. Esse final parece lançar a pergunta: você continua com pena? Sendo o adolescente um provável futuro pedófilo, ele mereceu ou não o que fizeram com ele? A chantagem, nesse caso, adquire ares de justiça porque tendemos a dizer que Sim, que quem faz mal a uma criança é um monstro que merece sofrer. Nos minutos finais do Natal (episódio 4, 2º temporada), o policial se permite torturar por puro sadismo o duplo do assassino confesso que deixou uma criança morrer. Uma criança que ele pensou durante anos que fosse sua filha e que morreu por negligência e não por maldade deliberada. Ou seja, vemos o argumento da punição adquirir sutilezas: fazer mal a uma criança é sempre monstruoso ou existem gradações? A natureza do mal e como combatê-lo é um tema discutido no Engenharia Reversa (episódio 5, 3º temporada). Ao fazer com que os policiais vissem o seu alvo como “baratas”, desfigurados, meio zumbis, retirando deles a humanidade até mesmo nos cheiros e fluidos, tornava seu trabalho mais fácil – isentava da culpa de matar um igual. Retirar do outro a sua humanidade permitia devolver o mal com mais mal e violência. No episódio o olhar dos policiais era alterado por um aplicativo, mas cabe lembrar que, por definição, toda cultura é uma forma de olhar.

Black Mirror aponta as redes sociais como um amplificador imediato das vozes da maioria. E se as pessoas fossem avaliadas constantemente pelos outros e as que fossem melhores pessoas fossem premiadas pelo seu bom comportamento? Essa é a premissa, que à princípio soa como muito válida, do Queda Livre (episódio 1, 3º temporada). Nesse mundo, as cinco estrelinhas com que avaliamos alguns serviços são extrapoladas e entram como critério em valores de alugueis, passagens de avião, convites para festas. A personagem, na sua ansiedade em agradar, acaba se tornando irritante pelo seu visual rosa, sorriso constante e um tom de voz bonzinho – ansiedade essa presente em quase todos à sua volta, o que dá um tom falso e meio histérico às interações no episódio. Mesmo esse esforço constante não impede que a personagem receba avaliações negativas, algumas por circunstâncias injustas, como esbarrar em alguém na rua ou ser mal atendido. Essa pressão de agradar a maioria é manipulada pelo sequestrador do antológico Hino Nacional, o episódio 1 da 1º temporada. A princípio, ninguém achava que o primeiro ministro deveria ceder à pressão de fazer sexo com um porco, mas todos mudam de ideia após a divulgação do vídeo do sequestrador retirando o dedo da princesa. O que antes era absurdo se torna uma obrigação. Depois ficamos sabendo que o dedo não era da princesa e que ela foi solta antes mesmo do primeiro ministro se submeter às exigências. O sequestrador sabia que, ao contrário da história de Lady Godiva, o país pararia para ver aquilo – chocado, indignado, mas morbidamente curioso e sem poder ficar de fora do “acontecimento do ano”.

Numa visão bastante pessimista do que são as opiniões da maioria, em Black Mirror elas tendem pro imediatista, manipulado, violento e pornográfico. Quando começa o Quinze Milhões de Méritos (episódio 2, 1º temporada), a primeira sensação é que o protagonista, Bing, é alguma espécie de condenado, por ter que viver num espaço tão pequeno e ser forçado a assistir uma programação que claramente não é escolhida por ele. Depois descobrimos que não é assim, que o que nos parece castigo é uma forma de vida até mesmo privilegiada. Ele e os outros são os sujeitos que passivamente alimentam uma engrenagem complexa de consumo que não entendemos ao certo, mas que tem como um dos ideais estar dentro da tela, ser famoso, principalmente por ter triunfado numa espécie de X Factor. Cada um, dentro de seu cubículo, participa virtualmente da platéia desse programa, e é essa platéia que pressiona a jovem Abi a se submeter aos jurados que não a vêem como cantora e sim como uma excelente futura pornstar. Insensíveis à beleza e à pureza, como diria o protagonista mais adiante, a platéia se baseia apenas nos seus desejos e curiosidade para submeter a moça à industria pornográfica. Quando, mais tarde, Bing aparece no mesmo programa para ter voz e denunciar o modo de vida massificante e vazio a que todos estão submetidos, ele mesmo se torna uma estrela – seu discurso é aproveitado e esvaziado pelo próprio consumismo que ele tentou combater. Impossibilitado de salvar a todos, ele opta por salvar apenas a si mesmo.

