Antipsiquiatria e experiência pessoal

A antipsiquiatria foi um movimento que surgiu, como o próprio nome sugere, contra a psiquiatria. Se maiores autores foram Ssaz, Laing, Scheff e Goffman. Ssaz afirmava categoricamente que a doença mental não existe. O comportamento incompreendido de algumas pessoas as levariam a ser interpretadas como doentes e tratadas como tal por sua família, equipe médica e sociedade. O doente seria vítima de uma conspiração. Laing, ao estudar esquizofrênicos dentro da sua família, percebeu a presença do que chamou de duplo vínculo: é uma relação que gera conjunto de exigências autoritárias e contraditórias, que tornam impossível ao lado dependente responder de maneira racional. Por isso, a aparente incoerência do comportamento esquizofrênico faria sentido dentro do que lhe foi exigido no seu grupo primário. Scheff trabalha com a teoria da rotulação, que diz que um comportamento disfuncional ocorre em função do comportamento dos outros, e é a maneira como é interpretado que pode fazer com que ele seja visto como doentio. O comportamento transgressor original, que pode ter múltiplas origens (até mesmo orgânicas), faz com que lhe seja atribuído um esteriótipo patológico, que faz com que todas suas ações posteriores sejam interpretadas da mesma maneira. Por fim, Goffman, trabalha com o conceito de estigma. A sociedade é preconceituosa e trabalha em prol da desvalorização de alguns membros. Uma vez vítima do estigma de doente mental, é muito difícil se libertar.

Foi com esse pensamento que eu fui fazer estágio numa clínica psiquiátrica. Eu nem ao menos procurei por ele – uma amiga havia pedido uma vaga, arrumou coisa melhor, e pra não ficar feio me colocou no lugar dela. Eram duas alas, a de pacientes que ficam lá durante o dia e voltam para casa e a da internação. Assim que a gente entrava, tinha que ficar na Ala Dia. Ao contrário do que inicialmente parece, é na ala dia que estão os pacientes mais institucionalizados. Muita gente tem uma crise e se interna durante algumas semanas e nunca mais volta. Para estar na Ala Dia, o paciente estava diagnosticado há anos e tinha uma relação de rotina com o seu internamento. Quem estava na ala dia não tinha emprego- ser doente era seu emprego, o que ocupava seus dias de segunda a sexta. Fui para a clínica com aquela vontade que todo estagiário de psicologia parece ter: eu queria fazer a diferença. Queria fazer como nos filmes – eu encontraria um paciente largado no canto, daqueles que ninguém vê solução. Eu me aproximaria, me tornaria uma amiga e quando todos se dessem conta, ele faria progressos que ninguém nunca imaginou. Todas essas ilusões acabaram logo nos primeiros dias que passei lá.

Eram várias turmas. Uma turma gostava de ver TV, outros gostavam de ouvir rádio, alguns gostavam de desenhar, a maioria gostava de ficar sentada pelos cantos. Os estagiários – geralmente estagiárias, todas novinhas – chegavam e eram simpáticos, e algumas pessoas eram simpáticas também. Não encontrei a revolta que esperava, assim como não encontrei a vontade desesperada de ser salvo. Alguns tinham algo evidente. Lembro em especial de um que adorava conversar com as estagiárias, e logo no segundo dia já contava que andava sonhando com a gente. Talvez para observar a reação e tentar encontrar alguma acolhida, descrevia com detalhes o teor erótico desses sonhos… Na maioria das vezes era preciso conversar com a psicóloga ou ler os prontuários para adivinhar o motivo da internação. Ninguém gostava de sair conversando sobre isso, assim como ninguém aqui fora gosta de mostrar o saldo do banco em vermelho para os outros.

Foram seis meses de estágio, e nesse período não salvei ninguém. E aprendi a jogar sinuca. Ou melhor, aprendi a segurar o taco e acertar a bola, porque sou péssima em sinuca. Por entender muito rápido que não salvaria ninguém, me relacionava com eles como me relacionaria com qualquer outra pessoa aqui fora. Isso me causou uma dor de cabeça muito grande, uma única vez; no geral fez com que os pacientes gostassem muito de mim. Eu tinha uma certa vergonha da equipe médica passar por mim quando estava com o taco na mão; já os pacientes pareciam gostar muito de me ver jogar tão mal. Conversavamos sobre TV, filmes, algumas vezes sobre nada. Pra não dizer que não fiz nenhum vínculo importante, fiquei próxima de uma adolescente, pouca coisa mais nova do que eu, com o diagnóstico de esquizofrenia. A única coisa que ela tinha de diferente era ser quieta e ter um olhar vazio. Ela não parecia ter motivos pra ficar ali, e receberia alta em breve. Só que quando fui fazer estudo de caso e entrevistei o irmão dela, descobri que antes de ser medicada ela sumia de casa de madrugada, andando, e que havia ameaçado a família com um facão.

Essas experiências todas me fizeram ver o porquê a antipsiquiatria é bonita como teoria, mas que contribuiu muito pouco ou nada para ajudar a vida de doentes psiquiátricos. Porque é muito difícil lidar com alguém assim -com alguém que te ameaça comum facão, ou que assedia todas as mulheres que encontra ou que parece indiferente a qualquer contato. É fácil dizer que as pessoas precisam de compreensão; mas é difícil saber o que fazer. É preciso tanta disposição, tempo, dinheiro, abertura e a coragem que na prática talvez não seja possível. Principalmente: eu vi que receber um diagnóstico psiquiátrico realmente estigmatiza profundamente; mas, como toda estigmatização, ela oferece à pessoa um ponto de vista diferente. A partir do estigma, eles olhavam a normalidade – com todas suas cobranças, reprimendas e dores – e calculavam a validade dela. Em outras palavras, a importância de ser normal é posta em dúvida. Muitos, claramente, passaram a preferir viver do outro lado. Querer que todos adotem nossa visão de normalidade, que a felicidade está em ser produtivo e pai de família, também não deixa de ser uma forma de violência.