Ontem, 70 anos da morte de Virginia Woolf

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultâneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu- todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. De modo é que é a cois mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, Vem! Estou moralmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo, e necessitando de outro eu) Orlando?, o Orlando de que ela necessita não vir; essses eus de que somos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe pudermos prometer um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multipilicar a sua própria experiência às diferentes condições que impões os seus diferentes eus- e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de forma.

Orlando

Eu não sabia o que era ter um autor até conhecer Virginia Woolf. O seu autor é uma escolha literária, mas também uma escolha tão inconsciente como se apaixonar. E ao mesmo tempo é constante como um parentesco. Posso gostar de muitos outros autores, mas na hora de escolher um autor e um livro, meu coração não hesita em dizer: Orlando, Virginia Woolf.