O vilão de Odiados pela nação (episódio 6, 3º temporada) é justamente alguém indignado com a truculência da maioria e que procura fazer com que o ódio que ela nutre pelos inocentes da vez se volte contra elas. Usando abelhas eletrônicas, ele condena à morte todos aqueles que, irresponsavelmente, condenavam à morte pessoas que recebiam destaque negativo nas redes sociais. Com esse pressuposto de que quem deseja a morte merece morrer, isso promoveria uma verdadeira limpeza, apenas os maus seriam atingidos pelas abelhas. Novamente a encontramos a noção de mérito e eugenia, mas desta vez contra aqueles que normalmente são platéia. Mas, se as abelhas atacaram apenas os indivíduos violentos, por que no final do episódio vemos uma multidão furiosa em torno do carro da policial encarregada do caso? O assassino, ao condenar a morte todos os que usavam a hashtag mortífera, agiu dentro da mesma lógica daqueles que pedem chacinas e extermínio de condenados: como se a maldade fosse isolável, presente em alguns indivíduos e não em outros, e com a morte dos que possuem essa característica, ela seria eliminada da mesma forma que se isola e elimina uma doença. Não funcionou no episódio, nunca costuma funcionar em sociedade. A maldade, como mostraram os episódios anteriores, está difundida, massificada, recheada de desejos e ignorância, representada por uma multidão anônima que não tem noção e nem responsabilidade por suas consequências.

 

Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.

Madonna, Tina Turner e o envelhecimento

No último dia 2 de maio, Madonna compareceu a um tapete vermelho com um modelo Givenchy e recebeu muitas críticas. Basicamente, ela foi acusada de ser velha demais para expor o seu corpo desta maneira:

E rebateu as críticas com o seguinte texto (disponibilizado por Denise Arcoverde, no Facebook):

Nós sempre lutamos e continuaremos lutando por direitos civis e gays ao redor do mundo. Quanto aos direitos das mulheres, nós ainda estamos na era das trevas. Meu vestido no MET Gala foi uma manifestação política, assim como uma manifestação fashion. O fato de algumas pessoas ainda acreditarem que uma mulher não pode expressar sua sexualidade e ser aventureira após uma certa idade é a prova de que ainda vivemos em uma sociedade etarista e sexista. Eu nunca pensei de uma forma limitada, e não vou começar agora. Nós nunca estaremos provocando mudanças, a menos que aceitemos os riscos de sermos destemidos e passarmos a percorrer a estrada menos percorrida. É assim que mudaremos a história. Se você tem algum problema com a forma como eu me vesti, isso é apenas uma reflexão do seu próprio preconceito. Eu não tenho medo de abrir caminhos para as garotas que vêm depois de mim. Assim como Nina Simone disse uma vez, a definição de liberdade é ser destemido. Se junte à minha luta pelo gênero. Igualdade!

Em primeiro lugar, quero deixar claro que endosso tudo o que está escrito acima. Madonna tem toda razão no que diz respeito ao preconceito e reivindicar, através da sua roupa, uma igualdade de gênero. Basta lembrar que ela tem a mesma idade que Brad Pitt, que nunca vi citado em lugar nenhum como homem velho e sim como sexy.

Ao mesmo tempo, tenho dificuldade de repassar e aplaudir esse texto. Um lado meu concorda e o outro se sente incomodado. Ao mesmo tempo que me parece justo, a sua preocupação fala de um caminho que temos seguido, de uma eleição de prioridades. Madonna ousa se vestir dessa forma porque ainda está “gostosa”, “com tudo em cima”. Ela discute o direito à sexualidade e beleza femininos, mas vejo também uma questão anterior e mais profunda, acima de questões de gênero. Mais profunda e mais cercada de tabus, praticamente sem defensores: o direito ao envelhecimento.

Existem, por toda internet, muitas fotos de Antes e Depois, que comparam as celebridades consigo mesmas nas versões jovens e velhas. E, quase sempre, essas comparações concluem que a pessoa está péssima, feia, velha, uma sombra do que um dia foi. Felizmente, essas comparações tem gerado revolta e é fácil concordar que não faz sentido acusar a pessoa de ser uma versão feia de si mesma vinte anos depois. Então proponho o contrário, pensar em quando um Antes e Depois é elogioso. Tina Turner é um desses casos raros:

Essencialmente, o que esse elogio quer dizer, por que Tina Turner sai “vitoriosa” no seu Antes e Depois? Um Antes e Depois elogioso nada mais é do que comemorar que a pessoa mudou pouco. Que mesmo muito mais velha, ela ainda parece com quem ela foi na juventude. Seja através de exercícios, plásticas ou genética, a passagem do tempo deixou poucas marcas visíveis na sua aparência. Digo na aparência e não no corpo porque, ao olhar essas fotos, ninguém se pergunta do preço, das dores ou da saúde. Menos ainda em mudanças de personalidade ou expressão artística. Estamos falando apenas da fachada.

Gosto de pensar que homens e mulheres têm direito à sexualidade e beleza, em qualquer idade. Mas não gosto que sexualidade e beleza estejam ligados sempre à manutenção da juventude. Ou que sexualidade e beleza tenham primazia sobre todas as outras facetas da vida. O tempo nos afasta de quem somos quando temos vinte anos, no corpo e na alma. E essa mudança só é ruim porque atualmente classificamos assim. Não discutirmos a biografia por detrás do Antes e Depois é muito revelador – não importa se o artista melhorou ou sumiu, se foi preso ou lançou disco novo, o chamariz é a feiura. Perdemos o respeito pela experiência e vemos na velhice apenas decadência. As características associadas à idade – paciência, experiência, parcimônia, sabedoria – estão desvalorizadas, então não é à toa que não queremos e não sabemos envelhecer. Em nome do ideal de aparência dos vinte anos, estamos nos encaminhando para uma cobrança de desempenho e luta constantes contra o próprio corpo. Negar a passagem do tempo é negar justamente o que há de mais básico e infalível da vida orgânica.

Belo ou não, o corpo cansa. Enruga, cai, fica mais lento, dói, demora para se recuperar. Há uma fase da vida em que os anos atrás são muito mais vastos do que os que estão pela frente, em que há muito mais o que ser relembrado do que ser sonhado. Mesmo num corpo rejuvenescido e emplasticado, quem está dentro da pele sabe que não é mais o mesmo. Que se tenha o direito de cansar, de diminuir, de envelhecer por dentro e por fora, de ser apenas o que se é. Madonna, Brad Pitt, Tina Turner, eu, você – não somos os mesmos. Eu acho bom, estranho seria se ainda fôssemos. Que os meus vinte anos não sejam meu molde físico, tal como não é o meu molde psicológico.

Uma teoria pessoal sobre moda

Antes, uma historinha: Uma amiga minha, recentemente, estava na sauna do clube Curitibano. Para quem é de fora, o clube Curitibano é o clube mais fresco e tradicional da cidade. Ela estava reclinada com uma toalha em cima dos olhos, o que dava aos outros a impressão de que estava dormindo, mas por debaixo da toalha ela via tudo o que estava acontecendo. Entrou na sauna uma mulher com roupa de ginástica, que provavelmente havia saído da musculação. Era uma mulher bonita, por volta dos seus quarenta anos, cabelo loiro-comprido-liso e conjunto de ginástica colorido. Ok. Aí à medida que a mulher foi tirando a roupa, minha amiga não acreditou no que estava vendo: por debaixo da roupa de ginástica, ela estava com um modelador. Não, ela não havia feito plástica recentemente – era apenas para ficar bem dentro da roupa de ginástica.

Eu vivi os anos 80, vi videos dos anos 70 e agora estou viciada em Downton Abbey e, por incrível que pareça, encontrei algo similar em todas essas modas. Ou, dito de outra maneira, vejo mais semelhanças nos charmosos vestidos de Downton Abbey e as ombreiras que usei na infância do que com o que vestimos hoje. Pense comigo: antigamente os corpos eram mais parecidos. Mesmo se pensarmos que a gordura foi mais valorizada em uma época do que outra, não era tanta gordura assim. As diferenças de peso não variavam pra muito mais de cinquenta quilos, não com o que se comia naquela época, não sem as facilidades que a tecnologia nos oferece. As crianças gordinhas da minha infância hoje nem seriam consideradas gordinhas. A diferença entre as classes, dentre outras coisas, era bastante demarcada pela roupa. A roupa e seus detalhes, tecidos diferentes, costuras e caimentos eram extremamente elaborados. O corpo que havia dentro delas variava muito pouco.

Hoje estamos num padrão de beleza tal, que é impossível chegar a ele sem um investimento pesado de tempo e dinheiro. O tal corpo de academia, com a barriga negativa, a coxa enorme e o peitão não são o corpo de ninguém, não se nasce daquela forma e em nenhum momento da vida o corpo se encaminha para aquela forma. O “corpão” é resultado de alimentação com suplementos e restrições, horas de treinamento específico e diário na academia e cirurgia plástica. Tudo isso numa época em que ser simplesmente magro, como éramos antigamente, já é difícil. Tudo – o avanço da tecnologia, a vida sedentária, alimentos industrializados, medicalização – contribui e nos levou a uma epidemia mundial de obesidade.

Por outro lado, nossas roupas estão cada vez mais simples: um nada de um tecido que estica preso a duas costuras laterais e já temos uma roupa. Sem dizer que a China copia rapidamente e vende a versão barata do que apareceu ontem na loja cara. São roupas que tem um desenho, cuidado e caimento mínimos. Elas esticam. Tudo porque, na verdade, elas não são importantes. O caimento é o corpo, e não a roupa. Mortais comuns ficam horríveis nelas, que de tão coladas exibem com crueldade qualquer “dobrinha”. Não tem sentido cobrir de tecido, volume e curvas um corpo que sofreu tanto investimento. O corpo, sua magreza, seu silicone e suas plásticas é que são ostentados.

O que torna uma vida boa?

Durante 75 anos, a Universidade de Harvard tem acompanhado as mudanças físicas, relacionais, financeiras, desejos e realizações de 174 homens. No caminho tortuoso e imprevisível da vida desses homens, os pesquisadores encontraram alguns insights interessantes sobre a questão mais importante da vida humana: o que nos torna felizes.

(ative as legendas na barra, à direta)

Vida querida, de Alice Munro

Uma literatura de mulheres, feita por mulheres, para mulheres. Quando li essas reivindicações pela primeira vez, fiquei na dúvida. Claro, temos um número desproporcional de escritores homens e seus personagens de ficção masculinos. Às mulheres, na literatura e fora dela, sempre foram destinados os papéis mais secundários. A minha dúvida é se seria possível sentir a diferença entre bons personagens femininos construídos por homens de bons personagens femininos escritos por mulheres. Logo nos primeiros contos do Vida Querida, de Alice Munro, a resposta é um sonoro SIM.

Ler Munro é o prazer de ler uma literatura feminina, mesmo sem saber que diferença de sabor é essa. Talvez possamos pensar na diferença entre as duas literaturas analisando os personagens masculinos da própria Munro. Dos quatorze contos, em apenas dois os personagens principais são homens. Um deles, Trem, começa com um ex-soldado que pula de um trem para fugir não sabemos do quê, e o desenvolvimento da história é desinteressante. Ao contrário dos outros contos, achei que nesse a autora não conseguiu nos envolver e acreditar nas  motivações do personagem. O outro conto, Orgulho, parte do ponto de vista de um homem que nasceu com lábio leporino. Pelos seus questionamentos e, principalmente, pelas coisas que omite, percebemos que por conta dessa característica ele foi relegado, desde sempre, a um papel menor e assexuado. A maneira correta e pouco ambiciosa que ele leva a vida, sua amizade intensa e pura com uma mulher, seu envelhecimento muito anterior ao físico – tudo nele remete ao feminino. Em quantas mulheres não reconhecemos essas características, mulheres que foram criadas para pouco, limites em que a mulher é reduzida a um horizonte muito estreito? Me pareceu muito significativo que o único protagonista homem realmente interessante do livro seja uma outra forma de mulher, ou a forma machista como se vê uma mulher: um homem limitado, com defeito.

Meu pai, que era muito mais estimado que a minha  mãe, era um homem que acreditava em aceitar as cartas que lhe caíssem nas mãos. Minha mãe, não. Ela tinha ascendido da sua vida de menina de fazenda para se tornar professora, mas isso não era o bastante, não havia lhe dado a posição de que ela gostaria de ter na cidade. Ela estava morando no lugar errado e não tinha dinheiro, mas de qualquer maneira não estava preparada. Ela sabia jogar euchre, mas não bridge. Ficava ofendida pela visão de uma mulher fumando. Tenho a impressão de que as pessoas a achavam intrometida e excessivamente gramatical. Ela dizia coisas como “independente disso” e “deveras”. Ela soava como se tivesse nascido numa família esquisita que sempre falava dessa maneira. E não tinha. Eles não falavam assim. Lá na fazenda, as minhas tias e tios falavam como todo mundo. E eles não gostavam muito de minha mãe também. (Vozes, p.286)

Alguns contos tem momentos tão belos que chegam a doer, incompreensões e estratégias de sobrevivência tão femininas. Parece que o olhar mais familiar da autora é o infantil, que permite assistir a realidade e ao mesmo tempo entender tão pouco sobre ela. O olhar de menina nos permite conhecer mães que querem mais do que a sua classe social permite, que abandonam maridos por amores ou que se deixam dominar por eles, que se conformam com amizades e das ilusões que se engole para ter um homem; quem mais, além de uma mulher, poderia falar de mães que insistem em fazer cachinhos fora de moda, de amigas mais velhas que admiramos e só querem  ir pro baile pra dançar, da dor sem reação de ser abandonada por um homem que até ontem dizia que nos amava? A maior parte das histórias é de longa duração e mostra o efeito do tempo sobre cidades, relacionamentos e opiniões. Como todo livro de contos, uns são melhores do que os outros e notamos a persistência de certas abordagens. Mas Alice Munro vale muito a pena e faz jus à fama.

O poder dos introvertidos

Quem é introvertido terá identificação imediata com essa palestra de Susan Cain, autora do best seller O poder dos introvertidos. O pouco que ela nos conta da sua história e até mesmo sua maneira de falar soam muito familiares para aqueles que passaram a vida sendo forçados a trabalhar em grupo e olhados com estranheza cada vez que faziam uma das coisas que os introvertidos mais gostam: estar sozinhos. A autora resgata não apenas o valor da interiorização e do silêncio para aqueles que os amam, mas também como uma qualidade deixada de lado pelas sociedades contemporâneas.